domingo, 21 de novembro de 2010

I want to hold your hand

Era início dos anos 60. A montesclarina província estava em marcha lenta. O bairro São José acabava ali, na rua Gregório Veloso. Depois, só uma trilha nos levava até o morro onde seria construído o DER. E ainda tinha aquela pinguela para atravessar, do rio de esgoto que passava ao lado do colégio São José. Ou então, se pulava!
Do outro lado da cidade, o bairro Todos os Santos começava a ser formado. Também uma pinguela, feita de uma árvore tombada, nos deixava atravessar o rio dos Vieira. Onde hoje está o Elos Clube, dos portugueses, ficava um dos nossos campinhos de futebol preferido. Tinha outro, mais abaixo, perto de um pé de araçá, onde nosso time, que tinha Márcio Hiran como artilheiro, enfrentava o de Marquinhos, que vinha com seu irmão, Márcio, como beque central.
Haviam gangues sim, naquela época! A nossa era da igrejinha do Rosário, que, derrubada, estava sendo, pouco a pouco, reconstruída. Ali era nosso quartel general. Tinha também a do Paulo Bobão, perto da Santa Casa (ele era uma dissidência nossa. Criou sua própria turma após mudar da Coronel Prates). E do Marquinhos, perto da rua Irmã Beata. As gangues brigavam. Muito! Mas no futebol. Quando não nos campinhos da nossa infância, durante o dia, na rua Coronel Prates, em cima dos paralelepípedos, a noite. Disputa da grossa. E com muito machucado, dedão do pé ferido, pois a maioria jogava descalço.
Uma das imagens que me vem agora, na lembrança, daqueles anos 60, é aquela da lata de sopa Campbell, de Andy Warhol. Ou o filme “Ben Hur”, com Charlston Heston. O Cine São Luiz, onde Baltazar, pai de Gêra Brandão e Luiz Carlos, vez por outra, nos deixava entrar de graça.
O Rays era quem levava para casa livros, revistas e discos. Os discos, preferencialmente, da nova música, o rock do Roberto Carlos. Fez até uma camisa vermelha, igual àquela em que ele aparecia na capa de um LP, o do Calhambeque. Bip-bip! Pai ficou retado, mas acabou concordando com as modernidades que começavam a nos aparecer. Era a vida que mudava naqueles anos de 1960. Também músicas de Elvis Presley, livros e revistas com fotos de Marilyn Monroe, os catecismos do Zéfiro, apareciam em casa. Fiz uma pequena coleção de revistas e livros. Mas uma das namoradas do Rays - acho que irmã ou prima do José Vasconcelos Câmara - disse que eu não podia ler aquilo. Pegou tudo e sumiu. Deve estar no seu quarto até hoje, pois logo depois ela e Rays se separaram. Praga de irmão. Hoje, minhas revistas, livros e catecismos devem servir, pelo menos, como souvenir para ela.
Lembro que pai, fã de carteirinha do presidente Juscelino Kubitschek, não foi na inauguração de Brasília, a nova capital do país. Mas comprou todas as revistas da época, Manchete e Cruzeiro, que até hoje estão guardadas.
Só no final daqueles anos de liberdade vigiada (afinal, os milicos pegaram o poder em 64), foi que descobrimos o movimento hippie, que pregava a paz e o amor, através do poder da flor (flower Power), do negro (black Power), do gay (gay Power) e da liberação da mulher (women’s lib). Os anos 60 foram de manifestações e palavras de ordem. Elas mobilizaram jovens em diversas partes do mundo. Inclusive na provinciana Montes Claros, que mudava de cara pouco a pouco. Em marcha lenta, é claro.
Foi nesses anos de mudanças, que ganhei meu primeiro jeans americano, o básico da moda de rua. Uma calça Lee, que desbotava e perdia o vínculo com as roupas normais. Presente do irmão mais velho. Aquilo dava liberdade e rebeldia.
Estudava no colégio São José. Indo ou voltando, passava pela zona, na padre Augusto, no fundo do antigo cemitério. Que delícia aquela mulheres com seus peitões nas janelas, nos chamando para nos tirar a virgindade. Aquela troca de olhares e aquela proibição juvenil. E que medo!!!
Irmão Jaime Damião batia em nossas mãos com aquela varinha de pescar. Seria sua varinha de condão. Por qualquer motivo: se não respondêssemos em francês, se participássemos de reuniões “obscuras”, como classificava as reuniões no DEMC de então. O montesclarino participava do movimento estudantil, que acabou explodindo e tomando conta das ruas em diversas partes do mundo. Contestávamos, aqui também, a sociedade, seus sistemas de ensino e a cultura em diversos aspectos, como a sexualidade, os costumes, a moral e a estética. E sobrava muito para mim. Sempre apresentava versões diferentes daquela mostradas nas aulas. Seria rebeldia?
