domingo, 21 de novembro de 2010
O instante, o feitiço, a cangalha
Edson Cury, para os menos avisados, era conhecido como Bolinha. Foi à Janaúba apresentar seu programa durante uma exposição agropecuária. Naquele palquinho antigo do parque, mostrava praticamente seu programa da TV Bandeirantes, cheio de artistas. Alegre, regado a um bom uísque Chivas 12 anos, servido em doses generosas enquanto algum artista de sua “troupe” se apresentava, fez a festa daquele ano. E olha que a Bandeirantes nem pegava direito na cidade gorutubana. Mas a Rita...
Falei certa vez sobre a influência musical da televisão em minha vida. Não foi só a musical. A máquina de fazer doido, do Stanislaw Ponte Preta, nos influenciou – e influencia – em quase tudo. Como os donos da platéia, tipo Bolinha, que me fez recordar Janaúba dos anos de 1980/1990.
E Chacrinha? Foi o grande divulgador da MPB. Alegrava o auditório com suas fantasias, bordões (“Alô, alô, Terezinha” ou “Quem não se comunica, se trumbica”), farta distribuição de bananas, bacalhaus e o troféu abacaxi. Foi através dele que, no início da década de 1970, em Montes Claros, apareceu a “Buzina do Chacrota”, transmitida pela Rádio Sociedade, ZYD-7, diretamente do Ginásio Darcy Ribeiro (e até do Parque de Exposições), comandada pelo insuperável Gélson Dias. A Buzina de GeDê durou de 1970 a 1974. Foi lá que nosso conjunto (olha só, a reunião minha com Ricardo Xarope, Hudo Fidelcino, Grimaldo e Romeu) apresentou a música ‘Preta Pretinha’. Sob vaias! Muitas. Imensas. Milhares. Mas com muito suingue e alegria. Para nós.
Como a Rádio ZYD7 produzia em Montes Claros, naqueles tempos dourados. Ela, como Gedê, Félix Richard e Batista Caldeira, Daniel, Jota Lóis e Goiabão merecem, cada um, um espaço inteiro e maior em nossa vida. Como o de Geraldo Ferreira, Geraldão.
Mas falamos lá de fora. Não podemos esquecer de Flávio Cavalcanti nas tardes de domingo e seu “Um Instante, Maestro”. Como era critico o Cavalcanti. Com quebrava discos. Enquanto ele parava a orquestra, eu começava a escrever “Rádio, Discos e TV” no Diário de Montes Claros, mesma época em que “Pagão de Pai e Mãe”, o programa de estréia do prefeito montes-clarense Luiz Tadeu Leite era levado das sete as oito na “Furiosa”. Jóta Lóis, que por tantos anos animou a cidade com seus programas, mudava-se para Belo Horizonte, onde marcávamos encontro no barzinho do pai de Nelcy Lopes, no bairro Floresta, comendo a típica carne de sol montes-clarina e bebendo uma pinga do norte. Com Geraldão Ferreira a tira-colo.
E – ra-ra-raiiii – o Senor Abravanel, com o Programa Silvio Santos. Empresário bem sucedido, esbanja energia (e alegria) até hoje com suas “colegas de trabalho”. E o peso pesado Faustão. Ô loco, meu! Gostava mais dele em “Perdidos na Noite”,quando improvisava adoidado (inclusive com equipamentos), soltava farpas humorísticas e muita bobagem. Agora, infelizmente, controlado. Coloquemos no rol dessa fama ainda o espontâneo Raul Gil (de tirar o chapéu), a pancadaria de Carlos Massa, o Ratinho, que já não leva ao ar as cenas grotescas de crianças com doenças incuráveis, brigas familiares e bizarrices mais. Nem tem o Ibope de antigamente.
Em Montes Claros ainda era tempo da ZYD7, comandada pelo jornalista Elias Siufi. Tempo de transmissões ao vivo, do show de Teixeira Bastos do Cine São Luiz. Como eu tinha que fazer cara bonita chupando limão e aguentando as graçinhas da platéia, para ganhar pacotes de Café Primor (ou Diplomata). Tudo isso nos resume o instante, o feitiço, a cangalha.
Já podeis, oh! filhos da puta...
agora já sei que essa força opressora vem esmagadora da corja do rei.
Lutei, mas meus sonhos foram esmagados, foram massacrados como tantos mais.
Pelo bem da paz eu fui expatriado, me vi exilado, jogado ao desterro,
e meu único erro foi ter ideais...
Estes versos me retornam à mente, 24 anos depois de ouvi-los numa noite ventosa gorutubana. E me confirmam que naquela noite de domingo, 13 de julho de 1986, votei certo, convicto, fiz o lobby mais do que perfeito para que “Pátria Amada”, do belo-horizontino Marco Holanda – um moreninho com cara de Bob Marley –, era a música certa para ganhar o 1º Festijan – Festival de Canção Popular do Vale do Gorutuba. O tempo passa, mas ele, o tempo, é que é matéria do entendimento...
Pois corria o ano da graça de 1986 quando surgiu, em uma conversa com o engenheiro José Carlos Moreira, na casa do Aroldo e Hilda Azevedo, com a presença ainda do Beija Flor, Marquinhos Doideira, Argentino Barbosa, Júlio Lacerda, ali, na rua Francisco Sá, abaixo da praça Dr. Rockert, a idéia de se fazer um movimento cultural em Janaúba. O objetivo seria o reavivamento e divulgação da cultura popular do Vale do Gorutuba. Além da valorização do artista da região e o intercâmbio das entidades culturais da cidade gorutubana.
Foi assim que surgiu o JANARTE – Movimento Artístico e Cultural de Janaúba. Tinha como meta, também, servir como agente de desenvolvimento da cultura, proporcionando condições aos artistas da terra de mostrarem os seus trabalhos a nível local, regional e, quiçá, nacional.
O sonho, porém, era muito grande. Conseguimos muito pouco para quem queria abraçar o Vale. Ou, quiçá, o mundo!
Uma das coisas boas que ficou foi o 1º Festijan, promovido pela Associação Comunitária de Janaúba, com apoio da Rádio Gorutubana. Tinha a frente, naquela época, as irmãs Antonia e Erenice Maria Ribeiro, além de Maria da Glória Soares e Vilma Rodrigues Silveira. Era um projeto grandioso, diga-se de passagem. A festa teria shows com Vinicius Cantuária, Ladston Nascimento, Tino Gomes, Charles Boavista & Gaspar Durães, culminando com Zé Ramalho da Paraíba, no último dia.
Não tenho ódio, nem guardo rancores. Não falo de flores como antes falava. São águas passadas, não movem moinhos, e um homem sozinho não faz carnaval... Este menino Marco, que nunca mais vi, nem conheci direito para mais do que dez palavras, não me sai da cabeça.
