Existe em algumas pessoas um jeito de ser, que espanta aos menos avisados. Ildeu de Jesus Lopes, Braúna, é um desses tipos. Um compositor sóbrio. Em todos os aspectos desta sobridez. Seu trabalho não vem de agora e não deve terminar nunca. Vem d‘outros mares, talvez já navegados. Mas sem o forte sabor catrumano que ele dá a eles.
Conheço Braúna, nome que escolheu, de berço, desde antes de dividir seus cantos. E ele continua fazendo o mesmo escriba, seja em parcerias distanciadas ou não. Um compositor, escritor e poeta que atinge a perfeição em músicas como Rasante (voa rasante sobre a cidade...), Bandeira Boiadeira (Meu patrão carrega o ouro, eu carrego a bandeira...) ou a recente Rosa Amarela (só eu conheço no vento o cheiro do meu amor...).
Seu método submete-se ao prazer da inspiração. Isso porém não impede uma regra básica, utilizada para mostrar seu sertão como uma rival da mulher amada.
Seu escrito tem algo de invisível aos olhos num primeiro momento, mas que vai bater nos corações e mentes. Tem um quê de pesquisa, onde chapadas, cerrados, sertões e veredas se confundem.
É como o canto do galo, os corações tatuados em árvores, que a gente teima em edificar nos edifícios da cidade. Ele é assim, se envereda pelos trilhos costumeiros de um tempo que pode nascer quando um colibri se apaixona por uma gota de orvalho, ou o caboclo d’água, em banzo, fica brincando serelepe na beira do rio.
Embora esteja gravado nas grandes vozes da MPB, como Sérgio Reis, Téo Azevedo, Saulo Laranjeira, Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, para citar apenas uns, não cultiva o mito. Assim como veio, o sucesso vai, de empréstimo, como costuma pregar aos menos avisados, ou aos que se acham escolhidos para a fama. Afinal, o panorama da música popular brasileira é muito instável. E da nossa música popular norte-mineira, mais instável ainda.
Braúna escreve para um povo morador da mata do sem fim, bem no coração das cidades. É como aquele pontinho do mapa, casa com pé de goiaba branca.
Na verdade, é um dos raros compositores pensantes deste nosso sertão. Pensante, sobretudo, pela própria cabeça e intuição musical forjada na percepção da Vila Brasília de seu coração. Cada novo trabalho seu significa um compromisso com o repertório quase tão profundo quanto a própria ligação autoral.
Seja na música, seja no poema, nas histórias e na prosa, ou mesmo no papo levado até a tarde, debaixo de qualquer pé de jabuticaba, este caipira da cidade busca encontrar o catrumano dentro de si.
Nós nunca vamos conhecer o rumo de sua galáxia, mas ele, às vezes, deixa uma dica, no final da conversa malevolente: parece que é perto de Delta, no Cruzeiro do Sul. É lá que ele escreve coisas leves. E tão bonitas.
Não ficará conhecido como o superstar do sertão. Mas sim, a cabeça pensante, depois de João Guimarães, que reinventou a escrita da nossa terra. Ou melhor, a roda!
domingo, 21 de novembro de 2010
Os botequins destes nortes do Norte
‘Montes Bares Claros’, o poema de Tico Lopes musicado por Wanderdaick, ronda minha a cabeça quando lembro dos botequins por onde passei nestes nortes de Minas. São nortes, sim, são vários. Há o norte de Janaúba, o norte de Salinas, o norte de Januária, o norte de Pirapora, e por aí vai. Afora.
Nossos botecos, bareszinhos, botequins, muitas das vezes são mal-vistos por retrógrados, combatidos por moralistas e atacados por frustrados. Mas é neles que, na verdade, se discutem assuntos realmente sérios. Como futebol, música e mulher. Neles, ainda, importantes decisões políticas são tomadas. Mirem-se no exemplo do ‘Quintal’, do Valtinho, onde todas as tardes havia reunião com nosso prefeito Mário Ribeiro, Marão, e (quase) todo secretariado. Além de vereadores, amigos e serrotes.
Também são nestes botequins que obras-primas são concebidas. Ray Colares criou maravilhas ao passar pelo Sibéria. Beto nos bareszinhos da Ruy Barbosa, Tino, naqueles da Vila Guilhermina, como o antigo ‘Bar do Mô’. E são neles, ainda, que casos de amor iniciam, mágoas são afogadas e sonhos, embalados.
Passei várias noites nestes nortes, em cidades que marcaram minha vida. Todas, é bom frisar, marcam. Seja por um motivo qualquer, uma história, uma dor, uma viola ou um canto de bossa nova, embalado pelo Fausto, tocador nato que, depois de pirar o cabeção na Bovespa, voltou para Janaúba, onde é professor... E toca solando esplendidamente. Pois, nestas cidades, após o expediente ou as reportagens normais, ficava a perambular, tentando encontrar o sentido delas, coisas novas e divisíveis com os outros nortes do nosso norte.
Foi andando por estes cantos que fiz uma relação, hoje talvez ultrapassada, como a música do Tico e Daick, daqueles botequins que chamavam atenção. Marcaram um tempo, indivisível. Encontrei os nomes agora mesmo, numa agenda antiga, destas que a gente vai marcando dias e, nelas, os anos vão ficando. Para sentir que estamos envelhecendo. A maldição suprema seria envelhecer? Sem perder a ternura? Sei lá!
A vida parece uma charada absurda e incrivelmente nova, pronta a ser decifrada à força do suor e eletricidade. Quem ainda não pensou numa saída de emergência? Conhecer o sabor da glória, provar todas as delícias, mudar a face da terra, ou mesmo andar pela estrada e criar uma lenda. Nossos botequins nos dão isso. Tudo. E mais.
Ta certo, meu caro, que já mostrava o poetinha ser a vida diferente. Na vida real, quando muito, há um assassino triste e doente. Na vida real, todo mundo mexe em time que está ganhando. E por que haveria de ser diferente?
Até para estes nosso botequins, bareszins, restaurantins, o tempo passa...
Onde estão a Varanda, Roda Viva, Maria Clara, Rafa’s, La Pizzarela, Redondo, Chica, Seis a Seis, Quintal, Toco, Kaminho de Casa, Muralha’s, Young, Mangueirinha, Espeto de Ouro, Intermezzo? Isto, para citar alguns, de Montes Claros.
E neste norte de Meu Deus?
Em Januária, acredito que continua, naquele bequinho, perto do antigo cinema, o ‘Babalú’, onde a pinga e o licor são de graça. É só servir. Comida a quilo, mas se você chegar com jeitinho, fazem, sob encomenda, um surubi ou dourado assados. Arroz com pequi na terra da Princesa Januária, você encontra seja janeiro, junho ou outubro. À noite, servem uma sopa, de graça, para os frequentadores mais assíduos. Ou apadrinhados. Tem ainda angu com quiabo, cuscuz, pamonha, picado de arroz dourado assado e coisa do puba, uma mandioca enterrada posta na água para fermentar, que usam, para fazer bolos. Pedrinho Gonçalves usa para atrair peixes.
A ‘Pizzaria Vennuttus’, em Várzea da Palma, não vende pizzas. Na verdade, é uma churrascaria. No ‘Donizeti’ se encontra o melhor bife acebolado daquele norte. E tem um procedimento simples, mas raramente adotado: os copos são resfriados e trocados a cada cerveja servida.
Na Praça do Coreto, em Pirapora, tinha o ‘Ducinema’, com batidas de pinga a perder de vista. Lembrava o antigo Chopão da rua Lafetá, em Montes Claros. Embora tenha perdido espaço para a caipirinha nos bares da moda, as batidas de frutas ainda são encontradas em botequins mais antigos. Zé Amorim fazia uma, de limão, no Espeto de Ouro, que deixa lembranças ainda hoje.
Na Avenida Salmeron, em Pirapora, tem o ‘Kaka’s’, nas Duchas, ‘Pôr Do Sol’ com língua recheada da melhor qualidade. O mexidão do ‘Sabor Mineiro’, no Santo Antônio, a comida caseira do ‘Bife no Pé’, na saída para Montes Claros, e o peixe assado na brasa, servido no espeto, do ‘Egnaldo’, pra ninguém botar defeito. Pirapora está bem servida ainda hoje.
Na praça Imaculada Conceição, em Buritizeiro, o ‘Tuka’s Bar’ serve um caldo de feijão de lamber os beiços. Dentro, você encontra deumtudo, mas não pergunte o que é.
‘Pé na Cova’ é daqueles endereços tão folclóricos que ninguém sabe a data de inauguração. Fica subindo para um dos nortes, em Francisco Sá. Está ao lado da entrada principal do cemitério da cidade, e é especialista em churrasco de frango. Tem gente que senta de costas para o cemitério. Para não ofender aos mortos. Outros sentas de frente, para beber aos mortos. Muito da fama do ‘Pé na Cova’ aconteceu por causa da localização estratégica e da boa vontade da então secretária de Cultura, Ana Valda Vasconcelos, em levar todo mundo pra lá. A frequência não dá a menor bola para a enorme simplicidade da instalação. Estão preocupados mesmo é com a qualidade do, digamos, substancial churrasco de frango.
Sempre sossegado, o ‘Bar do Zezão’, em São Francisco, é definitivamente um boteco familiar. Os mais chegados chamam o lugar simplesmente do ‘Cudipadre’. Fica na praça Januária, no fundo da igreja Matriz. Naquela casa velha, de balcão de madeira, antigo, para cada dia da semana tem um prato diferente: mandioca com manteiga vem com fartura, almôndegas, peixe, ‘feijuca’ as sextas à noite. E pinga boa. O detalhe: abre às 18, fecha às 22.
Já o ‘Peixe Vivo’, vive da fama. Passei lá com o Mércio Coelho e Ildeu Braúna, mais para apreciar a vista, pois o local é bonito e agradável. O atendimento é que não são lá estas coisas. Pode ser que a gente tava de bermuda. Sei lá! São Francisco ainda nos deu o ‘Bar do Antônio Doido’ e o ‘Marron Glacê’, ao lado do cemitério. A aguardente é gratuita, e peixe, frito, no quilo, gostosinho.
O ‘Boteco do Tim’, em Brasília de Minas, é o barzinho dos intelectuais da cidade. Se Vinícius de Morais tivesse conhecido este bar, a Garota não seria de Ipanema. Se Egídio Medeiros deixasse. Já o ‘Bar do Jacu’ é o ponto de encontro dos políticos, com sua cachacinha generosa, frango caipira e dobradinha, servidos pelo João Jacu. Tem ainda os botecos do ‘Jucão’, no Alto Claro, do ‘Tião Mansinho’, cujo feijão tropeiro não tem ovo nem torresmo, e do ‘Wilsão’, que é asseado, barato, mas insosso.
No norte do Grão-Mogol, o bom é conhecer um garimpeiro, PM reformado, que tem boas histórias pra contar. E é dono do Rampa’s, um botequim que, se beber muito, descer é fácil.
Na histórica São Romão, de Vó Angélica, o Velho Chico, de Francisco Bezerra, não vende peixe. Só churrasco. Já o boteco do Elielson fica em cima do rio. Tem peixe do bom, fartura de cerveja gelada, papo supimpa e bolinho de aipim. O bar virou ponto obrigatório de passagem de músicos que se apresentam na cidade. Fatel gostou tanto que virou uma espécie de madrinha do lugar. Certa vez, a cantora chegou às 3 da tarde e ficou até fechar.