Irmão Ladislau Figueiredo talvez achasse que fosse. Me chamava sempre a sua sala para pregar o “estabilismenth”. Mas não dava! Jornais, como o Correio da Manhã, revistas, como Realidade, nos abria a cabeça para outras coisas. Tanto que, no começo dos anos 70, quando já se tocava “Je T’aime, ma non plus”, “pediram” para que fôssemos trocar idéias em outras escolas. E lá fui para a Escola Normal... Onde encontrei com Celso Leal, Manoel Oliveira e Jaime Cruz. Para trás ficavam 11 anos de São José, e uma vida de estudos.
Em Montes Claros, mesmo em marcha lenta, também lutava-se contra a ditadura militar, o que iria mais tarde resultar no fechamento do Congresso e na decretação do Ato Institucional nº 5. Não se lutava como no Rio ou São Paulo, pois o Coronel Georgino marcava pesado. Mas lutava-se quando ele piscava...
A cidade seguia sua vida de interior. A renuncia de Jânio Quadros nos caiu menor que a morte de John Kennedy. Na casa de tio Geraldo e tia Edi, junto com Márcio, Tereza e Bete, torcíamos pelo Brasil na Copa de 62. Tia Edi amarrava o “rabo do diabo” embaixo de mesas, e sempre saia gols. Foi lá também que, em 65, nas tardes de domingo, assistíamos, numa TV preto&branco, cheia de chuviscos, a Jovem Guarda. E, mais e mais, a modernidade nos chegava. No cinema, Belle de Jour, com Catherine Deneuve, Bonequinha de Luxo, A Doce Vida do Fellini, até O Pagador de Promessas, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.
O tempo passava. As quintas-feiras, que antes eram de almoço na casa dos padrinhos Elias e Zita Camargo, na Gregório Veloso, ficavam para trás. Elias já me servia uma Gin Tônica, e os quadros nas paredes pareciam mais interessantes. Eles moravam ao lado da casa do professor Raimundo Saturnino, pai do (até hoje) inquieto Paulinho Manga-Rosa. Que dupla: Manga Rosa e Perereca! Nunca chegamos a jogar, naqueles anos, pelo mesmo time de futebol. Embora jogássemos sempre no mesmo time de coração. O almoço da quinta era bife a milanesa com banana frita. Uma delícia! Feita pela Geralda, irmã de Belinha Grande, filha de Vó Mariinha, que morava na Malhada das Almas.
Não só Roberto, mas também os Beatles já rodavam na vitrola enquanto nadávamos na piscina do Max-min. Ou íamos em excursão, com tio Geraldo, para Pentáurea, aquele local longe, cheio de areia movediça, intocável. Foi na casa de tio Geraldo que escutei, pela primeira vez, o lp Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Que tapa na cara! O que era aquilo? Que música diferente, interessante, desbundante era aquela? Foi ali que começou tudo! Ou continuou...
E vieram filmes como Barbarella, com Jane Fonda. O disco Tropicália, ou Pane et Circenses, do Caetano Veloso. E 2001, Uma Odisséia no Espaço, do Kubrick, ali, no Cine Fátima. Os matinês do início da década, que formavam filas imensas no Cine Coronel Ribeiro, por causa dos seriados, ficavam para trás. A música já era outra, não aquele roquezinho do Calhambeque e de blusas vermelhas.
Para o desbunde ficar maior, Woodstock aparece! Eram três dias de paz, amor e liberdade. Nas telas, Easy Rider, sem destino. Com eles, porém, nos chega a morte chocante de Sharon Tate, esposa do Roman Polanski, naquele agosto de 1969. Aqui, Carlos Marighella era assassinado, em 4 de novembro daquela ano. A ditadura mostrava que não ia embora. Que ia nos incomodar, queria ou não Coronel Georgino.
Talvez o que mais tenha caracterizado a nossa juventude naqueles anos 60 tenha sido o desejo de rebelar, a busca por liberdade de expressão e liberdade sexual. O surgimento da pílula anticoncepcional foi responsável por um comportamento sexual feminino mais liberal. Porém, elas também queriam igualdade de direitos, de salários, de decisão. Até o sutiã foi queimado em praça pública, num símbolo de libertação. Os 60 chegaram ao fim, coroados com a chegada do homem à Lua, em julho de 1969. Woodstock Music & Art Fair, em agosto, reuniu cerca de 500 mil pessoas em três dias de amor, música, sexo e drogas.
Mas aqui, nestes montesclarinos sertões, todos achavam que a cidade continuava a andar em marcha lenta.
Mas era pura mentira!
Eu já pegava em sua mão...!!!

Os deuses nos livram de sermos solenes

A moeda número um de Tio Patinhas não é minha. mas vou sonhando até explodir colorido. Nada no bolso ou nas mãos.
Isto é música de Caetano Veloso, e cantada na sua despedida do Brasil, naquele famoso show Barra 69, no teatro Castro Alves, fica mais déjàvu ainda. O Du Brasil pode confirmar se foi lá mesmo.
Já faz tanto tempo.
Ouvia o disco em sua casa, quando ainda morava na Rayo Kristoff, na década de 1970.
Era época de Daga, do Luiz Carlos, irmão de Gêra Brandão, que ainda não tinha paixão pela Fatel.