O festival foi realizado no parque de exposições, entre os dias 11 e 13 de julho de 1986, e apesar do vento daqueles dias, levou um grande público, além de levar à cidade muita gente de fora.
Entre os jurados estava Tadeu Martins, então diretor presidente da Turminas. Ele estava conhecendo a cidade pela primeira vez e adorou quando o levei a um boteco, onde serviam pinga com coco e fritada de piabas do Rio Gorutuba - naquela época, elas existiam e eram servidas em alguns bareszinhos. O dono do lugar, Toninho Sapateiro, consertava mesmo era a bicicleta, e depois resolver ir plantar coco no Jaíbão.
Hoje, tantos anos depois ,escuto a gravação destas canções. Algumas lindas, outras, nem tanto, mas que marcaram. E ainda dá nó no peito escutá-las. Ainda dá saudade dos amigos que estão naquela terra. Parodiando João Rosa, poderia dizer que amigo não é substantivo: é luz lembrada!
Não te quero mal, está é a realidade, mas trago a verdade no meu peito ferido. Eu não fui vencido, inda guardo pra mim o cheiro de alecrim do poeta da gente: esqueceram sementes em nosso jardim.
O Festijan movimento Janaúba. E as meninas da Associação Comunitária trabalharam certo. Minha casa virou pensão, hotel, abrigo para uma leva de gente. Edvaldo Pinheiro, Alexandre Souto, Fatel, Jorge Santos, José Basílio, Sandra Pezão, Eustáquio Correia, o sociólogo Tatá, que acampou no parque mas, sem aguentar o vento (que levou sua barraca), procurou a pensão... Minha casa era um entra e sai, coisa gostosa para quem está longe de casa.
A música vencedora foi, claro, Pátria Amada – Já podeis oh!, filhos da pátria, ver contente a mãe gentil/ Oh! Pátria Amada salve! Salvem meu Brasil/ Da mesma América que Colombo descobriu... Já podeis oh!, filhos da puta –. Marco Holanda, oriundo de Belo Horizonte, tinha uma voz forte, se fez acompanhar apenas pela viola, e impressionou não só a mim, mas muita gente que estava por ali. Marco era dono de uma interpretação pra lá de exótica. Quem assistiu nunca mais se esquecerá daquele sujeito estranho, dono de uma voz grave, que gritava ao final de cada frase. Fico sabendo agora que ele foi mais um que partiu, não sei para onde... Os anjos e querubíns devem acompanhá-lo em novas canções... Se é que não virou um anjo também. Um anjo de ébano, profano e extravagante.
Montes Claros ficou com o segundo lugar, com a canção “Acorda” – Vem, acorda desse laço, desse nó/ Mas não chora não, velha, morta cicatriz –. É de Junior Queiróz, que estava acompanhado por banda.
O terceiro, quarto e quinto lugares foram de Janaúba. O terceiro, com o grupo Portal do Sertão (na verdade o Canto Livre de Delvi, Tino, Bhá e Eliane). “Nascente” foi a música (Águas claras vem daquela fonte/ descem tranquilas por entre os montes/ trazem desejos, levam saudades/ pra minha amada, trazem felicidade). Também levaram o quarto lugar com “Cheiro de Chão” (A noite é fria quando não tem lua cheia/ quando tem vem clareando até a barra do dia/ este riacho quando seco dá cacimba em qualquer beco).
O quinto foi para a dupla formada por Vanderley Araújo e Lázaro Antunes, “Tropeiro do Vale” (Tropeiro do gorutuba/ acorda homem valente/ seu sonho já terminou/ e seu reinado fincou).
O Festijan marcou Janaúba, como marcou aqueles que dele participaram. Só por isso, vamos entrar no meio dele, hoje, como se estivesse acontecendo agora.
Por lá estavam – e se apresentaram – o montes-clarense Domingos Ramos (com a singela e romântica “Sem Preconceito – Você nem imagina/ o que existe dentro de mim/ são mil poemas criados no seu olhar!”). Um tempo depois, virou roqueiro.
O poeta José Basílio, de Coração de Jesus, que trazia o suingue nas letras e melodias que compunha. Morreu cedo, levado pela bebida. No Festijan mostrou-nos “Mortalhas” (Sonhei que tudo era fácil/ e me mudei nos traços/ que a vida traçou), e “Futuro Azul (Alerta total, Araraquara, maçarico, pirarucu/ eu escorreguem das nascentes/ e esbocei no futuro o azul).
O quarteto formado por João Mário Bhá, Delvi, Tino e Eliane apresentou ainda “Êxodo Rural” (Depois cresci e aprendi que a vida/ na cidade grande é uma subida/ mas pra subir é que a coisa muda/ pois pra descer qualquer santo ajuda) e a gostosa “Companheiro de Reis” (Na roça participei/ numa festa de reizado/ foi no mês de janeiro/ e não tava acostumado). Lançaram um CD muito bonito, mas seguiram viagem, cada um seu rumo. Dia destes me liga Bhá, morando agora em Januária. Gravou outro CD, que ficou de me mandar. Deve conter músicas gostosas, como as que sempre compôs.
Por lá passaram também Eustáquio Corrêa, de Almenara, com “Andante” (Se o mundo é uma viravolta/ eu vou dar a volta por aí). Seguiu seu conselho e hoje mora na Espanha, onde faz shows em bareszinhos, depois de penar por Portugal; a montes-clarense Lis Xavier, que defendeu “Vida” (Há tantas imagens. Versos/ músicas de Baha’u’lláh!).
Jorginho Santos com “São João Desilusão”, dele e de Ernani Camisasca (São João ta morrendo/ no mundo de agora/ O quentão esquentante de Dona Maria/ Acabou-se também/ Faleceu a euforia). Resolveu dar um tempo na terra e acompanhou Zé Basílio para o céu. O bocaiuvense Carlos Maia cantou “A Beleza do Amor” (Eu quero é viver. Cantar e sonhar/ eu quero é amar você). Hoje, faz dupla com Charles Boavista, do Raízes, e preparam novo CD.
Madson Athaide, de Montes Claros, com “O último sonho não será real”, dele e de Gute Brandão (O mistério está no ventre deste século 20/ as estrelas são destroços que se perdem no eco).
O piraporense Josecé Alves mostrou “Piramontes” (A velha estrada/ não tem morro nem chapada/ já sumiu a passarada/ ave de arribação). Depois da ARPPNM, lançou seu CD solo, gravou festivais mil e continua a vida de viajante musical. Muito bem, pode-se afirmar.
Milton Edilberto veio de Belo Horizonte com sua criação, a música pósfolia (ou new boi) “Carregando o Mundo” (Estamos na nova ré/ ré publica de maré/ de ci).