O ‘Bar da Lú’, de Salinas, tem o nome parecido com o de Januária. A Havana é legítima, assim como a dona, Lú, que vai para o fogão, bate papo com o cliente, senta-se à mesa e, se der, ainda paga a saideira. O salão comprido, cheio de estilo, tem muita história para contar. Foi passagem de muita gente importante. Fica na praça principal, ponto de encontro da gente do lugar. A Câmara e a Prefeitura funcionam ali ao lado, e fornece os políticos. Músicos vinham de todos os lugares, e Juízes de Direito, advogados, empresários completavam o cenário. Além da pinga legítima de Salinas, autêntica (tem boteco lá que não vende a legítima), tem o rabo de galo (cachaça e Cinzano) mais gostoso que tomei.
A superioridade dos nossos botequins é inquestionável. E olha que falei de alguns, destes nossos nortes do Norte. Nem passei perto de Montes Claros ou Janaúba. São testemunhas da história de cada cidade. De cada norte. Estes lugares guardam a alma dos seus frequentadores em cada mesa, em cada fotografia ou calendário pendurado na parede, nos nomes dos petiços e, acima de tudo, na memória dos seus proprietários. E de nós mesmos.
Nossos botecos, bareszinhos, botequins, muitas das vezes são mal-vistos por retrógrados, combatidos por moralistas e atacados por frustrados. Mas é neles que, na verdade, se discutem assuntos realmente sérios. Como futebol, música e mulher. Neles, ainda, importantes decisões políticas são tomadas. Mirem-se no exemplo do ‘Quintal’, do Valtinho, onde todas as tardes havia reunião com nosso prefeito Mário Ribeiro, Marão, e (quase) todo secretariado. Além de vereadores, amigos e serrotes.
Também são nestes botequins que obras-primas são concebidas. Ray Colares criou maravilhas ao passar pelo Sibéria. Beto nos bareszinhos da Ruy Barbosa, Tino, naqueles da Vila Guilhermina, como o antigo ‘Bar do Mô’. E são neles, ainda, que casos de amor iniciam, mágoas são afogadas e sonhos, embalados.
Passei várias noites nestes nortes, em cidades que marcaram minha vida. Todas, é bom frisar, marcam. Seja por um motivo qualquer, uma história, uma dor, uma viola ou um canto de bossa nova, embalado pelo Fausto, tocador nato que, depois de pirar o cabeção na Bovespa, voltou para Janaúba, onde é professor... E toca solando esplendidamente. Pois, nestas cidades, após o expediente ou as reportagens normais, ficava a perambular, tentando encontrar o sentido delas, coisas novas e divisíveis com os outros nortes do nosso norte.
Foi andando por estes cantos que fiz uma relação, hoje talvez ultrapassada, como a música do Tico e Daick, daqueles botequins que chamavam atenção. Marcaram um tempo, indivisível. Encontrei os nomes agora mesmo, numa agenda antiga, destas que a gente vai marcando dias e, nelas, os anos vão ficando. Para sentir que estamos envelhecendo. A maldição suprema seria envelhecer? Sem perder a ternura? Sei lá!
A vida parece uma charada absurda e incrivelmente nova, pronta a ser decifrada à força do suor e eletricidade. Quem ainda não pensou numa saída de emergência? Conhecer o sabor da glória, provar todas as delícias, mudar a face da terra, ou mesmo andar pela estrada e criar uma lenda. Nossos botequins nos dão isso. Tudo. E mais.
Ta certo, meu caro, que já mostrava o poetinha ser a vida diferente. Na vida real, quando muito, há um assassino triste e doente. Na vida real, todo mundo mexe em time que está ganhando. E por que haveria de ser diferente?
Até para estes nosso botequins, bareszins, restaurantins, o tempo passa...
Onde estão a Varanda, Roda Viva, Maria Clara, Rafa’s, La Pizzarela, Redondo, Chica, Seis a Seis, Quintal, Toco, Kaminho de Casa, Muralha’s, Young, Mangueirinha, Espeto de Ouro, Intermezzo? Isto, para citar alguns, de Montes Claros.
E neste norte de Meu Deus?
Em Januária, acredito que continua, naquele bequinho, perto do antigo cinema, o ‘Babalú’, onde a pinga e o licor são de graça. É só servir. Comida a quilo, mas se você chegar com jeitinho, fazem, sob encomenda, um surubi ou dourado assados. Arroz com pequi na terra da Princesa Januária, você encontra seja janeiro, junho ou outubro. À noite, servem uma sopa, de graça, para os frequentadores mais assíduos. Ou apadrinhados. Tem ainda angu com quiabo, cuscuz, pamonha, picado de arroz dourado assado e coisa do puba, uma mandioca enterrada posta na água para fermentar, que usam, para fazer bolos. Pedrinho Gonçalves usa para atrair peixes.
A ‘Pizzaria Vennuttus’, em Várzea da Palma, não vende pizzas. Na verdade, é uma churrascaria. No ‘Donizeti’ se encontra o melhor bife acebolado daquele norte. E tem um procedimento simples, mas raramente adotado: os copos são resfriados e trocados a cada cerveja servida.
Na Praça do Coreto, em Pirapora, tinha o ‘Ducinema’, com batidas de pinga a perder de vista. Lembrava o antigo Chopão da rua Lafetá, em Montes Claros. Embora tenha perdido espaço para a caipirinha nos bares da moda, as batidas de frutas ainda são encontradas em botequins mais antigos. Zé Amorim fazia uma, de limão, no Espeto de Ouro, que deixa lembranças ainda hoje.
Na Avenida Salmeron, em Pirapora, tem o ‘Kaka’s’, nas Duchas, ‘Pôr Do Sol’ com língua recheada da melhor qualidade. O mexidão do ‘Sabor Mineiro’, no Santo Antônio, a comida caseira do ‘Bife no Pé’, na saída para Montes Claros, e o peixe assado na brasa, servido no espeto, do ‘Egnaldo’, pra ninguém botar defeito. Pirapora está bem servida ainda hoje.
Na praça Imaculada Conceição, em Buritizeiro, o ‘Tuka’s Bar’ serve um caldo de feijão de lamber os beiços. Dentro, você encontra deumtudo, mas não pergunte o que é.
‘Pé na Cova’ é daqueles endereços tão folclóricos que ninguém sabe a data de inauguração. Fica subindo para um dos nortes, em Francisco Sá. Está ao lado da entrada principal do cemitério da cidade, e é especialista em churrasco de frango. Tem gente que senta de costas para o cemitério. Para não ofender aos mortos. Outros sentas de frente, para beber aos mortos. Muito da fama do ‘Pé na Cova’ aconteceu por causa da localização estratégica e da boa vontade da então secretária de Cultura, Ana Valda Vasconcelos, em levar todo mundo pra lá. A frequência não dá a menor bola para a enorme simplicidade da instalação. Estão preocupados mesmo é com a qualidade do, digamos, substancial churrasco de frango.
Sempre sossegado, o ‘Bar do Zezão’, em São Francisco, é definitivamente um boteco familiar. Os mais chegados chamam o lugar simplesmente do ‘Cudipadre’. Fica na praça Januária, no fundo da igreja Matriz. Naquela casa velha, de balcão de madeira, antigo, para cada dia da semana tem um prato diferente: mandioca com manteiga vem com fartura, almôndegas, peixe, ‘feijuca’ as sextas à noite. E pinga boa. O detalhe: abre às 18, fecha às 22.
Já o ‘Peixe Vivo’, vive da fama. Passei lá com o Mércio Coelho e Ildeu Braúna, mais para apreciar a vista, pois o local é bonito e agradável. O atendimento é que não são lá estas coisas. Pode ser que a gente tava de bermuda. Sei lá! São Francisco ainda nos deu o ‘Bar do Antônio Doido’ e o ‘Marron Glacê’, ao lado do cemitério. A aguardente é gratuita, e peixe, frito, no quilo, gostosinho.
O ‘Boteco do Tim’, em Brasília de Minas, é o barzinho dos intelectuais da cidade. Se Vinícius de Morais tivesse conhecido este bar, a Garota não seria de Ipanema. Se Egídio Medeiros deixasse. Já o ‘Bar do Jacu’ é o ponto de encontro dos políticos, com sua cachacinha generosa, frango caipira e dobradinha, servidos pelo João Jacu. Tem ainda os botecos do ‘Jucão’, no Alto Claro, do ‘Tião Mansinho’, cujo feijão tropeiro não tem ovo nem torresmo, e do ‘Wilsão’, que é asseado, barato, mas insosso.
No norte do Grão-Mogol, o bom é conhecer um garimpeiro, PM reformado, que tem boas histórias pra contar. E é dono do Rampa’s, um botequim que, se beber muito, descer é fácil.
Na histórica São Romão, de Vó Angélica, o Velho Chico, de Francisco Bezerra, não vende peixe. Só churrasco. Já o boteco do Elielson fica em cima do rio. Tem peixe do bom, fartura de cerveja gelada, papo supimpa e bolinho de aipim. O bar virou ponto obrigatório de passagem de músicos que se apresentam na cidade. Fatel gostou tanto que virou uma espécie de madrinha do lugar. Certa vez, a cantora chegou às 3 da tarde e ficou até fechar.
O ‘Bar da Lú’, de Salinas, tem o nome parecido com o de Januária. A Havana é legítima, assim como a dona, Lú, que vai para o fogão, bate papo com o cliente, senta-se à mesa e, se der, ainda paga a saideira. O salão comprido, cheio de estilo, tem muita história para contar. Foi passagem de muita gente importante. Fica na praça principal, ponto de encontro da gente do lugar. A Câmara e a Prefeitura funcionam ali ao lado, e fornece os políticos. Músicos vinham de todos os lugares, e Juízes de Direito, advogados, empresários completavam o cenário. Além da pinga legítima de Salinas, autêntica (tem boteco lá que não vende a legítima), tem o rabo de galo (cachaça e Cinzano) mais gostoso que tomei.
A superioridade dos nossos botequins é inquestionável. E olha que falei de alguns, destes nossos nortes do Norte. Nem passei perto de Montes Claros ou Janaúba. São testemunhas da história de cada cidade. De cada norte. Estes lugares guardam a alma dos seus frequentadores em cada mesa, em cada fotografia ou calendário pendurado na parede, nos nomes dos petiços e, acima de tudo, na memória dos seus proprietários. E de nós mesmos.
O instante, o feitiço, a cangalha
Conheci Edson Cury na exposição de 1989, em Janaúba. Estava com ele um grande número de artistas. Meu olhos se voltaram para a chacrete Rita Cadillac, para quem o radialista Raul Luiz Dond, o Degas mais velho, fechava a mão todas as noites, ao ir para casa dormir. O jornalista Benjamin Oliveira Junior, o Degas mais novinho, fazia a chacota, dia seguinte, quando os três Degas se reuniam e levavam ao ar os 10 minutos mais interessantes da Rádio Gorutubana, “Os Degas”. Bem dizia Georgino Jorge de Souza Junior: é necessário perpetuar-se nos pequenos adereços.
Edson Cury, para os menos avisados, era conhecido como Bolinha. Foi à Janaúba apresentar seu programa durante uma exposição agropecuária. Naquele palquinho antigo do parque, mostrava praticamente seu programa da TV Bandeirantes, cheio de artistas. Alegre, regado a um bom uísque Chivas 12 anos, servido em doses generosas enquanto algum artista de sua “troupe” se apresentava, fez a festa daquele ano. E olha que a Bandeirantes nem pegava direito na cidade gorutubana. Mas a Rita...