A gente se reunia, às vezes para falar de música, às vezes para falar da vida, às vezes só para curtição mesmo. Um cheiro de patchouli no ar.
Estávamos com 17, 18 anos, o mundo era todo a nosso favor.
Pelo menos pensávamos assim, metidos a hippie que éramos, esquecendo da revolução que acontecia do lado de fora, na rua.
Tinha também o disco do Geraldo Vandré, em que ele cantava “Pátria Amada, Idolatrada, Salve Salve”.
Havia concorrido com a música em um festival no Chile (que tinha o Allende e onde tudo “também” era permitido).
O Luiz, irmão de Gêra, já morava nesta época em Brasília. Era ele quem conseguia estes LPs por meios ilícitos (como o Barra 69 de Caê e Gil), e a gente curtia junto com o que era lícito na vida.
Nas conversas, “inteligentes” demais que éramos, discutíamos sobre psicologia, sexo, política, religião, Jorge Amado, João Rosa, as crônicas do Felipe Gabrich e por aí afora.
Transgressão positiva!
Afinal, um pouco de frivolidade é necessária, pois os deuses nos livram de sermos solenes.
Os papos varavam noites.
Às vezes, até dias.
Uma cachaça aqui, um cajá-manga de tira gosto (do pé no quintal da casa de Gêra).
Às vezes o papo ia para praças, andanças pelos caminhos que o rio Vieira (ainda não havia a avenida Sanitária, mas apenas o córrego que começava a ser poluído) nos levava.
Subíamos a serra e acampávamos em nosso local predileto: a cachoeira (que existia) onde hoje é o parque do Sapucaia.
Entre músicas tocadas no velho violão, reavaliávamos a vida ou reinventávamos a vida. Do alto dos 17, 18 anos, mesmo tendo apenas uma idéia difusa sobre ela.
O que era certo era a morte estar empoleirada em nosso ombro, espiando com seu inquietante olho de coruja. Como foram dourados aqueles nossos anos...
Mas o tempo passou, como o tempo passa. Ricardo, Gêra, seu irmão Luiz e tantos outros foram para outro andar.
Continuamos, às vezes com os mesmos pensamentos, mas com cinco décadas nas costas. Ouvimos hoje às mesmas músicas? Talvez...
Dia destes estava comentando com Brasil sobre a editora Sapo na Muda.
Idéia maluca, de se fazer uma rádio que toque coisas nossas (principalmente que não deixe perder as raízes não só norte-mineiras, mas mineiras mesmo), uma editora que lance livros de gente que está ao nosso lado, sem condições, e uma gravadora que revele não as coisas da terra, mas as coisas aqui feitas.
Existe até mesmo um primeiro CD pronto, gravação histórica do Sérgio Sampaio, aquele do “Eu quero é botar meu bloco na rua...”
Mas a coisa não é fácil não, como diz Reinaldo Corby.
Hoje levantei para escrever sobre o amor.
Ou melhor, para revisar o que escrevi sobre o amor
Sobre você, minha companheira, que como uma planta teimosa cresce cada dia, e se enrosca no meu único tronco.
Hoje era para publicar algo sobre o nosso amor, escrito há uns três, quatro meses, e colocado na pasta Pessoal&Intranferivel.
Pois vai ficar lá mais um tempo, pois ainda está imperfeito.
Pergunta João Rosa em Tutaméia: amar é querer se unir a uma pessoa futura, única, a mesma do passado?
Parece estranho o ensinamento, mas por quê não?
Venho cheirando a minha entidade favorita, mas ela não fala nada nas noites sem sono.
Só Rafael, com suas visitas aos espíritos, pode nos responder mais sobre isso.
Ensinou Rosa em Grande Sertão: Veredas - quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.
Lya Luft revela que, além disso, a tranqüilidade dos sábios não é tão fácil.
Não queria ser sábio. Na verdade, nem sou.
Quero só a tranqüilidade do maluco beleza Raul Seixas que colocou num papel: o pouco-a-pouco é um porto seguro.
A bênção, dona Maria!
E obrigado por tudo.
Principalmente pela proteção.

O temário das lembranças fala, mas falha, falta

A gente sabe que está ficando velho quando começa um texto: “eu sou do tempo do….” Pronto, falei!
Acho que isso me passou por causa de uma incumbência que o João Rodrigues me passou. Voltei no tempo passado e continuei no atual ao mesmo tempo em que o tempo passava. Agora, vamos em frente.
Como eu dizia, eu sou do tempo em que as crianças não tinham opção por religião. Tinham que fazer curso de catecismo, confessar aos sábados e ir à missa aos domingos, comungar (em jejum de cinco horas) e seguirem católicas.
Eu quase fui para o seminário, iludido que poderia ter poderes sobrenaturais. Não fui santo. Nem sou. Um crente descrente, talvez. Ateu que acredita em Deus. Mas isso não era um problema. Haviam outros…
Por exemplo, um dos grandes problemas era encarar uma confissão e dizer que fez ‘aquilo’ no banheiro. Ou, pior, que participou de um festival de punheta no fundo da casa do Arthur Tutuca Ramos, na Praça Portugal. E não ganhou o primeiro lugar.