Élcio Lucas (com João Carlos Oliveira) tinha “Saci da Serra” (E morre o homem fraco/ homem que antes forte/ e morre o homem preso/ homem que antes, livre). Professor da Unimontes, deve compor, mas não nos mostra. Sacana, guarda pra si. Tudo bem. Não acredito que tenha aposentado da música, depois de ter lançado um compacto duplo meio pro roqueiro e um LP ambiental, que ouço sempre nas tardes desta cidade, principalmente quando vejo (ou lembro) do Verde Grande.
De BH, José Rubens apareceu com “Rosa do Sertão” (Gravatá/ mandacaru/ rosa do sertão/ olha lá quem vem chegando/ é o primo Lampião) e Embolada do Jequi.
Paulo de Souza Nunes, de Montes Claros, cantou “Nordestino” (Terra seca, rede vazia/ criança com fome/ passa mais um dia/ morre aos poucos, o homem). Ainda compõe vez ou outra, em Belo horizonte onde foi parar.
Nativo Xavier, de Porteirinha, compareceu com “Robot de Ferro”; Atualpa Viana, de Belo Horizonte, com “Real Natureza”; e Érica Viana, também da capital mineira, com “Novo Amanhecer”
Janaúba teve outros representantes.
O Grupo Musical Experimental por exemplo, formado pelo grande Donizete, acompanhado ainda por Ruy e Joaquim, cantou “Cor de um sonho” (Se tem cor da natureza/ me inspira o infinito/ porque existir a guerra/ se o amor é tão bonito) e “Chegada do trem” (Sinhá mocinha/ quando foi conhecer a estação/ fez a sua matutagem/ e arriou seu alazão); o cantor e compositor Carlito apresentou junto com Nilson a bela “Emoções” (Ouço as flores a me falar/ seu perfume a me tocar/ ouço o vento dizendo/ que vai me levar); Wagner Tadeu (com Mauro Sérgio) apresentaram “De Vago” (Nós somos máscaras sem nome/ onde se consome o ser ou não ser, feliz); Nelinho Gomes e sua “Tem que falar” (Sei que é difícil se ver/ as flores do campo florindo/ o verde da cor de mato/ mas não uma bomba explodir). E Cícero Billy Alves, com “Confissões de um errante”. Desta turma gorutubana, Cicero foi o único a se transformar em músico profissional. Lembro-me no dia que conseguiu sua carteira na Ordem dos Músicos, um sábado pela manhã. Gravou diversos CDs, e está em plena inspiração, preparando seu próximo rebento.
Quase 30 anos depois, aqueles dias devem estar ainda na cabeça de muita gente. Que participou, que ajudou a construir, e mesmo aqueles que só foram dar uma olhada. O Janarte vive, ainda, sem nome, pagão de pai e mãe. Pois é, falamos dos nossos sonhos, e quase entramos na fantasia da cidade...
Meninos e meninas
São meninos como Ricardo Xarope, por exemplo. Era um poeta sem conseguir escrever uma linha. Era um poeta do som e da imaginação. Sempre tratou meus versos como desenhos de sensações e criou cantares vagos, mas de sonoridade possante. Quantas vezes, nas noites boêmias, sentimos nossas almas como irmãs gêmeas...
Aline era uma revolucionária que queria ser normal. Sofreu com escolhas entre dois mundos, entre uma ordem burguesa e uma rebeldia natural. Sempre olhava para o céu como se estivesse no Vale da Lua, no Atacama. Apesar de contemporânea e de cantar tortuosamente, ou não, uma música relativamente moderna, Aline Luz nada tinha a ver com o cinema novo ou com a nouvelle vague francesa.
Já os escritos de Felipe Gabrich tem um quê de filme da nouvelle vague e um quê de moderninho. Tem uma irresponsabilidade e um frescor nos mesmos tópicos que podem até soar como um tanto esnobe para alguns leitores. Mas são relatos divertidos, sentidos, consentidos, que compõe o mundo que Felipe retrata tão bem. Não falta ambição em suas crônicas, em seus escritos, mas isso não deve ser confundido com arrogância.
Meu primo Mauro era taxista e a alma encantadora da rua...
Dilma só usa calcinha de algodão.
Grimaldo era o engraçadinho da turma do TG 04-087 naquele ano de 1972. Era ele o xavequeiro, o pegador, o ambicioso, o intenso, o provocador, o violento, o egomaníaco. Começamos nosso aprendizado em 15 de janeiro, e terminamos dia 19 de novembro, com o juramento à bandeira na praça Pio XII. Virei soldado de reserva. Grimaldo também só que continuou um tempo sendo uma mala, querendo ser o maior do mundo. Vagabundo, boêmio, louco. Genial! Desgracioso, mas amigo. Só isso.
Fátima de Paula teve um casamento aberto. Outros não foram tão abertos. E outros mais foram totalmente fechados. O dela era tão aberto que ela saiu pela porta e não voltou. Foi parar no céu.
O coração de meu primo João César segue cego e feliz, como uma carta extraviada, na alegria insegura da desorientação. Ele me ensinou que vemos a vida através do buraco da fechadura, de modo limitado. Então, para preenchermos as vagas, inventamos coisas...
Lurdinha tem uma personalidade única, ensimesmada. Já tentou o suicídio e fica muito perto de um clichê de narcisista. Crê sofrer por ser sensível e frágil, e ser tão frágil por ser sensível. É uma alma criativa e torturada, torturada por que criativa e vice versa. Era assim quando a conheci, é assim ainda, com aquela loirice e olhos de encantar serpente. É uma declaração de amor ao próximo.
Aroldo ama a algazarra, Este amante da balbúrdia sempre cavalga encostado ao meu sóbrio ombro. Colares era um artista inquieto. Tanto que vale a pena acompanhar seu trajeto. Barbosa é uma figuraça, que não segue a corrente. Está sempre em dia com sua rebeldia. Já Teixeira não é tão Syd Barret assim, nem um Dali, mas aqui faz artes e pinta o sete com um dicionário de lugares e figuras imagináveis. Joba é um poeta antropófago, e não uma abstração. Márcio Hiram é aquele primo que manda noticias, quadrinhas, lembranças no Natal. Gy Reis é um guerrilheiro maxista de origem burguesa, como tantos que se produzem na América Latrina. Já Gualter pode acender uma vela para Deus e outra para o diabo, pois é uma mera questão de ter os fósforos necessários.
Itamaury é um filme caseiro. Bem dirigido, com capricho e inventividade mas no fim das contas, um filme caseiro. Dem mudou de nome. Vai se chamar Rece Bem! Maluquices destes meninos.