Falei certa vez sobre a influência musical da televisão em minha vida. Não foi só a musical. A máquina de fazer doido, do Stanislaw Ponte Preta, nos influenciou – e influencia – em quase tudo. Como os donos da platéia, tipo Bolinha, que me fez recordar Janaúba dos anos de 1980/1990.
E Chacrinha? Foi o grande divulgador da MPB. Alegrava o auditório com suas fantasias, bordões (“Alô, alô, Terezinha” ou “Quem não se comunica, se trumbica”), farta distribuição de bananas, bacalhaus e o troféu abacaxi. Foi através dele que, no início da década de 1970, em Montes Claros, apareceu a “Buzina do Chacrota”, transmitida pela Rádio Sociedade, ZYD-7, diretamente do Ginásio Darcy Ribeiro (e até do Parque de Exposições), comandada pelo insuperável Gélson Dias. A Buzina de GeDê durou de 1970 a 1974. Foi lá que nosso conjunto (olha só, a reunião minha com Ricardo Xarope, Hudo Fidelcino, Grimaldo e Romeu) apresentou a música ‘Preta Pretinha’. Sob vaias! Muitas. Imensas. Milhares. Mas com muito suingue e alegria. Para nós.
Como a Rádio ZYD7 produzia em Montes Claros, naqueles tempos dourados. Ela, como Gedê, Félix Richard e Batista Caldeira, Daniel, Jota Lóis e Goiabão merecem, cada um, um espaço inteiro e maior em nossa vida. Como o de Geraldo Ferreira, Geraldão.
Mas falamos lá de fora. Não podemos esquecer de Flávio Cavalcanti nas tardes de domingo e seu “Um Instante, Maestro”. Como era critico o Cavalcanti. Com quebrava discos. Enquanto ele parava a orquestra, eu começava a escrever “Rádio, Discos e TV” no Diário de Montes Claros, mesma época em que “Pagão de Pai e Mãe”, o programa de estréia do prefeito montes-clarense Luiz Tadeu Leite era levado das sete as oito na “Furiosa”. Jóta Lóis, que por tantos anos animou a cidade com seus programas, mudava-se para Belo Horizonte, onde marcávamos encontro no barzinho do pai de Nelcy Lopes, no bairro Floresta, comendo a típica carne de sol montes-clarina e bebendo uma pinga do norte. Com Geraldão Ferreira a tira-colo.
E – ra-ra-raiiii – o Senor Abravanel, com o Programa Silvio Santos. Empresário bem sucedido, esbanja energia (e alegria) até hoje com suas “colegas de trabalho”. E o peso pesado Faustão. Ô loco, meu! Gostava mais dele em “Perdidos na Noite”,quando improvisava adoidado (inclusive com equipamentos), soltava farpas humorísticas e muita bobagem. Agora, infelizmente, controlado. Coloquemos no rol dessa fama ainda o espontâneo Raul Gil (de tirar o chapéu), a pancadaria de Carlos Massa, o Ratinho, que já não leva ao ar as cenas grotescas de crianças com doenças incuráveis, brigas familiares e bizarrices mais. Nem tem o Ibope de antigamente.
Em Montes Claros ainda era tempo da ZYD7, comandada pelo jornalista Elias Siufi. Tempo de transmissões ao vivo, do show de Teixeira Bastos do Cine São Luiz. Como eu tinha que fazer cara bonita chupando limão e aguentando as graçinhas da platéia, para ganhar pacotes de Café Primor (ou Diplomata). Tudo isso nos resume o instante, o feitiço, a cangalha.
Edson Cury, para os menos avisados, era conhecido como Bolinha. Foi à Janaúba apresentar seu programa durante uma exposição agropecuária. Naquele palquinho antigo do parque, mostrava praticamente seu programa da TV Bandeirantes, cheio de artistas. Alegre, regado a um bom uísque Chivas 12 anos, servido em doses generosas enquanto algum artista de sua “troupe” se apresentava, fez a festa daquele ano. E olha que a Bandeirantes nem pegava direito na cidade gorutubana. Mas a Rita...
Falei certa vez sobre a influência musical da televisão em minha vida. Não foi só a musical. A máquina de fazer doido, do Stanislaw Ponte Preta, nos influenciou – e influencia – em quase tudo. Como os donos da platéia, tipo Bolinha, que me fez recordar Janaúba dos anos de 1980/1990.
E Chacrinha? Foi o grande divulgador da MPB. Alegrava o auditório com suas fantasias, bordões (“Alô, alô, Terezinha” ou “Quem não se comunica, se trumbica”), farta distribuição de bananas, bacalhaus e o troféu abacaxi. Foi através dele que, no início da década de 1970, em Montes Claros, apareceu a “Buzina do Chacrota”, transmitida pela Rádio Sociedade, ZYD-7, diretamente do Ginásio Darcy Ribeiro (e até do Parque de Exposições), comandada pelo insuperável Gélson Dias. A Buzina de GeDê durou de 1970 a 1974. Foi lá que nosso conjunto (olha só, a reunião minha com Ricardo Xarope, Hudo Fidelcino, Grimaldo e Romeu) apresentou a música ‘Preta Pretinha’. Sob vaias! Muitas. Imensas. Milhares. Mas com muito suingue e alegria. Para nós.
Como a Rádio ZYD7 produzia em Montes Claros, naqueles tempos dourados. Ela, como Gedê, Félix Richard e Batista Caldeira, Daniel, Jota Lóis e Goiabão merecem, cada um, um espaço inteiro e maior em nossa vida. Como o de Geraldo Ferreira, Geraldão.
Mas falamos lá de fora. Não podemos esquecer de Flávio Cavalcanti nas tardes de domingo e seu “Um Instante, Maestro”. Como era critico o Cavalcanti. Com quebrava discos. Enquanto ele parava a orquestra, eu começava a escrever “Rádio, Discos e TV” no Diário de Montes Claros, mesma época em que “Pagão de Pai e Mãe”, o programa de estréia do prefeito montes-clarense Luiz Tadeu Leite era levado das sete as oito na “Furiosa”. Jóta Lóis, que por tantos anos animou a cidade com seus programas, mudava-se para Belo Horizonte, onde marcávamos encontro no barzinho do pai de Nelcy Lopes, no bairro Floresta, comendo a típica carne de sol montes-clarina e bebendo uma pinga do norte. Com Geraldão Ferreira a tira-colo.
E – ra-ra-raiiii – o Senor Abravanel, com o Programa Silvio Santos. Empresário bem sucedido, esbanja energia (e alegria) até hoje com suas “colegas de trabalho”. E o peso pesado Faustão. Ô loco, meu! Gostava mais dele em “Perdidos na Noite”,quando improvisava adoidado (inclusive com equipamentos), soltava farpas humorísticas e muita bobagem. Agora, infelizmente, controlado. Coloquemos no rol dessa fama ainda o espontâneo Raul Gil (de tirar o chapéu), a pancadaria de Carlos Massa, o Ratinho, que já não leva ao ar as cenas grotescas de crianças com doenças incuráveis, brigas familiares e bizarrices mais. Nem tem o Ibope de antigamente.
Em Montes Claros ainda era tempo da ZYD7, comandada pelo jornalista Elias Siufi. Tempo de transmissões ao vivo, do show de Teixeira Bastos do Cine São Luiz. Como eu tinha que fazer cara bonita chupando limão e aguentando as graçinhas da platéia, para ganhar pacotes de Café Primor (ou Diplomata). Tudo isso nos resume o instante, o feitiço, a cangalha.
Já podeis, oh! filhos da puta...
Receba em teus braços de mãe protetora, a metralhadora que um dia empunhei,
agora já sei que essa força opressora vem esmagadora da corja do rei.
Lutei, mas meus sonhos foram esmagados, foram massacrados como tantos mais.
Pelo bem da paz eu fui expatriado, me vi exilado, jogado ao desterro,
e meu único erro foi ter ideais...
Estes versos me retornam à mente, 24 anos depois de ouvi-los numa noite ventosa gorutubana. E me confirmam que naquela noite de domingo, 13 de julho de 1986, votei certo, convicto, fiz o lobby mais do que perfeito para que “Pátria Amada”, do belo-horizontino Marco Holanda – um moreninho com cara de Bob Marley –, era a música certa para ganhar o 1º Festijan – Festival de Canção Popular do Vale do Gorutuba. O tempo passa, mas ele, o tempo, é que é matéria do entendimento...
Pois corria o ano da graça de 1986 quando surgiu, em uma conversa com o engenheiro José Carlos Moreira, na casa do Aroldo e Hilda Azevedo, com a presença ainda do Beija Flor, Marquinhos Doideira, Argentino Barbosa, Júlio Lacerda, ali, na rua Francisco Sá, abaixo da praça Dr. Rockert, a idéia de se fazer um movimento cultural em Janaúba. O objetivo seria o reavivamento e divulgação da cultura popular do Vale do Gorutuba. Além da valorização do artista da região e o intercâmbio das entidades culturais da cidade gorutubana.
Foi assim que surgiu o JANARTE – Movimento Artístico e Cultural de Janaúba. Tinha como meta, também, servir como agente de desenvolvimento da cultura, proporcionando condições aos artistas da terra de mostrarem os seus trabalhos a nível local, regional e, quiçá, nacional.
O sonho, porém, era muito grande. Conseguimos muito pouco para quem queria abraçar o Vale. Ou, quiçá, o mundo!
Uma das coisas boas que ficou foi o 1º Festijan, promovido pela Associação Comunitária de Janaúba, com apoio da Rádio Gorutubana. Tinha a frente, naquela época, as irmãs Antonia e Erenice Maria Ribeiro, além de Maria da Glória Soares e Vilma Rodrigues Silveira. Era um projeto grandioso, diga-se de passagem. A festa teria shows com Vinicius Cantuária, Ladston Nascimento, Tino Gomes, Charles Boavista & Gaspar Durães, culminando com Zé Ramalho da Paraíba, no último dia.
Não tenho ódio, nem guardo rancores. Não falo de flores como antes falava. São águas passadas, não movem moinhos, e um homem sozinho não faz carnaval... Este menino Marco, que nunca mais vi, nem conheci direito para mais do que dez palavras, não me sai da cabeça.
O festival foi realizado no parque de exposições, entre os dias 11 e 13 de julho de 1986, e apesar do vento daqueles dias, levou um grande público, além de levar à cidade muita gente de fora.
Entre os jurados estava Tadeu Martins, então diretor presidente da Turminas. Ele estava conhecendo a cidade pela primeira vez e adorou quando o levei a um boteco, onde serviam pinga com coco e fritada de piabas do Rio Gorutuba - naquela época, elas existiam e eram servidas em alguns bareszinhos. O dono do lugar, Toninho Sapateiro, consertava mesmo era a bicicleta, e depois resolver ir plantar coco no Jaíbão.
Hoje, tantos anos depois ,escuto a gravação destas canções. Algumas lindas, outras, nem tanto, mas que marcaram. E ainda dá nó no peito escutá-las. Ainda dá saudade dos amigos que estão naquela terra. Parodiando João Rosa, poderia dizer que amigo não é substantivo: é luz lembrada!
Não te quero mal, está é a realidade, mas trago a verdade no meu peito ferido. Eu não fui vencido, inda guardo pra mim o cheiro de alecrim do poeta da gente: esqueceram sementes em nosso jardim.