Quem papava sempre o premio era o Carlinhos Rebucetê, que via o futuro com a palma da mão. Ele, como Gravatinha, que veio depois para a turma da Igreja do Rosário (Ico, Tutuca, Paulo Bobão, Marciram, Taninha, Rebucetê, Miguel, Gualter, entre tantos), acreditava piamente em seres do outro mundo - sejam ET’s ou fantasmas. Morreu de medo.
Essa coisa, a morte pelo medo, ficou em minha cabeça muito tempo. Alguma coisa transando entre os neurônios, umas joiazinhas de iluminação.
Rebucetê foi o primeiro amigo que vi morto, no caixão, esticado, durinho e frio (dizia Taninha, pois nunca peguei num morto). Aquele velório triste, onde não havia cruz, nem oração, nem recebeu a visita do padre. Ele havia se enforcado.
Um poeta, não só pelo que fazia com as mãos, mas pelo que nos transmitia com suas idéias e viagens cósmicas. Em sua carta de despedida, disse que morria por não conhecer os mistérios da vida e ter medo dos fantasmas que nos habitam.
Também tenho meus medos. Por exemplo, nunca encontrei com um ET. Se desse de cara com um, não sei se seria abusado ou abusaria.
Fantasmas, estes vivem a me rondar - ou a ronronar. Passam, me olham, acham que vão perder tempo comigo, e cascam fora.
Uma vez escrevi para um amigo que havia partido, Edson. Ele estava numa depressão brava, não sei se foi embora por querer ou não. Tomou uns remédios, depois de beber umas. Partiu, simplesmente, não sei pra onde... Não deixou carta, bilhete, nem nada. Talvez, ainda pensasse em acordar dia seguinte. Acordou morto.
No poema que lembrei dele. Melhor, fiz para ele. Dizia que se quisesse me encontrar, não chegasse de uma vez. ‘Não, eu não gostaria de acordar a noite/ e te encontrar feito um fantasma/ a vagar pela casa./ Talvez, quem sabe,/ fosse melhor te encontrar de relance,/ te ver num bar - e não ver,/ coçar os olhos na esquina/ e você se perder na multidão’.
Às vezes, agradeço a Deus por que talvez seja esse modo pelo qual meu medo se redime e eu não me perco.
A turma do Igreja do Rosário era tão unida como o anjo de Georgino Jorge de Souza Junior, Orinella, que não conheci mas escutei casos que, segura a ponta da mesa e mastiga as sílabas em sua língua.
As calças curtas, a rua de paralelepípedos como campo de futebol, a igreja em construção, a turma do Marquinhos, perto do rio Vieira, o campinho pra lá da casa de Carlão, aonde a gente ia passando por uma pinguela sobre o rio, para jogar futebol. Os filhos do José Mário enxertavam nosso time. Que nem sempre vencia.
Às vezes, a gente retroverte no tempo, lembra até do pé de Pitomba, que nascera com Montes Claros na Rua Gonçalves Figueira. Cadê ele? Deve ter sido derrubado.
Por ali, descendo a Gonçalves Figueira, passávamos pela casa do Teixeira Bastos, atravessávamos a ponte do Vieira, tentávamos roubar umas uvas no ‘sitio’ de Antonio Narciso Soares, para depois ir nadar no Pai João. Ainda que infestado de esquistossomose, era ali, naquela piscina natural, que a gente ficava mais alegre do que nas piscinas da Praça de Esportes.
O Vieira também era limpo, a partir de certa altura, no Melo. Tinha poços ótimos. Lembro-me muito da Lajinha, hoje sepultado e selado.
Era um mundo diferente aquele, na década de 1960.
Se a gente se comportasse bem, aos domingos, no Bar Sibéria, na esquina da Dr. Veloso, em frente ao Clube Montes Claros, “sêo” Novaeszinho me dava uma “Caçulinha”, ou guaraná R&C. Às vezes, levava para almoçar no Restaurante Mangueira, na Dr. Santos. Às quintas, porém, tinha encontro marcado com o pai, para tomar a canja de galinha no Mangueirinha, na Afonso Pena com Padre Augusto. Ele tomava sua Brahma e uma pinguinha. Eu, uma Grapette.
No Intermezzo, só fui quando cresci mais e já existia o Espeto de Ouro, ao lado da nossa casa da Dr. Veloso. No Valério, era só em ocasiões especiais. Como quando mãe ganhou um concurso do A.R. A comemoração foi lá.
Mas quando sobrava um dinheirinho da mesada, eu ia mesmo era pro bar e sorveteria Cambuy, em frente ao Cine e Teatro Fátima. Ali me maravilhava com frutas só vistas quando ia a Belo Horizonte. Tinham doces, queijos, presuntos, nozes, castanhas. Meu sonho de consumo naquela época.
Naquele tempo, tínhamos relíquias como Tuia, Parsival de Almeida, Ateneu e Casimiro de Abreu.
Tínhamos os dribles de Manoelito, Manoelzinho, Chinesinho, Jomar e Bispo.