Carlos Ronaldo tem uma imagem plácida e naturalista, brinca, joga bola, fez teatro e toca (mal) violão. É jovial e genial. Um cara que esta sempre legal, nascendo a cada minuto. Era neo-socialista, libertário, mas organizado. Hoje, não sei. Cuidadoso, vivia sempre em ponto de ebulição. Hoje, experenciou...!!!
Pitchu é representante da classe média ascendente, tem marido, filhos e sonha com o dia em que terminará de erguer uma loja na pequena cidade onde vive, no Norte de Minas.
Rubim? Para conhecer Rubim se requer humor e sabedoria. Era o Miles Davis da bateria do bloco Biô e Salomé. É, ainda hoje, uma espécie de meu Pajé. E segue a vida, sendo eterno aprendiz.
Luiz Carlos Vieira, o Luiz Gastabala, era amigo de Zé Trambique e Suruba. Veio do morro (Morrinhos), onde viveu seus melhores anos junto a Dona Linda, Marquinhos 98, Beto e outros. A casa de Dona Linda era sua casa, deixando sempre Dona Elza a espera, com um prato de comida pronto no fogão. Dava uma de lutador de Shaolin, e chegou a tomar uma garrafada de abortivo pensando que fosse pinga. Era daqueles que não deixava o Carnaval chegar, estava no Carnaval o ano inteiro. Foi mestre de bateria uma vez na Porteirinha de Wilson Cunha. Para ele, a bateria tinha que ser sentida, tinha que entrar na alma.
Não me lembro seu nome. Era uma mulher interessantíssima e bonitíssima, com mil lembranças para contar, mil histórias para narrar. Ficava no Mangueirinha ou no Espeto de Ouro praticamente até o dia amanhecer, com aquela voz forte, tomando suas caipirinhas numa boa. Depois que o marido levava as crianças na escola, passava para buscá-la.
Zé de Chorró pensou que sabia voar, e pulou de uma janela do quarto andar de um hospital em Belo Horizonte. Deve estar voando até hoje...
Celso de Marcão, Leal e Beatriz era irônico, sem ser mortal. Delicado, sem ser afetado. Seu tom seco era de uma doce melancolia. Era um jovem solitário e irascível. Tinha um humor ácido e podia ser maldoso. Desprezava qualquer tipo de autoridade. Sua vida daria um filme simples, sobre um personagem nem tanto, mas um senhor ator..
Altanir Castro e Silva, o Taninha, é um homem pequeno, mas de uma coragem imensa. Antigamente, era o sommelier de tubaínas. Hoje, não dorme a noite.
Marquinhos Doideira teve uma existência atormentada, marcada pela inquietação, por neuroses. Era obcecado pelo silêncio. Vaidoso, teve uma vida familiar tranquila, uma relação afetiva tépida, sem sobressaltos. Depois que sua mulher se foi, ficou paciente.
Emerson Cardoso era algo diferente. Cantou naquele show do cine Montes Claros algo performático. Tinha um visual andrógino e o corpo cheio de purpurina. Lembrava Ney. Com voz de Bethânia. Não era um nem outro. Nem é.
João Balaio está consagrado como cônsul-geral do Reino dos Países Baixos do Pequistão. Ainda hoje, um mistério. É de direita ou de esquerda? Altruísta ou ambicioso? João Balaio é um homem sério, que deixa a vida e a morte para trás.
Leonardo Campos era um leão da metro. Dava dois urros e o resto era fita. Ele, porém, habita o segundo andar da percepção.
Para os que foram e principalmente para os que estão, o tempo que resta deve ser bem vivido. A única certeza que temos é do instante presente, do minuto no qual sabemos que ainda estamos vivos. É incômodo sabermos que somos seres descartáveis, que vamos virar pó. Mas é a vida... Agorinha mesmo, saia um som da janela da casa do Eugerson, no inicio da Padre Augusto, que me chamou a atenção. Acho que gosto de São Paulo/ E gosto de São João/ Gosto de São Francisco e São Sebastião/ E eu gosto de meninas e meninos...
Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar
meninos e meninas
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Não tenho nada com isso, nem vem falar...
Vendo uma foto, preto e branco, nós, os amigos, lá de calção e tudo. Quantos anos! Eles, que já se foram, e eu, um cara que ainda acredita em alguma coisa. Pois desisto de resistir e falo da marijuana. Faço de forma oblíqua, marginal. Pior do que superficial.
Ando meio desligado, como música de Mutantes. O Tino Gomes ‘conversa’ pelo MSN e diz que ando saudosista. Chega de saudade! A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai!
Quero apenas registrar um tempo que, se não o fizer, passa. Como tudo passa...
Por exemplo, o tempo de Roberto Luiz Veloso Costa, nosso Bob da fazenda Vargem Grande. E seus chás. Desaparecido pelas Brasílias da vida, reapareceu, casado. Saia, durante a semana, pelos montes ao nosso redor, a procura de cogumelos... E aos sábados à tarde, pedia emprestado a panela de pressão. Depressão maior não havia! Aquele caldo vermelho-sangue, que fazia o Virgilio de Paula fazer cara ruim e correr para brincar com Edgar Alan Pöe, nosso macaco de estimação, do qual ele era o padrinho... Só ele, Bob, se servia e ficava a ver os pássaros. Que só ele via. Era noite.
Teve o tempo de Tiãozim Comunista, com seu bolo de marijuana, que efeito nenhum dava. Apenas aquele cheirão esquisito pela casa, enquanto assava ao som da Billi Holliday na velha Gradiente e o ‘deixar relaxar’, para ver o que vinha depois. Ou seria a música ‘Revolution nº 9’, dos Beatles? Talvez o Georgino Junior lembre melhor.
O tempo parou de repente naquele 10 de fevereiro de 1978, em que Si Baixim resolveu fritar uma porção de maconha – que ficou úmida por estar escondida na cumieira de sua casa, no Morrinho. Enquanto isso, na sala, Rai Colares desenhava rostos e gostos, e à maneira de Sid Vicious, dançava embrulhado numa bandeira do Brasil a música ‘Bandido Corazon’. Goiabão poetizava Americana Pátria, morena, quiero tener guitarra y canto libre!
Acabamos todos nós indo para o Bandeira Dois, comer uma sopa de legumes com caldo de feijão.
A lista dos que fumaram maconha pelo menos uma vez na vida, é longa: Baudelaire, Bill Gates, Shakespeare... Pra ficar naqueles de lá. Baudelaire sugeriu, depois de um tapa, para “embriagarmos de vinho, poesia e virtude”. Coisa mais bonita!
Um dos meus amigos mais chegados achou horrível a “tal da maconha”, mas o cheiro, ótimo. Tanto que usa até hoje seu perfume.