O Festijan movimento Janaúba. E as meninas da Associação Comunitária trabalharam certo. Minha casa virou pensão, hotel, abrigo para uma leva de gente. Edvaldo Pinheiro, Alexandre Souto, Fatel, Jorge Santos, José Basílio, Sandra Pezão, Eustáquio Correia, o sociólogo Tatá, que acampou no parque mas, sem aguentar o vento (que levou sua barraca), procurou a pensão... Minha casa era um entra e sai, coisa gostosa para quem está longe de casa.
A música vencedora foi, claro, Pátria Amada – Já podeis oh!, filhos da pátria, ver contente a mãe gentil/ Oh! Pátria Amada salve! Salvem meu Brasil/ Da mesma América que Colombo descobriu... Já podeis oh!, filhos da puta –. Marco Holanda, oriundo de Belo Horizonte, tinha uma voz forte, se fez acompanhar apenas pela viola, e impressionou não só a mim, mas muita gente que estava por ali. Marco era dono de uma interpretação pra lá de exótica. Quem assistiu nunca mais se esquecerá daquele sujeito estranho, dono de uma voz grave, que gritava ao final de cada frase. Fico sabendo agora que ele foi mais um que partiu, não sei para onde... Os anjos e querubíns devem acompanhá-lo em novas canções... Se é que não virou um anjo também. Um anjo de ébano, profano e extravagante.
Montes Claros ficou com o segundo lugar, com a canção “Acorda” – Vem, acorda desse laço, desse nó/ Mas não chora não, velha, morta cicatriz –. É de Junior Queiróz, que estava acompanhado por banda.
O terceiro, quarto e quinto lugares foram de Janaúba. O terceiro, com o grupo Portal do Sertão (na verdade o Canto Livre de Delvi, Tino, Bhá e Eliane). “Nascente” foi a música (Águas claras vem daquela fonte/ descem tranquilas por entre os montes/ trazem desejos, levam saudades/ pra minha amada, trazem felicidade). Também levaram o quarto lugar com “Cheiro de Chão” (A noite é fria quando não tem lua cheia/ quando tem vem clareando até a barra do dia/ este riacho quando seco dá cacimba em qualquer beco).
O quinto foi para a dupla formada por Vanderley Araújo e Lázaro Antunes, “Tropeiro do Vale” (Tropeiro do gorutuba/ acorda homem valente/ seu sonho já terminou/ e seu reinado fincou).
O Festijan marcou Janaúba, como marcou aqueles que dele participaram. Só por isso, vamos entrar no meio dele, hoje, como se estivesse acontecendo agora.
Por lá estavam – e se apresentaram – o montes-clarense Domingos Ramos (com a singela e romântica “Sem Preconceito – Você nem imagina/ o que existe dentro de mim/ são mil poemas criados no seu olhar!”). Um tempo depois, virou roqueiro.
O poeta José Basílio, de Coração de Jesus, que trazia o suingue nas letras e melodias que compunha. Morreu cedo, levado pela bebida. No Festijan mostrou-nos “Mortalhas” (Sonhei que tudo era fácil/ e me mudei nos traços/ que a vida traçou), e “Futuro Azul (Alerta total, Araraquara, maçarico, pirarucu/ eu escorreguem das nascentes/ e esbocei no futuro o azul).
O quarteto formado por João Mário Bhá, Delvi, Tino e Eliane apresentou ainda “Êxodo Rural” (Depois cresci e aprendi que a vida/ na cidade grande é uma subida/ mas pra subir é que a coisa muda/ pois pra descer qualquer santo ajuda) e a gostosa “Companheiro de Reis” (Na roça participei/ numa festa de reizado/ foi no mês de janeiro/ e não tava acostumado). Lançaram um CD muito bonito, mas seguiram viagem, cada um seu rumo. Dia destes me liga Bhá, morando agora em Januária. Gravou outro CD, que ficou de me mandar. Deve conter músicas gostosas, como as que sempre compôs.
Por lá passaram também Eustáquio Corrêa, de Almenara, com “Andante” (Se o mundo é uma viravolta/ eu vou dar a volta por aí). Seguiu seu conselho e hoje mora na Espanha, onde faz shows em bareszinhos, depois de penar por Portugal; a montes-clarense Lis Xavier, que defendeu “Vida” (Há tantas imagens. Versos/ músicas de Baha’u’lláh!).
Jorginho Santos com “São João Desilusão”, dele e de Ernani Camisasca (São João ta morrendo/ no mundo de agora/ O quentão esquentante de Dona Maria/ Acabou-se também/ Faleceu a euforia). Resolveu dar um tempo na terra e acompanhou Zé Basílio para o céu. O bocaiuvense Carlos Maia cantou “A Beleza do Amor” (Eu quero é viver. Cantar e sonhar/ eu quero é amar você). Hoje, faz dupla com Charles Boavista, do Raízes, e preparam novo CD.
Madson Athaide, de Montes Claros, com “O último sonho não será real”, dele e de Gute Brandão (O mistério está no ventre deste século 20/ as estrelas são destroços que se perdem no eco).
O piraporense Josecé Alves mostrou “Piramontes” (A velha estrada/ não tem morro nem chapada/ já sumiu a passarada/ ave de arribação). Depois da ARPPNM, lançou seu CD solo, gravou festivais mil e continua a vida de viajante musical. Muito bem, pode-se afirmar.
Milton Edilberto veio de Belo Horizonte com sua criação, a música pósfolia (ou new boi) “Carregando o Mundo” (Estamos na nova ré/ ré publica de maré/ de ci).
Élcio Lucas (com João Carlos Oliveira) tinha “Saci da Serra” (E morre o homem fraco/ homem que antes forte/ e morre o homem preso/ homem que antes, livre). Professor da Unimontes, deve compor, mas não nos mostra. Sacana, guarda pra si. Tudo bem. Não acredito que tenha aposentado da música, depois de ter lançado um compacto duplo meio pro roqueiro e um LP ambiental, que ouço sempre nas tardes desta cidade, principalmente quando vejo (ou lembro) do Verde Grande.
De BH, José Rubens apareceu com “Rosa do Sertão” (Gravatá/ mandacaru/ rosa do sertão/ olha lá quem vem chegando/ é o primo Lampião) e Embolada do Jequi.
Paulo de Souza Nunes, de Montes Claros, cantou “Nordestino” (Terra seca, rede vazia/ criança com fome/ passa mais um dia/ morre aos poucos, o homem). Ainda compõe vez ou outra, em Belo horizonte onde foi parar.
Nativo Xavier, de Porteirinha, compareceu com “Robot de Ferro”; Atualpa Viana, de Belo Horizonte, com “Real Natureza”; e Érica Viana, também da capital mineira, com “Novo Amanhecer”
Janaúba teve outros representantes.
O Grupo Musical Experimental por exemplo, formado pelo grande Donizete, acompanhado ainda por Ruy e Joaquim, cantou “Cor de um sonho” (Se tem cor da natureza/ me inspira o infinito/ porque existir a guerra/ se o amor é tão bonito) e “Chegada do trem” (Sinhá mocinha/ quando foi conhecer a estação/ fez a sua matutagem/ e arriou seu alazão); o cantor e compositor Carlito apresentou junto com Nilson a bela “Emoções” (Ouço as flores a me falar/ seu perfume a me tocar/ ouço o vento dizendo/ que vai me levar); Wagner Tadeu (com Mauro Sérgio) apresentaram “De Vago” (Nós somos máscaras sem nome/ onde se consome o ser ou não ser, feliz); Nelinho Gomes e sua “Tem que falar” (Sei que é difícil se ver/ as flores do campo florindo/ o verde da cor de mato/ mas não uma bomba explodir). E Cícero Billy Alves, com “Confissões de um errante”. Desta turma gorutubana, Cicero foi o único a se transformar em músico profissional. Lembro-me no dia que conseguiu sua carteira na Ordem dos Músicos, um sábado pela manhã. Gravou diversos CDs, e está em plena inspiração, preparando seu próximo rebento.
Quase 30 anos depois, aqueles dias devem estar ainda na cabeça de muita gente. Que participou, que ajudou a construir, e mesmo aqueles que só foram dar uma olhada. O Janarte vive, ainda, sem nome, pagão de pai e mãe. Pois é, falamos dos nossos sonhos, e quase entramos na fantasia da cidade...
agora já sei que essa força opressora vem esmagadora da corja do rei.
Lutei, mas meus sonhos foram esmagados, foram massacrados como tantos mais.
Pelo bem da paz eu fui expatriado, me vi exilado, jogado ao desterro,
e meu único erro foi ter ideais...
Estes versos me retornam à mente, 24 anos depois de ouvi-los numa noite ventosa gorutubana. E me confirmam que naquela noite de domingo, 13 de julho de 1986, votei certo, convicto, fiz o lobby mais do que perfeito para que “Pátria Amada”, do belo-horizontino Marco Holanda – um moreninho com cara de Bob Marley –, era a música certa para ganhar o 1º Festijan – Festival de Canção Popular do Vale do Gorutuba. O tempo passa, mas ele, o tempo, é que é matéria do entendimento...
Pois corria o ano da graça de 1986 quando surgiu, em uma conversa com o engenheiro José Carlos Moreira, na casa do Aroldo e Hilda Azevedo, com a presença ainda do Beija Flor, Marquinhos Doideira, Argentino Barbosa, Júlio Lacerda, ali, na rua Francisco Sá, abaixo da praça Dr. Rockert, a idéia de se fazer um movimento cultural em Janaúba. O objetivo seria o reavivamento e divulgação da cultura popular do Vale do Gorutuba. Além da valorização do artista da região e o intercâmbio das entidades culturais da cidade gorutubana.
Foi assim que surgiu o JANARTE – Movimento Artístico e Cultural de Janaúba. Tinha como meta, também, servir como agente de desenvolvimento da cultura, proporcionando condições aos artistas da terra de mostrarem os seus trabalhos a nível local, regional e, quiçá, nacional.
O sonho, porém, era muito grande. Conseguimos muito pouco para quem queria abraçar o Vale. Ou, quiçá, o mundo!
Uma das coisas boas que ficou foi o 1º Festijan, promovido pela Associação Comunitária de Janaúba, com apoio da Rádio Gorutubana. Tinha a frente, naquela época, as irmãs Antonia e Erenice Maria Ribeiro, além de Maria da Glória Soares e Vilma Rodrigues Silveira. Era um projeto grandioso, diga-se de passagem. A festa teria shows com Vinicius Cantuária, Ladston Nascimento, Tino Gomes, Charles Boavista & Gaspar Durães, culminando com Zé Ramalho da Paraíba, no último dia.
Não tenho ódio, nem guardo rancores. Não falo de flores como antes falava. São águas passadas, não movem moinhos, e um homem sozinho não faz carnaval... Este menino Marco, que nunca mais vi, nem conheci direito para mais do que dez palavras, não me sai da cabeça.
O festival foi realizado no parque de exposições, entre os dias 11 e 13 de julho de 1986, e apesar do vento daqueles dias, levou um grande público, além de levar à cidade muita gente de fora.
Entre os jurados estava Tadeu Martins, então diretor presidente da Turminas. Ele estava conhecendo a cidade pela primeira vez e adorou quando o levei a um boteco, onde serviam pinga com coco e fritada de piabas do Rio Gorutuba - naquela época, elas existiam e eram servidas em alguns bareszinhos. O dono do lugar, Toninho Sapateiro, consertava mesmo era a bicicleta, e depois resolver ir plantar coco no Jaíbão.