Tínhamos Mané Nunes (Quatrocentos), Sabú, Mundinho Atleta e sessões de cinema no Coronel Ribeiro, São Luiz, Ypiranga ou Fátima.
Foi ali que assisti Yul Brinner e Gina Lolobrigida em ‘Salomão e a Rainha de Sabá’, e Ben Hur, com Charlton Heston. Quando passou Macunaíma, não consegui entrar no São Luiz nem no Coronel Ribeiro. Era barrado pelo Comissário de Menores Zé Idálio. Assisti no Ypiranga, pois ali ele não ia. Depois, consegui gravá-lo numa fita de vídeo e, vez por outra, volto a deliciar-me com Paulo José e Grande Otelo no papel deste anti-herói (?) nacional. O Cine Montes Claros que conhecemos, chegou depois, com som saindo de todas suas paredes.
Pai comprou seu primeiro fusca na Somar, na Carlos Gomes. Foi Tio Geraldo quem estava com a gente quando fomos buscá-lo. Tio dirigiu até os Santos Reis, deu a direção pro meu pai e ele trouxe de volta. Mais nunca largou. Aprendeu assim, num estalo. Rays apelidou o carrinho de ‘calça Lee’, pois descorou com ciúmes do outro fusca mais azul que pai comprou, anos depois.
Dos onze anos estudados no São José, além dos amigos todos que repartem ainda hoje meu coração, ficou a música particular ensinada pelo irmão Jaime Damião:
Frere Jacque, Frere Jacque/
Doure vous, Doure vous/
Solere Martine, solere Martine/
Dim, dim, dom/
Dim, dim, dom. Também, as idas até a escola de datilografia do pai do Luciano Meira, a Remington Rand, para ver se aprendia alguma coisa. Aprendi mesmo com uma Olivetti lá me casa, e até hoje uso somente os dois dedos para digitar ou datilografar.
O temário das lembranças fala, mas falha, falta. Nosso mundo não era tão grande.
Nosso mundo era bem pequeno.
Nosso mundo era nosso.
Não tenho bola de cristal.
Apenas ouço o Tino - tenho pena de nós dois.
Mas é por isso que todos vivem assim.

Porém com todo respeito, te carrego no meu peito

Tive um sonho, dia destes, com o Chico Buarque de Holanda. Não, não foi o sonho medonho desses que às vezes a gente sonha e baba na fronha e se urina todo e quer sufocar. Foi um sonho maneiro, mineiro, calmo, tranquilo, destes que a gente sobe a construção como se fosse sólido e ergue no patamar quatro paredes mágicas, tijolo com tijolo num desenho ilógico.
Não sei por que cargas d’água – sonho a gente respeita – Chico fez um show numa cidade do Norte de Minas e fui assistir. Liguei pro Chorró, fã condicional do compositor (não se esquecendo que ‘todo compositor brasileiro é um complexado’, como ensinou Tomzé). Nos encontramos ao lado da pensão que Chico estava hospedado com seus músicos. Pensão? Parecia a Pensão Nossa Senhora Aparecida, que existiu certa vez na Avenida do Comércio, em Janaúba. Mas a cidade não era a gorutubana, embora aquele pedaço lembrasse o Buraco de Amélia. Tentei que Inês fosse – ela estava numa roda de pagode – mas preferiu pagodear. Chorró levou Margareth.
Nos encostamos a um muro, em frente ao jardim da pensão, e ficamos curtindo ele lá, cantando. Se lembra quando toda modinha falava de amor/ pois nunca mais cantei, oh maninha/ Depois que ele chegou...
Como todo sonho deixa seus saltos, seus brancos (e até seus negros), e nem sempre a gente sabe como eles vem ou vão, já estávamos os três na sala de estar da pensãozinha, que agora parecia o hotel da mãe do Noriel Cohen, na rua Dr. Santos, em frente ao Bar do João e do Prontocor. Conseguimos falar com Chico, a quem chamei de “Seo” Francisco, com toda pompa e circunstância da música clássica que me vinha aos ouvidos naquela hora. E, ao invés do Chorró se derreter em lágrimas emotivas, isto aconteceu comigo. Chorei copiosamente quando Chico me abraçou. Gosto do Chico, de tudo que foi e é o Chico, de tudo que nos ensinou o Chico, mas sou fã do Caetano. E do Tino. Mas naquela hora, além de lágrimas, suas músicas tiritaram em minha cabeça. Da primeira, a Banda, que me levou aos tempos de minha mãe e tia Edi, mãe da Tereza Cristina, Márcio Hiram, Bete e Marcelo. Elas cantarolavam-na enquanto cozinhavam. Ou fritavam um bife. Acebolado.
Acordei com o verso ‘A minha gente sofrida’. Acordei com minha gente sofrida na cabeça. Essa gente sofrida que pede esmola na esquina, que morre na contramão atrapalhando o sábado, que não sabe amar, que vive por viver sem saber o por que. São as Sônias, Lucianas, Valdir; Cândidas, Lourdes, Felipe; Homeros, Rossinis, Terezinha; Mirim, Vanderley, Fatinhas; Lucias, Romanas, Waldomiro. São tantas pessoas.