Na minha tenra juventude, as transformações foram muitas e radicais. Existiam os direitistas e os rebeldes sem causa. Afinal, todos devemos encarar nossas parcelas de solidão.
Nu, cru e lavado!
Era época de Emílio Garrastazu Médici, quando a turma se especializava na arte de burlar a democracia. O que importava para eles, os milicos, era a ditadura. A maconha estava liberada. Pelo menos no país dos Montes Claros.
Era época de desenvolver a alma. Tudo previsível.
Mas a vida faz as coisas imprevisíveis. Nunca acontecem daquele jeito que se quer. E as coisas imprevisíveis acabam levando a vida.
Dia destes Bianca, minha filha, estava assistindo ao filme ‘Hair’ comigo, quando veio com essa: – Já sei por que aquela sua amiga anda com estas roupas. Ela continua chapada na época do flower Power”.
Interessante a observação.
Àquela época, assistir Hair em Belo Horizonte era uma dificuldade. Mas ver Armando Bogus, Altair Lima, Araci Balabarian, Sonia Braga, Bibi Voguel... era demais. E mais ainda, escutar Aquarius; Donna; Manchester, Inglaterra; Fácil Dizer Não; Hare Krisha; Bom Dia, Estrela e Deixe o Sol Entrar? Era um desbunde total!
Aquela melodias espontâneas, os ritmos excitantes, as idéias das letras, das canções. E Sônia Braga! Entre os que se encantaram com Sônia, estava Caetano Veloso que compôs Tigresa em sua homenagem. Sônia era a tigresa de unhas negras e íris cor de mel, que trabalhou no Hair.
Emoção maior era assistir a peça pela segunda vez. Pois Hair não é espetáculo para uma vez, é para se comprar o filme e assistir ainda hoje. Pena que a peça de teatro não fora gravada.
Cada vez que você vê o filme, descobre muita coisa que passa despercebida, como acontece com certa sobras musicais de valor. Cada vez gosta-se mais e mais se aproveita.
A gente era jovem naqueles anos, e tínhamos muito a reclamar. Ou não. A gente se reunia nas casas para falar de poesia. Foi assim que nasceu a Academia Juvenil de Letras. Foi assim que se criou o Catibum! Nós nunca deixamos de ser loucos!
Naquela época existiam aquelas moças de família e as outras. Estas outras se divertiam mais. Davam mais. Agradavam a gente mais.
E peregrino do max flower, Ricardo Xarope, tinha um chame desgraçado de simpatia para elas. O que sobrava... seria para nós.
Naquela época, os marginais que éramos não sabiam que iriam acabar virando uma instituição.
Sinto hoje, nestes Montes Claros, o que há muito não sentia. As cousas não tem segredo no corredor dessa casa, onde escrevo tranquilo na copa das árvores.
Nós estamos semeando, companheiros, no coração, manhãs e frutos e sonhos.
Nós preparamos, companheiro, sem ilusão, um novo tempo.
Que já está aí.
E o céu se rirá d’amore no olho azul de Zildete, aquela amiga de Marta, que tem tantos anos não vejo. Cigarra sem horizonte. Cadê você, menina?
É como o quadro do Konstantin sobre a parede gris da solidão.
Montes Claros, terra do encantamento
Pois Montes Claros é a cidade onde o povo ousa sonhar e realizar seus sonhos. É a cidade onde existe uma Praça da Matriz como em outras aldeias, mas também um morro Dois Irmãos, um arroz com pequi acompanhado da seresta ao luar. É a terra que tem além de uma igrejinha em cima do Morrinho, cachaça e carne de sol pra saborear num mercado que poderá vir a ser modelo, existem pessoas. E uma cultura sempre presente em todos os cantos. Inclusive dentro de cada um de nós, montes-clarinos sertanejos de Rosa.
Mas para que ela continue vivendo dentro de cada um, é preciso permitir que as novas gerações desfrutem da tradição e a mantenha viva.
É necessário fortalecer as associações e entidades culturais, universalizar os direitos e serviços culturais permanentemente.
É necessário juntar o ontem e o hoje, o velho e o novo, e dar prosseguimento.
O escritor, poeta, artista e encantador Georgino Jorge de Souza Junior lembra que quando da criação do grupo Catibum, aqueles jovens dos anos 1970 (meninos de 20 e poucos anos) queriam mostrar o novo que eram. Revolucionar, participar de uns novos montes claros. Hoje, eles querem abrir o espaço para os novos, mesmo novos de cabeça. Pois a cultura não é estanque, é algo vivo e fluido como um rio no seu curso.
É claro que é preciso ter cuidados.
Montes Claros cresce muito culturalmente todos os anos.
João Batista (Joba) Costa, quando aqui chegou, aos 10 anos de idade, disse que a cultura dessa terra o pegou e tomou conta do seu ser.
Montes Claros é assim.
Uma cidade com uma intensa vivência de manifestações culturais.
Para se tornar universal é preciso, acima de tudo, conhecer a nossa aldeia, como a chama Augusto Vieira, meu Bala Doce querido.
E ela, como mostra o escritor Bala Doce, não está limitada geograficamente e historicamente a um local.
A alma de seu povo é viva, cheia de gostos e costumes característicos. Preserva sua identidade e perpetua sua história.
Montes Claros é a cidade da arte e da cultura. É a cidade que montesclareou como na lenda de uma linda canção.
É a cidade da Feira de Arte e do Artesanato, da Festa Nacional do Pequi, do Conservatório Lorenzo Fernândez, do Festival de Forró e Quadrilha, ou de apenas colocar o Papo em Dia num boteco qualquer, num fim de tarde qualquer.
É o local da Casa do Artesão, da FLIMC – Festa Literária Internacional de Montes Claros, do Psiu Poético, do ProMemoc, da Mostra de Teatro, do Museu do Folclore, Circuladô, das festas de Agosto, do Festival Folclórico, Festival Internacional do Folclore, Semana da Consciência Gay, da Consciência Negra e das Folias de Reis. Devo ter esquecido alguns, já que são tantos.
É aqui que está o Parque da Lapa Grande, o Consórcio Literário Oficina das Letras, o sobrado dos Maurício e o solar dos Oliveira, a Terça Cultural e a casa da Arte & Ofício, onde se aprende a construir rabecas, violas caipiras e a montesclarear, como quer Eduardo Goiabão Lima...
Montes Claros é a cidade de Dona Eva Barbara, Yuri Popoff, Godofredo Guedes, Márcia Prates, Darcy Ribeiro, Roxa, dos meninos do Grupo Agreste, Hermes de Paula e Yvone Silveira, Miguel Marujo, Ray Colares e Nossa Senhora do Rosário. Terra do encantamento.