Hoje, tantos anos depois ,escuto a gravação destas canções. Algumas lindas, outras, nem tanto, mas que marcaram. E ainda dá nó no peito escutá-las. Ainda dá saudade dos amigos que estão naquela terra. Parodiando João Rosa, poderia dizer que amigo não é substantivo: é luz lembrada!
Não te quero mal, está é a realidade, mas trago a verdade no meu peito ferido. Eu não fui vencido, inda guardo pra mim o cheiro de alecrim do poeta da gente: esqueceram sementes em nosso jardim.
O Festijan movimento Janaúba. E as meninas da Associação Comunitária trabalharam certo. Minha casa virou pensão, hotel, abrigo para uma leva de gente. Edvaldo Pinheiro, Alexandre Souto, Fatel, Jorge Santos, José Basílio, Sandra Pezão, Eustáquio Correia, o sociólogo Tatá, que acampou no parque mas, sem aguentar o vento (que levou sua barraca), procurou a pensão... Minha casa era um entra e sai, coisa gostosa para quem está longe de casa.
A música vencedora foi, claro, Pátria Amada – Já podeis oh!, filhos da pátria, ver contente a mãe gentil/ Oh! Pátria Amada salve! Salvem meu Brasil/ Da mesma América que Colombo descobriu... Já podeis oh!, filhos da puta –. Marco Holanda, oriundo de Belo Horizonte, tinha uma voz forte, se fez acompanhar apenas pela viola, e impressionou não só a mim, mas muita gente que estava por ali. Marco era dono de uma interpretação pra lá de exótica. Quem assistiu nunca mais se esquecerá daquele sujeito estranho, dono de uma voz grave, que gritava ao final de cada frase. Fico sabendo agora que ele foi mais um que partiu, não sei para onde... Os anjos e querubíns devem acompanhá-lo em novas canções... Se é que não virou um anjo também. Um anjo de ébano, profano e extravagante.
Montes Claros ficou com o segundo lugar, com a canção “Acorda” – Vem, acorda desse laço, desse nó/ Mas não chora não, velha, morta cicatriz –. É de Junior Queiróz, que estava acompanhado por banda.
O terceiro, quarto e quinto lugares foram de Janaúba. O terceiro, com o grupo Portal do Sertão (na verdade o Canto Livre de Delvi, Tino, Bhá e Eliane). “Nascente” foi a música (Águas claras vem daquela fonte/ descem tranquilas por entre os montes/ trazem desejos, levam saudades/ pra minha amada, trazem felicidade). Também levaram o quarto lugar com “Cheiro de Chão” (A noite é fria quando não tem lua cheia/ quando tem vem clareando até a barra do dia/ este riacho quando seco dá cacimba em qualquer beco).
O quinto foi para a dupla formada por Vanderley Araújo e Lázaro Antunes, “Tropeiro do Vale” (Tropeiro do gorutuba/ acorda homem valente/ seu sonho já terminou/ e seu reinado fincou).
O Festijan marcou Janaúba, como marcou aqueles que dele participaram. Só por isso, vamos entrar no meio dele, hoje, como se estivesse acontecendo agora.
Por lá estavam – e se apresentaram – o montes-clarense Domingos Ramos (com a singela e romântica “Sem Preconceito – Você nem imagina/ o que existe dentro de mim/ são mil poemas criados no seu olhar!”). Um tempo depois, virou roqueiro.
O poeta José Basílio, de Coração de Jesus, que trazia o suingue nas letras e melodias que compunha. Morreu cedo, levado pela bebida. No Festijan mostrou-nos “Mortalhas” (Sonhei que tudo era fácil/ e me mudei nos traços/ que a vida traçou), e “Futuro Azul (Alerta total, Araraquara, maçarico, pirarucu/ eu escorreguem das nascentes/ e esbocei no futuro o azul).
O quarteto formado por João Mário Bhá, Delvi, Tino e Eliane apresentou ainda “Êxodo Rural” (Depois cresci e aprendi que a vida/ na cidade grande é uma subida/ mas pra subir é que a coisa muda/ pois pra descer qualquer santo ajuda) e a gostosa “Companheiro de Reis” (Na roça participei/ numa festa de reizado/ foi no mês de janeiro/ e não tava acostumado). Lançaram um CD muito bonito, mas seguiram viagem, cada um seu rumo. Dia destes me liga Bhá, morando agora em Januária. Gravou outro CD, que ficou de me mandar. Deve conter músicas gostosas, como as que sempre compôs.
Por lá passaram também Eustáquio Corrêa, de Almenara, com “Andante” (Se o mundo é uma viravolta/ eu vou dar a volta por aí). Seguiu seu conselho e hoje mora na Espanha, onde faz shows em bareszinhos, depois de penar por Portugal; a montes-clarense Lis Xavier, que defendeu “Vida” (Há tantas imagens. Versos/ músicas de Baha’u’lláh!).
Jorginho Santos com “São João Desilusão”, dele e de Ernani Camisasca (São João ta morrendo/ no mundo de agora/ O quentão esquentante de Dona Maria/ Acabou-se também/ Faleceu a euforia). Resolveu dar um tempo na terra e acompanhou Zé Basílio para o céu. O bocaiuvense Carlos Maia cantou “A Beleza do Amor” (Eu quero é viver. Cantar e sonhar/ eu quero é amar você). Hoje, faz dupla com Charles Boavista, do Raízes, e preparam novo CD.
Madson Athaide, de Montes Claros, com “O último sonho não será real”, dele e de Gute Brandão (O mistério está no ventre deste século 20/ as estrelas são destroços que se perdem no eco).
O piraporense Josecé Alves mostrou “Piramontes” (A velha estrada/ não tem morro nem chapada/ já sumiu a passarada/ ave de arribação). Depois da ARPPNM, lançou seu CD solo, gravou festivais mil e continua a vida de viajante musical. Muito bem, pode-se afirmar.
Milton Edilberto veio de Belo Horizonte com sua criação, a música pósfolia (ou new boi) “Carregando o Mundo” (Estamos na nova ré/ ré publica de maré/ de ci).
Élcio Lucas (com João Carlos Oliveira) tinha “Saci da Serra” (E morre o homem fraco/ homem que antes forte/ e morre o homem preso/ homem que antes, livre). Professor da Unimontes, deve compor, mas não nos mostra. Sacana, guarda pra si. Tudo bem. Não acredito que tenha aposentado da música, depois de ter lançado um compacto duplo meio pro roqueiro e um LP ambiental, que ouço sempre nas tardes desta cidade, principalmente quando vejo (ou lembro) do Verde Grande.
De BH, José Rubens apareceu com “Rosa do Sertão” (Gravatá/ mandacaru/ rosa do sertão/ olha lá quem vem chegando/ é o primo Lampião) e Embolada do Jequi.
Paulo de Souza Nunes, de Montes Claros, cantou “Nordestino” (Terra seca, rede vazia/ criança com fome/ passa mais um dia/ morre aos poucos, o homem). Ainda compõe vez ou outra, em Belo horizonte onde foi parar.
Nativo Xavier, de Porteirinha, compareceu com “Robot de Ferro”; Atualpa Viana, de Belo Horizonte, com “Real Natureza”; e Érica Viana, também da capital mineira, com “Novo Amanhecer”
Janaúba teve outros representantes.
O Grupo Musical Experimental por exemplo, formado pelo grande Donizete, acompanhado ainda por Ruy e Joaquim, cantou “Cor de um sonho” (Se tem cor da natureza/ me inspira o infinito/ porque existir a guerra/ se o amor é tão bonito) e “Chegada do trem” (Sinhá mocinha/ quando foi conhecer a estação/ fez a sua matutagem/ e arriou seu alazão); o cantor e compositor Carlito apresentou junto com Nilson a bela “Emoções” (Ouço as flores a me falar/ seu perfume a me tocar/ ouço o vento dizendo/ que vai me levar); Wagner Tadeu (com Mauro Sérgio) apresentaram “De Vago” (Nós somos máscaras sem nome/ onde se consome o ser ou não ser, feliz); Nelinho Gomes e sua “Tem que falar” (Sei que é difícil se ver/ as flores do campo florindo/ o verde da cor de mato/ mas não uma bomba explodir). E Cícero Billy Alves, com “Confissões de um errante”. Desta turma gorutubana, Cicero foi o único a se transformar em músico profissional. Lembro-me no dia que conseguiu sua carteira na Ordem dos Músicos, um sábado pela manhã. Gravou diversos CDs, e está em plena inspiração, preparando seu próximo rebento.
Quase 30 anos depois, aqueles dias devem estar ainda na cabeça de muita gente. Que participou, que ajudou a construir, e mesmo aqueles que só foram dar uma olhada. O Janarte vive, ainda, sem nome, pagão de pai e mãe. Pois é, falamos dos nossos sonhos, e quase entramos na fantasia da cidade...
Meninos e meninas
Estrada, segundo o Houaiss, tem dois significados: via de trânsito interligando localidades e caminhos. E caminhos são muitos, direitos, tortos, esquerdos, certos, errados. São por eles que passeiam meninos e meninas. Dependendo da visão que se queira ter destes meninos e meninas, eles foram (e são) um circulo fascinante de amigos ativos, talentosos, livres-pensadores, que amo em triângulos. Eu podia hoje contar um pouco de história...
São meninos como Ricardo Xarope, por exemplo. Era um poeta sem conseguir escrever uma linha. Era um poeta do som e da imaginação. Sempre tratou meus versos como desenhos de sensações e criou cantares vagos, mas de sonoridade possante. Quantas vezes, nas noites boêmias, sentimos nossas almas como irmãs gêmeas...
Aline era uma revolucionária que queria ser normal. Sofreu com escolhas entre dois mundos, entre uma ordem burguesa e uma rebeldia natural. Sempre olhava para o céu como se estivesse no Vale da Lua, no Atacama. Apesar de contemporânea e de cantar tortuosamente, ou não, uma música relativamente moderna, Aline Luz nada tinha a ver com o cinema novo ou com a nouvelle vague francesa.
Já os escritos de Felipe Gabrich tem um quê de filme da nouvelle vague e um quê de moderninho. Tem uma irresponsabilidade e um frescor nos mesmos tópicos que podem até soar como um tanto esnobe para alguns leitores. Mas são relatos divertidos, sentidos, consentidos, que compõe o mundo que Felipe retrata tão bem. Não falta ambição em suas crônicas, em seus escritos, mas isso não deve ser confundido com arrogância.
Meu primo Mauro era taxista e a alma encantadora da rua...
Dilma só usa calcinha de algodão.
Grimaldo era o engraçadinho da turma do TG 04-087 naquele ano de 1972. Era ele o xavequeiro, o pegador, o ambicioso, o intenso, o provocador, o violento, o egomaníaco. Começamos nosso aprendizado em 15 de janeiro, e terminamos dia 19 de novembro, com o juramento à bandeira na praça Pio XII. Virei soldado de reserva. Grimaldo também só que continuou um tempo sendo uma mala, querendo ser o maior do mundo. Vagabundo, boêmio, louco. Genial! Desgracioso, mas amigo. Só isso.
Fátima de Paula teve um casamento aberto. Outros não foram tão abertos. E outros mais foram totalmente fechados. O dela era tão aberto que ela saiu pela porta e não voltou. Foi parar no céu.
O coração de meu primo João César segue cego e feliz, como uma carta extraviada, na alegria insegura da desorientação. Ele me ensinou que vemos a vida através do buraco da fechadura, de modo limitado. Então, para preenchermos as vagas, inventamos coisas...