Montes Claros está cheia de gente sofrida. Basta ler algumas páginas dos jornais. Pare nas páginas de Polícia e Sociedade. Morte, depressão, violência, gente sem vida. Nego humilhado, morto-vivo, flagelado. E não é sonho.
Da janela na copa das árvores vejo o dia envelhecer cinza, envolto num véu de bruma, dando tapinhas nas costas das casas, que respondem acenando luzes nas janelas. E a noite vai caindo lenta e jovem. É a hora mais linda e triste dessa minha terra, o lusco-fusco, a hora do Ângelus. Me lembro de um amigo meu, que não vale citar o nome, me perguntando se já fumei maconha. Ele conta que fumou a primeira vez e não sentiu nada. Sua noiva lhe perguntava, a toda hora: cadê o tapa? Cadê o tapa? E ele, com aquela cara engraçada, olhando para ela, rindo... Que tapa?
Outro, João, na época em que trabalhei na Transit, 1975, teve dois processos na polícia. Um como comunista. Outro como facista. Ele jogava mesmo os pobres contra os ricos. Chegava numa cidade, Varzelândia, Várzea da Palma, Cachoeirinha, fundava logo um clube para as pessoas mais humildes e pobres com tudo que o clube dos ricos tinha. Numa destas cidades aí, teve que sair de noite, escondido na boléia de um caminhão. Não sei hoje onde se encontra o João, que morava na Avenida Cula Mangabeira. Se apenas militou, se apenas o militaram. João sumiu, e pode nem estar mais neste reino da terra. Nem recebeu uma moda de viola ou virou folclore. Esqueceram dele. Estes militares...
Assisti uma vez uma senhora da sociedade nossa procurar um pastor e, para agradecer uma cura através de bênção, arrancar brincos, anéis, pulseiras e deixar tudo para a igreja. Eu nunca vi tanto dinheiro como tinha aquele pastor, que também era vereador e relojoeiro. Ele mandava pro banco o dinheiro em caixas de sapato. Tenho idéia de fazer um livro sobre este dublê de pastor e político. Era uma figura interessantíssima, amiga dos ricos.
Meus tios Eudipson, Euderson, Eunilson, Euridson, Duque, Oraide, Eulidson e Geraldo, foram embora da terra montes-clarina. Pai, Novaes Novo, ou Novaeszinho, foi o único a ficar, a ser enterrado junto com meu avô, João, o Novaes Velho. Angélica mora hoje no cemitério do Bonfim de Belo Horizonte, junto com Oraide, ali enterrada há um mês. João, no Bonfim de Montes Claros. Devem ter se encontrado no infinito eterno. Já pai e mãe ficaram juntos com o Rays. Muito da saída de meus tios das terras montes-clarinas veio do que aconteceu com João nos anos 1930. Principalmente num cemitério da cidade, a mando de Dona Tiburtina.
Tio Messias, que não entrou na cota dos tios anteriores – assim como tio Francisco – era otimista com relação às pessoas. Achava-as sensíveis à verdade. Se existia um dramão, ele discutia, resolvia. Pelo menos aparentemente. Para ele, se as coisas ficarem fechadas não entra ar, não tem possibilidades, não há o ponto-chave. Tem gente que fala tão mal da vida dos outros que dá até íngua.
E as tem as pessoas da cidade. Você já teve a curiosidade de conversar com elas? Por exemplo, Luzia. Diz: “lá no meu bairro tá faltando água. Lá em casa vai água duas vezes por semana. Ai, como eu fiquei velha depressa aqui em Montescraro. Nossa Senhora! Quando eu vim de minha terra era uma menina!” Já Antônio: “não acha um absurdo uma pessoa vir desse interiorzão pra se tratar em Montescraro? Sabe o que tenho mais medo? É procurar um ponto-socorro porque nem todo ponto-socorro atende a pessoa na hora. É difícil. Eu tenho visto aí a gente paga isso aquilo, precisa ir ao ponto-socorro tal e quando chega lá o filho tá morto”.
Marilda: “você escreve muito, é? Qual a linha que adota para escrever? No meu caso estou na linha do realismo fantástico. Será que a gente tem que se preocupar em ficar dentro de uma linha? Acho que não. Acho que a gente tem que escrever escrever escrever até com certa humildade para ver qual a linha final”. Helena: “No momento eu me sinto mal em Montescraro. Nos últimos anos, esta cidade se transformou numa cidade completamente ressecada, desumanizada. Pra gente não se estender muito sobre isso, vou te dar um exemplo que acho contraditório, desumano. Eu sou uma pessoa que gosta muito de música. Desde que me conheço. E hoje isso é um fenômeno massacrante. Tem a cidade invadida pela música de uma maneira insuportável, utilitária, e onde ninguém mais presta atenção a ela. Carro de som nos barzinhos, bicicleta de som pelas ruas, o som das casas de discos... Isso neutraliza completamente aquilo que a música pode significar para o homem”.