É terra do jucapratismo, da música belo-horizontina de Beto Guedes, das artes e manhas de João Rodrigues e Konstantin Christoff, da melodia holandesa de Marcelo Godoy, do prazer de se falar no Lês Cherries, Zezé Colares, Mamãe-vovó, Catira, Tino Gomes, Zé Coco do Riachão, Armênio Graça, dos meninos do Grupo Raízes e São Benedito. Terra do viver encantado.
De João Chaves, Yara Tupinambá, Cyro dos Anjos, Urze de Almeida, Sebastião (Ducho) Mendes, Zanza, Joaquim de Paula, Carlos Muniz, Cândido Canela, Amelina Chaves, Amelinha Souto e o Divino Espírito Santo, além dos reis, imperadores e festeiros. Terá do encantar.
A cultura da cidade encanta a todos que a conhecem.
Ela pertence a todos e a cada um.
E a descentralização das ações culturais tomadas ultimamente proporciona uma proximidade maior do povo com seus eventos.
Isto, sem se apropriar dos saberes deste povo.
Deve-se deixar que o artista viva a sua arte.
Como diz Wanderlino Arruda, é até pecado falar de todas as vantagens que Montes Claros têm, pois não gostamos de fazer inveja.
Montes Claros é o centro do Paraíso terrestre.
Montes Claros já está montesclareada.
Falta seguir em frente.
Falta virar o centro do mundo.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Apenas garotos (No mundo da rua II)
As imagens ficam na cabeça da gente. Jimi Hendrix coloca fogo em sua guitarra em Monterrey, naquele surrealismo púrpuro; Janis Joplin vomita seu amor nas canções em Woodstock; David Bowie, glitter, glam, luz, brilho. Tudo e nada ao mesmo tempo. Pensa-se em guardar tudo: a idade, o sonho, o amor, a alegria mortal de uma metáfora. Impossível!
Os dias que são passado, vão indo em fila para o sertão, mas o amor é que é o destino verdadeiro. Eu era apaixonado por Marta naqueles anos dourados da vida, belezas, dores e alegrias que passaram como um som. Era meu sonho, meu amor, minha vida, meu caso, contigo eu me caso, pensava, curtindo delícias, querendo, sabendo, vivendo
Eu ficava no mesmo quarto que Rays, que gostava de dormir ouvindo canções madrugada afora. Ele tinha um radinho de válvulas e a música vinha sempre misturada com os ruídos da estática. Ali escutava, à noite, músicas que faziam a cabeça do mundo.
Foi naquele quarto também que vi os anjos pela primeira vez. A memória pode até falhar, mas não falta. Um dele era alto e brilhava como nácar, iridescente. As luzes se manifestavam de várias cores. Rays disse que vi a deusa Venus, criada pelas espumas do mar. Eu acho que o vi. Acho não, tenho certeza.
Foi o verão em conheci o mundo depois de Montes Claros aquele de 1973. Antes, havia viajado até Ouro Preto para um Festival de Inverno onde comi batata portuguesa amassada com arroz durante 30 dias, tomando batida de limão para esquentar o frio. E quando mais criança, Guarapari, no Espírito Santo, Guanambi e Lapa do Bom Jesus, na Bahia. Belo Horizonte não contava. Mesmo naquelas intermináveis viagens de trem. E o Norte de Minas era meu quintal.
Pois foi sentindo na pele estas reações que decidimos sair on the road. Era o verão da paz e do amor. O início da década de 1970 era os anos da mudança. E foi aquela viagem inesperada que mudou de fato o curso da vida daqueles 4 rapazes. Para sempre. Afinal, vocês ainda se lembram do futuro que a gente combinou?
Éramos apenas 4 garotos, como os Beatles ou os Rolling Stones. Cantávamos ‘Like a Rolling Stone’ com Dylan , como se quiséssemos entrar para a banda, como se fôssemos um rolling stone, uma pedra que rolava e nunca criava limo. “Deve ser ruim não ter onde ficar, completamente sozinho, como um pedra a rolar...”
Tínhamos uma troca mútua de influências artísticas e companheirismo. Sonhávamos, ingenuamente, com um futuro melhor. O coração ficou numa casa da rua João Souto, enquanto o corpo seguia
Primeiro foi Pedra Azul, mas depois dali, quantos caminhos ainda poderiam se dividir a frente? Depois daquele festival, do Woodstock tupiniquim na distante terra de Saulo Laranjeira, pé na estrada rumo a Salvador.
Não tínhamos uma ‘Route
Não sabia muito bem o que iria fazer lá. Mas naquele tempo dizia-se muito em colocar o pé na estrada, dar o fora, drop out. E fomos para Salvador, onde imaginávamos estar o novo Woodstock brasileiro, que havíamos deixado para trás. Na cabeça, o encontro com motoqueiros, trailers com famílias hippies, beatniks, artistas, aventureiros como nós. Nada disso, na verdade, acontecia. Mas tínhamos as rédeas do nosso tempo e, principalmente, a sensação de liberdade. Que faltava no país naquele momento.
Depois de andar
A primeira não demorou. Foi num caminhão que transportava pneus de trator. Os 4 foram lá, deitados, tocando violão e curtindo o sol, até chegar à tardinha
A estrada pela frente, retas que não acabam mais, passando por Veredinho e chegando a Vitória da Conquista. Ali, a dúvida. Vamos seguir em frente ou visitar o tio do Udo, Bado e dona Fia, em Caculé?
Vamos fazer arte nos lugares que estivermos a fim de ir. O nomadismo hippie nos leva pelo vento, para ser devorado na próxima esquina. Ou virar anúncio de inseticida. Mas que tal antes uma chegada a Barra da Choça? Pra que? Ver o final da tarde, a noite cair no árido chão. É como se as montanhas caíssem... Alguém já havia me falado disso. Meu pai?
No outro dia, pé na estrada, seguindo nossa rota, para descortinar o novo e, quem sabe, uma cidadezinha saída de filme de caubói... Era nossa viagem de contestação ao American Way of Life (ou Ditadura Way of life?), como no filme Easy Rider. Mas não estava embalada por uma trilha sonora inesquecível como a daquele filme. Nem tínhamos a atuação de um bêbado como Jack Nicholson. Embora encontrássemos vários bêbados pelo caminho. E equilibristas da vida.
Talvez fosse a inspiração da música que o Tino Gomes e Valmir Melancolia ainda fariam. Fomos embalados por ela: Venho descendo serra, passando ponte neste temporal... E as cidades vão ficando para trás: José Gonçalves, Planalto, Poções, Manoel Vitorino, Boaçu.