Lurdinha tem uma personalidade única, ensimesmada. Já tentou o suicídio e fica muito perto de um clichê de narcisista. Crê sofrer por ser sensível e frágil, e ser tão frágil por ser sensível. É uma alma criativa e torturada, torturada por que criativa e vice versa. Era assim quando a conheci, é assim ainda, com aquela loirice e olhos de encantar serpente. É uma declaração de amor ao próximo.
Aroldo ama a algazarra, Este amante da balbúrdia sempre cavalga encostado ao meu sóbrio ombro. Colares era um artista inquieto. Tanto que vale a pena acompanhar seu trajeto. Barbosa é uma figuraça, que não segue a corrente. Está sempre em dia com sua rebeldia. Já Teixeira não é tão Syd Barret assim, nem um Dali, mas aqui faz artes e pinta o sete com um dicionário de lugares e figuras imagináveis. Joba é um poeta antropófago, e não uma abstração. Márcio Hiram é aquele primo que manda noticias, quadrinhas, lembranças no Natal. Gy Reis é um guerrilheiro maxista de origem burguesa, como tantos que se produzem na América Latrina. Já Gualter pode acender uma vela para Deus e outra para o diabo, pois é uma mera questão de ter os fósforos necessários.
Itamaury é um filme caseiro. Bem dirigido, com capricho e inventividade mas no fim das contas, um filme caseiro. Dem mudou de nome. Vai se chamar Rece Bem! Maluquices destes meninos.
Carlos Ronaldo tem uma imagem plácida e naturalista, brinca, joga bola, fez teatro e toca (mal) violão. É jovial e genial. Um cara que esta sempre legal, nascendo a cada minuto. Era neo-socialista, libertário, mas organizado. Hoje, não sei. Cuidadoso, vivia sempre em ponto de ebulição. Hoje, experenciou...!!!
Pitchu é representante da classe média ascendente, tem marido, filhos e sonha com o dia em que terminará de erguer uma loja na pequena cidade onde vive, no Norte de Minas.
Rubim? Para conhecer Rubim se requer humor e sabedoria. Era o Miles Davis da bateria do bloco Biô e Salomé. É, ainda hoje, uma espécie de meu Pajé. E segue a vida, sendo eterno aprendiz.
Luiz Carlos Vieira, o Luiz Gastabala, era amigo de Zé Trambique e Suruba. Veio do morro (Morrinhos), onde viveu seus melhores anos junto a Dona Linda, Marquinhos 98, Beto e outros. A casa de Dona Linda era sua casa, deixando sempre Dona Elza a espera, com um prato de comida pronto no fogão. Dava uma de lutador de Shaolin, e chegou a tomar uma garrafada de abortivo pensando que fosse pinga. Era daqueles que não deixava o Carnaval chegar, estava no Carnaval o ano inteiro. Foi mestre de bateria uma vez na Porteirinha de Wilson Cunha. Para ele, a bateria tinha que ser sentida, tinha que entrar na alma.
Não me lembro seu nome. Era uma mulher interessantíssima e bonitíssima, com mil lembranças para contar, mil histórias para narrar. Ficava no Mangueirinha ou no Espeto de Ouro praticamente até o dia amanhecer, com aquela voz forte, tomando suas caipirinhas numa boa. Depois que o marido levava as crianças na escola, passava para buscá-la.
Zé de Chorró pensou que sabia voar, e pulou de uma janela do quarto andar de um hospital em Belo Horizonte. Deve estar voando até hoje...
Celso de Marcão, Leal e Beatriz era irônico, sem ser mortal. Delicado, sem ser afetado. Seu tom seco era de uma doce melancolia. Era um jovem solitário e irascível. Tinha um humor ácido e podia ser maldoso. Desprezava qualquer tipo de autoridade. Sua vida daria um filme simples, sobre um personagem nem tanto, mas um senhor ator..
Altanir Castro e Silva, o Taninha, é um homem pequeno, mas de uma coragem imensa. Antigamente, era o sommelier de tubaínas. Hoje, não dorme a noite.
Marquinhos Doideira teve uma existência atormentada, marcada pela inquietação, por neuroses. Era obcecado pelo silêncio. Vaidoso, teve uma vida familiar tranquila, uma relação afetiva tépida, sem sobressaltos. Depois que sua mulher se foi, ficou paciente.
Emerson Cardoso era algo diferente. Cantou naquele show do cine Montes Claros algo performático. Tinha um visual andrógino e o corpo cheio de purpurina. Lembrava Ney. Com voz de Bethânia. Não era um nem outro. Nem é.
João Balaio está consagrado como cônsul-geral do Reino dos Países Baixos do Pequistão. Ainda hoje, um mistério. É de direita ou de esquerda? Altruísta ou ambicioso? João Balaio é um homem sério, que deixa a vida e a morte para trás.
Leonardo Campos era um leão da metro. Dava dois urros e o resto era fita. Ele, porém, habita o segundo andar da percepção.
Para os que foram e principalmente para os que estão, o tempo que resta deve ser bem vivido. A única certeza que temos é do instante presente, do minuto no qual sabemos que ainda estamos vivos. É incômodo sabermos que somos seres descartáveis, que vamos virar pó. Mas é a vida... Agorinha mesmo, saia um som da janela da casa do Eugerson, no inicio da Padre Augusto, que me chamou a atenção. Acho que gosto de São Paulo/ E gosto de São João/ Gosto de São Francisco e São Sebastião/ E eu gosto de meninas e meninos...
Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar
meninos e meninas
São meninos como Ricardo Xarope, por exemplo. Era um poeta sem conseguir escrever uma linha. Era um poeta do som e da imaginação. Sempre tratou meus versos como desenhos de sensações e criou cantares vagos, mas de sonoridade possante. Quantas vezes, nas noites boêmias, sentimos nossas almas como irmãs gêmeas...
Aline era uma revolucionária que queria ser normal. Sofreu com escolhas entre dois mundos, entre uma ordem burguesa e uma rebeldia natural. Sempre olhava para o céu como se estivesse no Vale da Lua, no Atacama. Apesar de contemporânea e de cantar tortuosamente, ou não, uma música relativamente moderna, Aline Luz nada tinha a ver com o cinema novo ou com a nouvelle vague francesa.
Já os escritos de Felipe Gabrich tem um quê de filme da nouvelle vague e um quê de moderninho. Tem uma irresponsabilidade e um frescor nos mesmos tópicos que podem até soar como um tanto esnobe para alguns leitores. Mas são relatos divertidos, sentidos, consentidos, que compõe o mundo que Felipe retrata tão bem. Não falta ambição em suas crônicas, em seus escritos, mas isso não deve ser confundido com arrogância.
Meu primo Mauro era taxista e a alma encantadora da rua...
Dilma só usa calcinha de algodão.
Grimaldo era o engraçadinho da turma do TG 04-087 naquele ano de 1972. Era ele o xavequeiro, o pegador, o ambicioso, o intenso, o provocador, o violento, o egomaníaco. Começamos nosso aprendizado em 15 de janeiro, e terminamos dia 19 de novembro, com o juramento à bandeira na praça Pio XII. Virei soldado de reserva. Grimaldo também só que continuou um tempo sendo uma mala, querendo ser o maior do mundo. Vagabundo, boêmio, louco. Genial! Desgracioso, mas amigo. Só isso.
Fátima de Paula teve um casamento aberto. Outros não foram tão abertos. E outros mais foram totalmente fechados. O dela era tão aberto que ela saiu pela porta e não voltou. Foi parar no céu.
O coração de meu primo João César segue cego e feliz, como uma carta extraviada, na alegria insegura da desorientação. Ele me ensinou que vemos a vida através do buraco da fechadura, de modo limitado. Então, para preenchermos as vagas, inventamos coisas...
Lurdinha tem uma personalidade única, ensimesmada. Já tentou o suicídio e fica muito perto de um clichê de narcisista. Crê sofrer por ser sensível e frágil, e ser tão frágil por ser sensível. É uma alma criativa e torturada, torturada por que criativa e vice versa. Era assim quando a conheci, é assim ainda, com aquela loirice e olhos de encantar serpente. É uma declaração de amor ao próximo.
Aroldo ama a algazarra, Este amante da balbúrdia sempre cavalga encostado ao meu sóbrio ombro. Colares era um artista inquieto. Tanto que vale a pena acompanhar seu trajeto. Barbosa é uma figuraça, que não segue a corrente. Está sempre em dia com sua rebeldia. Já Teixeira não é tão Syd Barret assim, nem um Dali, mas aqui faz artes e pinta o sete com um dicionário de lugares e figuras imagináveis. Joba é um poeta antropófago, e não uma abstração. Márcio Hiram é aquele primo que manda noticias, quadrinhas, lembranças no Natal. Gy Reis é um guerrilheiro maxista de origem burguesa, como tantos que se produzem na América Latrina. Já Gualter pode acender uma vela para Deus e outra para o diabo, pois é uma mera questão de ter os fósforos necessários.
Itamaury é um filme caseiro. Bem dirigido, com capricho e inventividade mas no fim das contas, um filme caseiro. Dem mudou de nome. Vai se chamar Rece Bem! Maluquices destes meninos.
Carlos Ronaldo tem uma imagem plácida e naturalista, brinca, joga bola, fez teatro e toca (mal) violão. É jovial e genial. Um cara que esta sempre legal, nascendo a cada minuto. Era neo-socialista, libertário, mas organizado. Hoje, não sei. Cuidadoso, vivia sempre em ponto de ebulição. Hoje, experenciou...!!!
Pitchu é representante da classe média ascendente, tem marido, filhos e sonha com o dia em que terminará de erguer uma loja na pequena cidade onde vive, no Norte de Minas.
Rubim? Para conhecer Rubim se requer humor e sabedoria. Era o Miles Davis da bateria do bloco Biô e Salomé. É, ainda hoje, uma espécie de meu Pajé. E segue a vida, sendo eterno aprendiz.
Luiz Carlos Vieira, o Luiz Gastabala, era amigo de Zé Trambique e Suruba. Veio do morro (Morrinhos), onde viveu seus melhores anos junto a Dona Linda, Marquinhos 98, Beto e outros. A casa de Dona Linda era sua casa, deixando sempre Dona Elza a espera, com um prato de comida pronto no fogão. Dava uma de lutador de Shaolin, e chegou a tomar uma garrafada de abortivo pensando que fosse pinga. Era daqueles que não deixava o Carnaval chegar, estava no Carnaval o ano inteiro. Foi mestre de bateria uma vez na Porteirinha de Wilson Cunha. Para ele, a bateria tinha que ser sentida, tinha que entrar na alma.
Não me lembro seu nome. Era uma mulher interessantíssima e bonitíssima, com mil lembranças para contar, mil histórias para narrar. Ficava no Mangueirinha ou no Espeto de Ouro praticamente até o dia amanhecer, com aquela voz forte, tomando suas caipirinhas numa boa. Depois que o marido levava as crianças na escola, passava para buscá-la.
Zé de Chorró pensou que sabia voar, e pulou de uma janela do quarto andar de um hospital em Belo Horizonte. Deve estar voando até hoje...
Celso de Marcão, Leal e Beatriz era irônico, sem ser mortal. Delicado, sem ser afetado. Seu tom seco era de uma doce melancolia. Era um jovem solitário e irascível. Tinha um humor ácido e podia ser maldoso. Desprezava qualquer tipo de autoridade. Sua vida daria um filme simples, sobre um personagem nem tanto, mas um senhor ator..
Altanir Castro e Silva, o Taninha, é um homem pequeno, mas de uma coragem imensa. Antigamente, era o sommelier de tubaínas. Hoje, não dorme a noite.