Jorge: “você já fumou maconha? Eu fumei uma vez mas no senti nada”. Seu Zé: “não gosto desta cidade, se eu pudesse voltava pro campo. Lugar de sossego pra criar família honesta é o campo. Aqui há coisa que não serve pra uma família assistir. Não conto com um filho honesto. Conto com um ladrão um perdido que não aprende nada. Só malandria”. Mauro: “Aqui, sábado e domingo, cai tudo na safadeza. Já foi no (...)? Vai todo mundo. Bicha, mulher, safado. A gente baixa lá pra sentir aquele treco. Agora, quem tem dinheiro vai pra boates. Meu derivativo é pinga e mulher. Tem outra coisa, gostei de uma menina. Não casei. Medo de chifre. Das safadezas. A maldade é muito grande. Fiquei sem vergonha mesmo. Ela sai com todo mundo. E come comigo”.
Lembra de Tom Zé? Aquele, de ‘todo compositor brasileiro é um complexado’? Pois é dele também o verso
‘Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito’

Ela é alguma coisa no caminho, ela sabe

Era um bordel nublado por cigarros e poeira da rua sem asfalto, que cruzava com a Melo Viana. Correia Machado?, pergunta alguém. A janela dava para o quintal daquela casa de encontros onde homens sentavam em mesas antigas, algumas quebradas. Pelas mesas passavam velhas raparigas como o tempo e novas meninas com tempo.
Naquele quintal tinha um pé de goiaba, talvez das brancas, talvez das vermelhas, não dava para se saber qual. Nunca ganhou uma, nunca pediu à dona daquela casa suspeita, embora, nas raras vezes que chegou a janela, viu algumas bonitas, grandes, que enchiam sua boca d’água. Chegava a falar oi com a dona, que tinha uma bunda medonha e uma cara de sonsa. Só a cara.
Abria-se pouco aquela janela da casa. Talvez para não enxergar naquele espaço - que deveria ser o bar do bordel -, homens e mulheres fazendo safadeza. Conhecia algumas das moças. Tinha Iaiá, procurada durante o dia para derrubar vermes de criança, praguejar bicheira, benzer verruga naquele espaço de cidade. Tinha Anita, que gostava de uma trepada e, por tanto gostar, foi parar ali, tão logo passou a lua de mel e ver que o marido não agüentaria seu fogo. Tinha Juve que gostava de ir ao botequim com um vestido de cetim, um pouco solto na cintura e sem roupa de baixo...
Perto dali uns cem metros mal medidos, ficava um botequim, onde os filhos de dona Linda ganhavam a vida. Não tão limpo, não tão sujo, um botequim. No canto, sempre havia um bêbado (Luiz Gastabala?) que rabiscava versos num papel antigo (Rafael?), daqueles de embrulhar carne.
A Melo Viana (Melviana para alguns) ganhou este nome, dizem os historiadores de plantão – e como a cidade os tem -, porque por ali fugiu o então vice-presidente da República, Fernando de Melo Viana, naquele seis de fevereiro de 1930, escapando dos tiros de Dona Tiburtina, João Alves e da tropa.
Para Marquinhos 98 aquele espaço era o paraíso. Marquinhos ganhou o apelido por ser o carnavalesco do Grêmio Recreativo Escola de Samba Destak – e, dizem, se parecer com Joãozinho 30. Consertava nas horas vagas, sofás e hoje aluga DVDs. Segue a vida como o Cônsul Geral do Reino dos Países Baixos dos Morrinhos de Nosso Senhor do Bonfim de Dona Germana.
Para Leya Bloodymary aquilo era o submundo romântico de Montes Claros por onde, vez ou outra passava a caminho da Ladeira Cônego Quirino. Ali perto existiam muitas casas de encontro, algumas melhores, algumas piores, apenas casas de encontro com suas mulheres cansadas, de olhar morto durante o dia, mas que estavam pintadas e putas à noite. Prontas para fazer o que tinha que ser feito.
Naquele Reino dos Países Baixos tinha sacanagem, malícia, putaria. Isto sempre atraiu Leya Bloodymary. Faltava só um show de Kurt Weill. Aquele pedaço de terra de Montes Claros era o lugar de encarar temporais e enfrentar marginais, brigar em bares e saquear corações. E Leya sabia fazer isto muito bem.
No bar da mãe de Marquinhos 98, o Destak, aquele pontinho preto no mapa da cidade, estavam aqueles de vida errante, entregues a qualquer paixão, à deriva dos sonhos prometidos. Ali se podia marcar encontro com o pecador confesso, o clandestino moderado, o traficante sem medo.
Ou com o herói do botequim, que roubava flores no jardim da solidão para oferecer à namorada de um amigo velho – ou novo, não importava nem mesmo se fosse amigo. Mesmo aquele que conhecera ali naquele instante que parecia perdido no local e estava com a mulher ao lado, a mulher que é de seus sonhos naquele momento em que a bebida faz a razão se encontrar com a rota das sereias, as iaras que cantam em nossos rios. É imoral, indecente, fuma demais, bebe demais, ouve Maisa demais. Mas sempre oferecia uma flor – de preferência, uma rosa – àquela que seu coração mandasse. Quem diria que somos limpos e sem defeitos, a imagem e semelhança de Deus?