Em Jequié, novamente uma noite para dormir. No jantar, melancia roubada na feira. Relâmpagos assustam a calma das sombras. Estávamos longe de casa, entre montanhas, rios e gado. Além de pernilongos. A saudade ainda bate no coração enfermo. Saudade de um abraço, de um beijo, daquele colo de amor, amigo.
Dia seguinte, mais caminhar, descortinar paisagens, a alma da ave, da ave que voa, é a alma do homem, do homem que voa. E lá vem carona para Baixão, uma passadinha por Jaguaquara e Itaquara, seguir caminho por Irajuba, Milagres, Itatim, Paraguaçu, Santo Estevão... E olha lá Feira de Santana! Estamos chegando... Aqui e agora, ontem, hoje, o amanhã. Qual o que! Tem Coração de Maria, Amélia Rodrigues, São Sebastião do Passe, Candeias, Simões Filho. Mas leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa: é Salvador...
E Madre de Deus, por que não? Fica para depois...
Salvador a tarde, sujos, na carroceria do caminhão, parecia o céu. Ou o céu parecia Salvador? A vontade de mexer, remexer, colocar, tirar, provar. Terra em transe.
Chove. E faz chover. Talvez chova
Foram dias de nadar na lagoa escura do Abaeté, andar no largo do Pelourinho, minilapidar o Farol da Barra, o dique de Tororó, o largo da Ribeira, o largo da Santana, a conhecer aquela mistura de ritmos, dos passos, do sangue, de baianas.
Ficávamos muito na praia de Itapuã. E íamos a Arembepe vez ou outra, onde encontramos hippies. E pescadores. Era um mundo virgem. Um dormitório a céu aberto. Fazíamos pequenas coberturas que nós, agora hippies de fato, ficávamos. Um dia nos levaram para o rio Capivara, onde uma lagoa nos esperava. E peixe assado... A tarde, o corpo cansado em busca do teu abraço. Nada. Ele esta tão longe.
Arembepe era o sossego. Não havia energia elétrica, uma brisa constante vinda da África. E águas transparentes. Sentia-me como se sempre morasse ali, observando os nativos que vivem – ainda hoje? - com calma e simplicidade. Por lá já haviam passado Mick Jagger, Roman Polanski e Janis Joplin, Tom Zé, eu, Udo, Washington, Ricardo Xarope e os Novos Baianos. Os velhos baianos estavam ao nosso lado. Era uma beleza de local. Como dizem os poetas, como Helena Kolody, “rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo”.
Em Salvador, dormia todo mundo embolado, muita gente dormia no chão. Os baianos eram acostumados a chamar a gente para dormir nas suas casas. Andando pela praia, encontrava aquele pessoal, batia papo, eles perguntavam onde a gente estava, de onde éramos com aquele jeito sertanejo, lugar nenhum, soltos, pelo mundo, e nos levava para casa. A casa ficava entupida de gente, já que iam outros e mais outros. A Bahia de todos os santos.
Não voltei a Arembepe em 1987, quando retornei a Salvador com minha mulher Inês. Fomos a Itapuã. E foi uma emoção muito forte ver aquela praia de novo. Procurei batida de cambuí e erva-doce, não encontrei. Comemos galinha de xinxim, fomos a Enseada das Labes, ao Bargaço e Berro D’Água. Salvador é muito bom. Rejuvenesce a gente. Está na hora de retornar.
Arembepe pertence a Camaçari, uma cidade-fábrica, que conheci em 1987, apresentado por Fatinha. Vi Salvador de uma maneira que não conhecia, já que em 1973 estava deslumbrado, desbundado. Naquele 1987, olhando do elevador Lacerda me extasiei com a baía de todos os Santos mais e mais ainda. Mas a vida da cidade continua tão tranqüila, sem transtornos. E lá se vão mais de 20 anos... Ah! Meu Deus, tantos adormeceram. Daquela viagem de 1973, quase 40 anos atrás, restaram eu e Washington para contar a história, que ainda não acabou.
Daqueles anos 1970, também adormeceram as comunidades de Arembepe, as Dunas do Barato, os Novos Baianos, o inverno
Existiram ali sentimentos, que morreram no caminhar dos anos. Ou estão guardados. Ou transmutaram. Ou serviram de base para outros.
Aquele início dos anos 1970 marcaram para sempre os 4 duendes. Aquela viagem inesperada mudou de fato o curso da vida daqueles rapazes. Soltos na aventura, ventura divina de ser, ligados na comunhão do som, abrindo os poros para a mágica sempre presente. O deslumbre e a descoberta. Que do bolso de cada um dos 4 como num teatro voem pombas (pombas brancas)... E amanheça.
Hoje, cheiro o perfume das rosas que tantos anos atrás não tinham cor. Dia destes, deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, chuva forte. O ar estava carregado de eletricidade, que o rádio expunha sob a forma de ruídos, estática, assobios. Lá no fundo dava para ouvir “Bolero”, de Ravel.
Eu apenas cantarolei ‘Mudaram as estações/ nada mudou/ mas eu sei que alguma coisa aconteceu. Está tudo assim tão diferente/ mas nada vai conseguir mudar o que ficou...
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Aline brinca hoje com a menina Jesus
Poderia dizer que Aline Luz Mendonça começou sua carreira junto com a ditadura militar brasileira, em 1964, no Rio de Janeiro.
Poderia dizer que no primeiro ‘Showçaite’ de Theodomiro Paulino, Aline e Magnos Medeiros foram lançados como dupla (na época de “Dois na Bossa” de Elis Regina e Jair Rodrigues). E que viajaram por diversas cidades da região.
Poderia dizer que Aline foi a cantora que conseguiu fazer Caetano Veloso compor uma música exclusivamente para Montes Claros.
Poderia dizer mais, muito, mas muito mais.
Acontece que Aline era luz, era o nada e era o tudo, uma simples menina que amava a natureza, o sertão, a música, a humanidade.
Filha de meu dentista Sebastião Moreira e, poderia dizer, da florista Josefina Mendonça, Aline enfrentou barras e barreiras em toda a sua vida. A primeira, a ditadura imposta pelos militares em 1964. E a seguir outras tantas, como o preconceito e os limites impostos pelo mundo. Mundo radiofônico, principalmente.
Aline, que é mãe de Darlan e Joana, além de tantos outros filhos como eu, Élcio Lucas e Joba Costa, nos deixou de herança não só a Música Popular Montes-clarense, mas muito mais que seus três elepês e um compacto simples mostram. Descortinou um novo modelo de canções, seguido por gerações passadas, presentes e outras que hão de vir. Deixou horas e horas gravadas em fitas que, quiçá um dia sejam digitalizadas, para podermos continuar a ouvir sua voz, sua bênção, seu sinal, seu caminho. A comparavam com Bethânia. De Maria Bethânia nada tinha, é bom lembrar, embora haja uma vaga lembrança. Tão vaga que não dá para seguir o fio da meada.