Marquinhos Doideira teve uma existência atormentada, marcada pela inquietação, por neuroses. Era obcecado pelo silêncio. Vaidoso, teve uma vida familiar tranquila, uma relação afetiva tépida, sem sobressaltos. Depois que sua mulher se foi, ficou paciente.
Emerson Cardoso era algo diferente. Cantou naquele show do cine Montes Claros algo performático. Tinha um visual andrógino e o corpo cheio de purpurina. Lembrava Ney. Com voz de Bethânia. Não era um nem outro. Nem é.
João Balaio está consagrado como cônsul-geral do Reino dos Países Baixos do Pequistão. Ainda hoje, um mistério. É de direita ou de esquerda? Altruísta ou ambicioso? João Balaio é um homem sério, que deixa a vida e a morte para trás.
Leonardo Campos era um leão da metro. Dava dois urros e o resto era fita. Ele, porém, habita o segundo andar da percepção.
Para os que foram e principalmente para os que estão, o tempo que resta deve ser bem vivido. A única certeza que temos é do instante presente, do minuto no qual sabemos que ainda estamos vivos. É incômodo sabermos que somos seres descartáveis, que vamos virar pó. Mas é a vida... Agorinha mesmo, saia um som da janela da casa do Eugerson, no inicio da Padre Augusto, que me chamou a atenção. Acho que gosto de São Paulo/ E gosto de São João/ Gosto de São Francisco e São Sebastião/ E eu gosto de meninas e meninos...
Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar
meninos e meninas
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Não tenho nada com isso, nem vem falar...
Resisti até agora a cometer qualquer tipo de comentário a propósito da cannabis sativa e o nosso tempo. Nosso, entre parênteses. Ou parentes. Nossos aderentes.
Vendo uma foto, preto e branco, nós, os amigos, lá de calção e tudo. Quantos anos! Eles, que já se foram, e eu, um cara que ainda acredita em alguma coisa. Pois desisto de resistir e falo da marijuana. Faço de forma oblíqua, marginal. Pior do que superficial.
Ando meio desligado, como música de Mutantes. O Tino Gomes ‘conversa’ pelo MSN e diz que ando saudosista. Chega de saudade! A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai!
Quero apenas registrar um tempo que, se não o fizer, passa. Como tudo passa...
Por exemplo, o tempo de Roberto Luiz Veloso Costa, nosso Bob da fazenda Vargem Grande. E seus chás. Desaparecido pelas Brasílias da vida, reapareceu, casado. Saia, durante a semana, pelos montes ao nosso redor, a procura de cogumelos... E aos sábados à tarde, pedia emprestado a panela de pressão. Depressão maior não havia! Aquele caldo vermelho-sangue, que fazia o Virgilio de Paula fazer cara ruim e correr para brincar com Edgar Alan Pöe, nosso macaco de estimação, do qual ele era o padrinho... Só ele, Bob, se servia e ficava a ver os pássaros. Que só ele via. Era noite.
Teve o tempo de Tiãozim Comunista, com seu bolo de marijuana, que efeito nenhum dava. Apenas aquele cheirão esquisito pela casa, enquanto assava ao som da Billi Holliday na velha Gradiente e o ‘deixar relaxar’, para ver o que vinha depois. Ou seria a música ‘Revolution nº 9’, dos Beatles? Talvez o Georgino Junior lembre melhor.
O tempo parou de repente naquele 10 de fevereiro de 1978, em que Si Baixim resolveu fritar uma porção de maconha – que ficou úmida por estar escondida na cumieira de sua casa, no Morrinho. Enquanto isso, na sala, Rai Colares desenhava rostos e gostos, e à maneira de Sid Vicious, dançava embrulhado numa bandeira do Brasil a música ‘Bandido Corazon’. Goiabão poetizava Americana Pátria, morena, quiero tener guitarra y canto libre!
Acabamos todos nós indo para o Bandeira Dois, comer uma sopa de legumes com caldo de feijão.
A lista dos que fumaram maconha pelo menos uma vez na vida, é longa: Baudelaire, Bill Gates, Shakespeare... Pra ficar naqueles de lá. Baudelaire sugeriu, depois de um tapa, para “embriagarmos de vinho, poesia e virtude”. Coisa mais bonita!
Um dos meus amigos mais chegados achou horrível a “tal da maconha”, mas o cheiro, ótimo. Tanto que usa até hoje seu perfume.
Na minha tenra juventude, as transformações foram muitas e radicais. Existiam os direitistas e os rebeldes sem causa. Afinal, todos devemos encarar nossas parcelas de solidão.
Nu, cru e lavado!
Era época de Emílio Garrastazu Médici, quando a turma se especializava na arte de burlar a democracia. O que importava para eles, os milicos, era a ditadura. A maconha estava liberada. Pelo menos no país dos Montes Claros.
Era época de desenvolver a alma. Tudo previsível.
Mas a vida faz as coisas imprevisíveis. Nunca acontecem daquele jeito que se quer. E as coisas imprevisíveis acabam levando a vida.
Dia destes Bianca, minha filha, estava assistindo ao filme ‘Hair’ comigo, quando veio com essa: – Já sei por que aquela sua amiga anda com estas roupas. Ela continua chapada na época do flower Power”.
Interessante a observação.
Àquela época, assistir Hair em Belo Horizonte era uma dificuldade. Mas ver Armando Bogus, Altair Lima, Araci Balabarian, Sonia Braga, Bibi Voguel... era demais. E mais ainda, escutar Aquarius; Donna; Manchester, Inglaterra; Fácil Dizer Não; Hare Krisha; Bom Dia, Estrela e Deixe o Sol Entrar? Era um desbunde total!
Aquela melodias espontâneas, os ritmos excitantes, as idéias das letras, das canções. E Sônia Braga! Entre os que se encantaram com Sônia, estava Caetano Veloso que compôs Tigresa em sua homenagem. Sônia era a tigresa de unhas negras e íris cor de mel, que trabalhou no Hair.
Emoção maior era assistir a peça pela segunda vez. Pois Hair não é espetáculo para uma vez, é para se comprar o filme e assistir ainda hoje. Pena que a peça de teatro não fora gravada.
Cada vez que você vê o filme, descobre muita coisa que passa despercebida, como acontece com certa sobras musicais de valor. Cada vez gosta-se mais e mais se aproveita.
A gente era jovem naqueles anos, e tínhamos muito a reclamar. Ou não. A gente se reunia nas casas para falar de poesia. Foi assim que nasceu a Academia Juvenil de Letras. Foi assim que se criou o Catibum! Nós nunca deixamos de ser loucos!
Naquela época existiam aquelas moças de família e as outras. Estas outras se divertiam mais. Davam mais. Agradavam a gente mais.
E peregrino do max flower, Ricardo Xarope, tinha um chame desgraçado de simpatia para elas. O que sobrava... seria para nós.
Naquela época, os marginais que éramos não sabiam que iriam acabar virando uma instituição.
Sinto hoje, nestes Montes Claros, o que há muito não sentia. As cousas não tem segredo no corredor dessa casa, onde escrevo tranquilo na copa das árvores.
Nós estamos semeando, companheiros, no coração, manhãs e frutos e sonhos.
Nós preparamos, companheiro, sem ilusão, um novo tempo.
Que já está aí.
E o céu se rirá d’amore no olho azul de Zildete, aquela amiga de Marta, que tem tantos anos não vejo. Cigarra sem horizonte. Cadê você, menina?
É como o quadro do Konstantin sobre a parede gris da solidão.
Vendo uma foto, preto e branco, nós, os amigos, lá de calção e tudo. Quantos anos! Eles, que já se foram, e eu, um cara que ainda acredita em alguma coisa. Pois desisto de resistir e falo da marijuana. Faço de forma oblíqua, marginal. Pior do que superficial.
Ando meio desligado, como música de Mutantes. O Tino Gomes ‘conversa’ pelo MSN e diz que ando saudosista. Chega de saudade! A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai!
Quero apenas registrar um tempo que, se não o fizer, passa. Como tudo passa...
Por exemplo, o tempo de Roberto Luiz Veloso Costa, nosso Bob da fazenda Vargem Grande. E seus chás. Desaparecido pelas Brasílias da vida, reapareceu, casado. Saia, durante a semana, pelos montes ao nosso redor, a procura de cogumelos... E aos sábados à tarde, pedia emprestado a panela de pressão. Depressão maior não havia! Aquele caldo vermelho-sangue, que fazia o Virgilio de Paula fazer cara ruim e correr para brincar com Edgar Alan Pöe, nosso macaco de estimação, do qual ele era o padrinho... Só ele, Bob, se servia e ficava a ver os pássaros. Que só ele via. Era noite.
Teve o tempo de Tiãozim Comunista, com seu bolo de marijuana, que efeito nenhum dava. Apenas aquele cheirão esquisito pela casa, enquanto assava ao som da Billi Holliday na velha Gradiente e o ‘deixar relaxar’, para ver o que vinha depois. Ou seria a música ‘Revolution nº 9’, dos Beatles? Talvez o Georgino Junior lembre melhor.
O tempo parou de repente naquele 10 de fevereiro de 1978, em que Si Baixim resolveu fritar uma porção de maconha – que ficou úmida por estar escondida na cumieira de sua casa, no Morrinho. Enquanto isso, na sala, Rai Colares desenhava rostos e gostos, e à maneira de Sid Vicious, dançava embrulhado numa bandeira do Brasil a música ‘Bandido Corazon’. Goiabão poetizava Americana Pátria, morena, quiero tener guitarra y canto libre!
Acabamos todos nós indo para o Bandeira Dois, comer uma sopa de legumes com caldo de feijão.
A lista dos que fumaram maconha pelo menos uma vez na vida, é longa: Baudelaire, Bill Gates, Shakespeare... Pra ficar naqueles de lá. Baudelaire sugeriu, depois de um tapa, para “embriagarmos de vinho, poesia e virtude”. Coisa mais bonita!
Um dos meus amigos mais chegados achou horrível a “tal da maconha”, mas o cheiro, ótimo. Tanto que usa até hoje seu perfume.
Na minha tenra juventude, as transformações foram muitas e radicais. Existiam os direitistas e os rebeldes sem causa. Afinal, todos devemos encarar nossas parcelas de solidão.
Nu, cru e lavado!
Era época de Emílio Garrastazu Médici, quando a turma se especializava na arte de burlar a democracia. O que importava para eles, os milicos, era a ditadura. A maconha estava liberada. Pelo menos no país dos Montes Claros.
Era época de desenvolver a alma. Tudo previsível.
Mas a vida faz as coisas imprevisíveis. Nunca acontecem daquele jeito que se quer. E as coisas imprevisíveis acabam levando a vida.
Dia destes Bianca, minha filha, estava assistindo ao filme ‘Hair’ comigo, quando veio com essa: – Já sei por que aquela sua amiga anda com estas roupas. Ela continua chapada na época do flower Power”.
Interessante a observação.
Àquela época, assistir Hair em Belo Horizonte era uma dificuldade. Mas ver Armando Bogus, Altair Lima, Araci Balabarian, Sonia Braga, Bibi Voguel... era demais. E mais ainda, escutar Aquarius; Donna; Manchester, Inglaterra; Fácil Dizer Não; Hare Krisha; Bom Dia, Estrela e Deixe o Sol Entrar? Era um desbunde total!
Aquela melodias espontâneas, os ritmos excitantes, as idéias das letras, das canções. E Sônia Braga! Entre os que se encantaram com Sônia, estava Caetano Veloso que compôs Tigresa em sua homenagem. Sônia era a tigresa de unhas negras e íris cor de mel, que trabalhou no Hair.
Emoção maior era assistir a peça pela segunda vez. Pois Hair não é espetáculo para uma vez, é para se comprar o filme e assistir ainda hoje. Pena que a peça de teatro não fora gravada.
Cada vez que você vê o filme, descobre muita coisa que passa despercebida, como acontece com certa sobras musicais de valor. Cada vez gosta-se mais e mais se aproveita.
A gente era jovem naqueles anos, e tínhamos muito a reclamar. Ou não. A gente se reunia nas casas para falar de poesia. Foi assim que nasceu a Academia Juvenil de Letras. Foi assim que se criou o Catibum! Nós nunca deixamos de ser loucos!
Naquela época existiam aquelas moças de família e as outras. Estas outras se divertiam mais. Davam mais. Agradavam a gente mais.
E peregrino do max flower, Ricardo Xarope, tinha um chame desgraçado de simpatia para elas. O que sobrava... seria para nós.
Naquela época, os marginais que éramos não sabiam que iriam acabar virando uma instituição.
Sinto hoje, nestes Montes Claros, o que há muito não sentia. As cousas não tem segredo no corredor dessa casa, onde escrevo tranquilo na copa das árvores.
Nós estamos semeando, companheiros, no coração, manhãs e frutos e sonhos.
Nós preparamos, companheiro, sem ilusão, um novo tempo.
Que já está aí.
E o céu se rirá d’amore no olho azul de Zildete, aquela amiga de Marta, que tem tantos anos não vejo. Cigarra sem horizonte. Cadê você, menina?
É como o quadro do Konstantin sobre a parede gris da solidão.
Montes Claros, terra do encantamento
“Nestes Montes Claros, meu sertão mineiro, todo mundo sente que é brasileiro”, canta Dulce Sarmento.
Pois Montes Claros é a cidade onde o povo ousa sonhar e realizar seus sonhos. É a cidade onde existe uma Praça da Matriz como em outras aldeias, mas também um morro Dois Irmãos, um arroz com pequi acompanhado da seresta ao luar. É a terra que tem além de uma igrejinha em cima do Morrinho, cachaça e carne de sol pra saborear num mercado que poderá vir a ser modelo, existem pessoas. E uma cultura sempre presente em todos os cantos. Inclusive dentro de cada um de nós, montes-clarinos sertanejos de Rosa.
Mas para que ela continue vivendo dentro de cada um, é preciso permitir que as novas gerações desfrutem da tradição e a mantenha viva.
É necessário fortalecer as associações e entidades culturais, universalizar os direitos e serviços culturais permanentemente.
É necessário juntar o ontem e o hoje, o velho e o novo, e dar prosseguimento.
O escritor, poeta, artista e encantador Georgino Jorge de Souza Junior lembra que quando da criação do grupo Catibum, aqueles jovens dos anos 1970 (meninos de 20 e poucos anos) queriam mostrar o novo que eram. Revolucionar, participar de uns novos montes claros. Hoje, eles querem abrir o espaço para os novos, mesmo novos de cabeça. Pois a cultura não é estanque, é algo vivo e fluido como um rio no seu curso.
É claro que é preciso ter cuidados.
Montes Claros cresce muito culturalmente todos os anos.
João Batista (Joba) Costa, quando aqui chegou, aos 10 anos de idade, disse que a cultura dessa terra o pegou e tomou conta do seu ser.
Montes Claros é assim.
Uma cidade com uma intensa vivência de manifestações culturais.
Para se tornar universal é preciso, acima de tudo, conhecer a nossa aldeia, como a chama Augusto Vieira, meu Bala Doce querido.
E ela, como mostra o escritor Bala Doce, não está limitada geograficamente e historicamente a um local.
A alma de seu povo é viva, cheia de gostos e costumes característicos. Preserva sua identidade e perpetua sua história.
Montes Claros é a cidade da arte e da cultura. É a cidade que montesclareou como na lenda de uma linda canção.
É a cidade da Feira de Arte e do Artesanato, da Festa Nacional do Pequi, do Conservatório Lorenzo Fernândez, do Festival de Forró e Quadrilha, ou de apenas colocar o Papo em Dia num boteco qualquer, num fim de tarde qualquer.
É o local da Casa do Artesão, da FLIMC – Festa Literária Internacional de Montes Claros, do Psiu Poético, do ProMemoc, da Mostra de Teatro, do Museu do Folclore, Circuladô, das festas de Agosto, do Festival Folclórico, Festival Internacional do Folclore, Semana da Consciência Gay, da Consciência Negra e das Folias de Reis. Devo ter esquecido alguns, já que são tantos.
É aqui que está o Parque da Lapa Grande, o Consórcio Literário Oficina das Letras, o sobrado dos Maurício e o solar dos Oliveira, a Terça Cultural e a casa da Arte & Ofício, onde se aprende a construir rabecas, violas caipiras e a montesclarear, como quer Eduardo Goiabão Lima...
Montes Claros é a cidade de Dona Eva Barbara, Yuri Popoff, Godofredo Guedes, Márcia Prates, Darcy Ribeiro, Roxa, dos meninos do Grupo Agreste, Hermes de Paula e Yvone Silveira, Miguel Marujo, Ray Colares e Nossa Senhora do Rosário. Terra do encantamento.
É terra do jucapratismo, da música belo-horizontina de Beto Guedes, das artes e manhas de João Rodrigues e Konstantin Christoff, da melodia holandesa de Marcelo Godoy, do prazer de se falar no Lês Cherries, Zezé Colares, Mamãe-vovó, Catira, Tino Gomes, Zé Coco do Riachão, Armênio Graça, dos meninos do Grupo Raízes e São Benedito. Terra do viver encantado.
De João Chaves, Yara Tupinambá, Cyro dos Anjos, Urze de Almeida, Sebastião (Ducho) Mendes, Zanza, Joaquim de Paula, Carlos Muniz, Cândido Canela, Amelina Chaves, Amelinha Souto e o Divino Espírito Santo, além dos reis, imperadores e festeiros. Terá do encantar.
A cultura da cidade encanta a todos que a conhecem.
Ela pertence a todos e a cada um.
E a descentralização das ações culturais tomadas ultimamente proporciona uma proximidade maior do povo com seus eventos.
Isto, sem se apropriar dos saberes deste povo.
Deve-se deixar que o artista viva a sua arte.
Como diz Wanderlino Arruda, é até pecado falar de todas as vantagens que Montes Claros têm, pois não gostamos de fazer inveja.
Montes Claros é o centro do Paraíso terrestre.
Montes Claros já está montesclareada.
Falta seguir em frente.
Falta virar o centro do mundo.
Pois Montes Claros é a cidade onde o povo ousa sonhar e realizar seus sonhos. É a cidade onde existe uma Praça da Matriz como em outras aldeias, mas também um morro Dois Irmãos, um arroz com pequi acompanhado da seresta ao luar. É a terra que tem além de uma igrejinha em cima do Morrinho, cachaça e carne de sol pra saborear num mercado que poderá vir a ser modelo, existem pessoas. E uma cultura sempre presente em todos os cantos. Inclusive dentro de cada um de nós, montes-clarinos sertanejos de Rosa.
Mas para que ela continue vivendo dentro de cada um, é preciso permitir que as novas gerações desfrutem da tradição e a mantenha viva.
É necessário fortalecer as associações e entidades culturais, universalizar os direitos e serviços culturais permanentemente.
É necessário juntar o ontem e o hoje, o velho e o novo, e dar prosseguimento.
O escritor, poeta, artista e encantador Georgino Jorge de Souza Junior lembra que quando da criação do grupo Catibum, aqueles jovens dos anos 1970 (meninos de 20 e poucos anos) queriam mostrar o novo que eram. Revolucionar, participar de uns novos montes claros. Hoje, eles querem abrir o espaço para os novos, mesmo novos de cabeça. Pois a cultura não é estanque, é algo vivo e fluido como um rio no seu curso.
É claro que é preciso ter cuidados.
Montes Claros cresce muito culturalmente todos os anos.
João Batista (Joba) Costa, quando aqui chegou, aos 10 anos de idade, disse que a cultura dessa terra o pegou e tomou conta do seu ser.
Montes Claros é assim.
Uma cidade com uma intensa vivência de manifestações culturais.
Para se tornar universal é preciso, acima de tudo, conhecer a nossa aldeia, como a chama Augusto Vieira, meu Bala Doce querido.
E ela, como mostra o escritor Bala Doce, não está limitada geograficamente e historicamente a um local.
A alma de seu povo é viva, cheia de gostos e costumes característicos. Preserva sua identidade e perpetua sua história.
Montes Claros é a cidade da arte e da cultura. É a cidade que montesclareou como na lenda de uma linda canção.
É a cidade da Feira de Arte e do Artesanato, da Festa Nacional do Pequi, do Conservatório Lorenzo Fernândez, do Festival de Forró e Quadrilha, ou de apenas colocar o Papo em Dia num boteco qualquer, num fim de tarde qualquer.
É o local da Casa do Artesão, da FLIMC – Festa Literária Internacional de Montes Claros, do Psiu Poético, do ProMemoc, da Mostra de Teatro, do Museu do Folclore, Circuladô, das festas de Agosto, do Festival Folclórico, Festival Internacional do Folclore, Semana da Consciência Gay, da Consciência Negra e das Folias de Reis. Devo ter esquecido alguns, já que são tantos.
É aqui que está o Parque da Lapa Grande, o Consórcio Literário Oficina das Letras, o sobrado dos Maurício e o solar dos Oliveira, a Terça Cultural e a casa da Arte & Ofício, onde se aprende a construir rabecas, violas caipiras e a montesclarear, como quer Eduardo Goiabão Lima...
Montes Claros é a cidade de Dona Eva Barbara, Yuri Popoff, Godofredo Guedes, Márcia Prates, Darcy Ribeiro, Roxa, dos meninos do Grupo Agreste, Hermes de Paula e Yvone Silveira, Miguel Marujo, Ray Colares e Nossa Senhora do Rosário. Terra do encantamento.
É terra do jucapratismo, da música belo-horizontina de Beto Guedes, das artes e manhas de João Rodrigues e Konstantin Christoff, da melodia holandesa de Marcelo Godoy, do prazer de se falar no Lês Cherries, Zezé Colares, Mamãe-vovó, Catira, Tino Gomes, Zé Coco do Riachão, Armênio Graça, dos meninos do Grupo Raízes e São Benedito. Terra do viver encantado.
De João Chaves, Yara Tupinambá, Cyro dos Anjos, Urze de Almeida, Sebastião (Ducho) Mendes, Zanza, Joaquim de Paula, Carlos Muniz, Cândido Canela, Amelina Chaves, Amelinha Souto e o Divino Espírito Santo, além dos reis, imperadores e festeiros. Terá do encantar.
A cultura da cidade encanta a todos que a conhecem.
Ela pertence a todos e a cada um.
E a descentralização das ações culturais tomadas ultimamente proporciona uma proximidade maior do povo com seus eventos.
Isto, sem se apropriar dos saberes deste povo.
Deve-se deixar que o artista viva a sua arte.
Como diz Wanderlino Arruda, é até pecado falar de todas as vantagens que Montes Claros têm, pois não gostamos de fazer inveja.
Montes Claros é o centro do Paraíso terrestre.
Montes Claros já está montesclareada.
Falta seguir em frente.
Falta virar o centro do mundo.
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