Um dos legados de Aline Luz, entre tantos, foi sua garra de viver num sertão como este, apaixonada que era por João Guimarães Rosa e sua gente. Tanto que fez dele um projeto de vida: percorrer os caminhos do escritor mineiro. Não conseguiu, infelizmente. Pode ser a sina de quem nasce neste nortão de Minas, como sempre lembra o compositor e cantor Pedro Boi.
Ambientalista nata, foi presidenta do Codema - Conselho Municipal do Meio Ambiente de Montes Claros durante vários anos e autora de inúmeros projetos de proteção ambiental sustentável, efetivando estudos de campo através de sua militância no GEA – Grupo de Estudos do Ambiente. E melhor: juntou a literatura de Rosa à necessidade de desenvolvimento sustentável para o Vale do Peruaçu, onde deixou elaborados projetos de qualidade e sustentabilidade.
Me lembro ainda. Foi numa noite em 1973, num domingo a noite, que Aline nos deu a imensa honra de entrar em nossas casas através do programa Fantástico, da Rede Globo. Cantava “Viva México”, do seu disco (um compacto simples) recém-gravado pela RCA. Passaram-se os anos, a RCA não investiu em sua carreira e ela fundou a Companhia Vento de Raio. Em 1979 aparecia o primeiro fruto, o LP “Aline”, que tinha como paraninfo o escritor e compositor Aldir Blanc. Na cozinha, fazendo o dicumê, nomes como Toninho e Lena Horta, João Bosco, Hélvius Vilela, entre muitos.
Ela dizia à época que esse LP não cabia numa ficha técnica ortodoxa, porque todos excederam as funções. Um técnico – Toninho Barbosa – que de repente arregimenta, ajuda e produz e, mais que de repente ainda, é um amigo velho. Ou numa emergência, um dos mitos dos bailes da sua adolescência, Ed Lincoln (foi no estúdio dele que ela colocou voz em “Negação”), sem nunca terem se encontrado, faz mais do que o pedido. Muito mais. Para Aline, foi isso aquele LP: um disco onde todos foram mais do que o pedido. Assim era Aline. Luz!
Nele, canções inesquecíveis: ‘O Cavaleiro e os Moinhos’, de João Bosco e Aldir Blanc; ‘Amo-te Muito’/’Amo-te - mesmo? – Muito’, de João Chaves e Caetano Veloso; ‘Vento de Maio’, do Telo e Márcio Borges; ‘A Carta’, do Tomzé, ‘Meu Amor Não Sabia’, Ivan Lins...
Aldir Blanc diz que nunca era demais ressaltar as peculiaridades da carreira de Aline, porque são comuns a numerosos artistas brasileiros. Para aqueles que acreditam no jeitinho em lugar da batalha, o trajeto de Aline assusta. Foram anos de carreira, dezenas de oportunidades aparentes, chances falsas, incontáveis promessas. E, no entanto, Aline ficou todo esse tempo sem conseguir fazer seu disco. Com certeza por culpa desses extraordinários critérios vigentes nas gravadoras multinacionais, os mais confusos e esotéricos possíveis. Atrás das pomposas fachadas de “Departamento de Marketing” e outras histórias para boi dormir...
O segundo disco saiu em 1982. “Uma Face, Outra Face” tinha participações de Maurício Tapajós, Aldir Blanc, João Bosco, Tomzé, Gonzaguinha, Sueli Costa, Toninho Horta, Rita Lee, Vinícius de Moraes, Tom Jobim... ‘Ôrra Meu’ invadiu as emissoras de rádio.
Depois deste LP, a volta às origens sertanejas. João. Rosa. Grande Sertão. Veredas. Os mares de Minas. A travessia com Toninho Horta, Beto Lopes, Hélvius Vilela, Bernard Aygadoux. Voltas e revoltas pelas cidades do Norte. Em Janaúba, um show inacreditável na rua, com o vento de maio. Por Januária, São Francisco, viagens sem destino pelo sertão. E o disco ‘Mares de Minas’: Sueli Costa, Capinam, João Bosco sempre, Silvio Rodrigues, Élcio Lucas, Yuri Poppof, João Chaves. Será que, amando é que nos estamos movendo adiante, num mar? perguntava. O disco, gravado entre julho de 1985 e janeiro de 1987 tinha a capa o óleo de Raymundo Collares.
Dedicado ao pai que na noite do sertão apontava estrelas e ensinava seus nomes. E contava as lendas gregas que deram nome ao brilho de cada uma. Hoje, Aline Luz faz parte do brilho, como seu nome já mostrava, estrela que virou. Também no céu.
Assim era (e é) Aline. Mostra o que há de melhor, revela excelentes compositores que estão aí pela vida, a tocar, a cantar e viver, coisa que ela não poderá mais fazer neste mundo.
Aline Luz poderia ser lembrada como a guerrilheira do amor, como gostava de dizer o jornalista e poeta Eduardo Lima. Era uma guerrilheira em defesa da qualidade da música. Era a própria música, o instrumento musical.
O radialista Gélson Dias sempre disse que Aline nasceu para a arte num momento em que a arte não estava ao seu alcance. Na verdade, ela estava à frente da arte. Era uma cantora com know-how do sertão. A música para ela era como brincar de roda. Iluminada, inteligente, fazia o diferencial por ter uma percepção do mundo. Tinha a facilidade de perceber as coisas belas do mundo e em transformá-las em poesia, em canções.
Para muitos, ela é a maior cantora montes-clarense de todos os tempos. Aquela que quebrou as barreiras que se impunham à nossa música, fazendo com que alçasse vôo, levando o nome da cidade para a arte e a cultura. Houve um tempo em que sua música passou a ser a própria vida. Costumava dizer que não queria ser platéia, que não queria ver a vida passar. Queria ser parte da trupe que encenava o projeto da realidade da vida em sua cidade, seu estado, seu país. Conseguiu.
Não é só como precursora da música montes-clarina que Aline também deve ser lembrada. Ela resgatou do ostracismo gente como o compositor Tomzé, hoje novamente figura conhecida internacionalmente. A canção gravada era ‘Menina Jesus’, uma critica social.
Bença mãe,
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve para casa em paz.
Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz,
no meio dos automóveis.
Mas vai, viaja, foge daqui,
que a felicidade vai
atacar pela televisão
e vai felicitar felicitar
felicitar felicitar felicitar
até ninguém mais respirar
Acode, minha menina Jesus
Minha menina Jesus
Minha menina Jesus, acode!
Agora, juntas, devem estar brincando de pique, em algum lugar entre as estrelas...