Ali era o paraíso dos compositores desgarrados e dos poetas malditos. E os começos, meios e fim! Aquele pedaço da cidade era cheio de xavequeiros, vagabundos elegantes, canalhas românticos, do boêmio trovador, e daquele de cabelo calculadamente desarrumado, o michê. Era ali que Leya Bloodymary amava ficar. Era ali que gostava de viver. Leya, último de uma linhagem de heróis da cidade, que tinha até o busto do avô na pracinha. Fica cada vez mais claro que o tempo presente e o tempo passado talvez estejam ambos presentes no tempo futuro, como achava T.S.Eliot.

O sertão de Cícero Billie Joe

Escutando novamente o CD do amigo velho Cícero Billie Alves (Volume III – Os Originais não se Desoriginalizam) pode-se comprovar que o velho roqueiro não perdeu a ternura, mesmo rolando por pedras tão estranhas, como estas que se encontram nas areias do Rio Gorutuba.
Afinal de contas, e posso falar de cadeira, o Vale do Gorutuba - que faz parte do Vale do Verde Grande – oferece sotaques, costumes e manifestações artísticas das mais diversas, o que o transforma o lugar em um grande caldeirão efervescente de cultura.
Rapidamente podemos lembrar além da diversidade de Cícero, dos magistrais Beija Flor, com sua tessitura narrativa, mostradas em canções com ‘Gameleira‘ e ‘A Bala de Ouro’ (esta gravada com Téo Azevedo), Carlito com seu canto renascentista, revelador e tristonho, mostrando as auguras do rio e do povo, do trio Canto Livre formado por Bha, Delvi e Tino, de Beira Mar, Jackson Antunes, Paulinho Pintor, Zé Mineiro, Gio e Géo, Decão e tantos mais.
Está faltando realizar-se em Janaúba um Fórum Cultural, o que serviria para afirmar o valor da arte independente e espontânea que nasce nas ruas e vielas da cidade, buscando mais ainda o que existe nos guetos do vale. Pode ser uma valiosa ferramenta para o desenvolvimento cultural desta região norte-mineira, incentivando o resgate de identidades culturais. Mas isto é problema para o Arnaldo Pereira resolver pro ano. O nosso...
O nosso é falar da batida agressiva do rock‘n‘roll do Billie Alves, que se mistura ao forró pé-de-serra e a música caipira dos brejos. Para ele, a inspiração é a mesma. Com vários discos independentes – um, de forró, não lançado comercialmente –, sua arte começa a cair no gosto dos formadores de opinião, embora seja um dos maiores vendedores individuais de CDs independentes desse norte-mineiro. Só com seu primeiro CD, ele tirou quatro edições. Menino levado das barrancas do Gorutuba, acostumado com estiagens e enchentes do córrego-rio, colocou debaixo do braço o álbum e caiu no bengo. Vendeu, gastou, fez outros... Divertiu-se o moleque Billie muito mais em cima do palco, do que nós apreciando suas músicas na platéia. Ou o contrário... Sei que todos se divertem.
Cícero Billie Alves é um caso paradigmático, poeta da prosa, e um místico personagem do Vale que vai encantando e espantando a todos com suas formas narrativas. Elas extrapolam a mera classificação de música. Este CD, por exemplo, mistura recursos eletrônicos a uma base instrumental executada com competência, sem jamais perder a melodia de vista. Nele tem experimentação, baladas com belos vocais e rock do bom. Mas o moleque Billie é assim: capaz de ir a um evento em Belo Horizonte ou Almenara, levando na bolsa seu CD independente para distribuir. E assim a vida segue.
Afinado e cheio de estilos, ele interpreta suas canções - como Canção do Sofrê, a mais conhecida, mas nem por isso uma das melhores - atraindo os bons espíritos. E cria um universo no sertão em nossa cabeça, com narrativas e histórias naquela literatura sertaneja. O sertão que Billie - apelido que ganhou por causa de suas interpretações rockianas -, constrói, não se alimenta dos livros que leu, nem de um conhecimento prévio da vida do interior. É ligado às memórias da infância. É ligado ao momento atual. Ele sempre viveu como um morador do campo. Se ela, a inspiração, vem em ritmo mais quente do rock, mais critico do blues ou mais terno, da nossa música sertaneja, não tem problema. Ele vê nossa terra como poeta, da poesia das paisagens e lugares.
Só falta mesmo penetrar na alma de seus personagens.
Mais ainda...

O sertão de Cícero Billie Joe

Escutando novamente o CD do amigo velho Cícero Billie Alves (Volume III – Os Originais não se Desoriginalizam) pode-se comprovar que o velho roqueiro não perdeu a ternura, mesmo rolando por pedras tão estranhas, como estas que se encontram nas areias do Rio Gorutuba.
Afinal de contas, e posso falar de cadeira, o Vale do Gorutuba - que faz parte do Vale do Verde Grande – oferece sotaques, costumes e manifestações artísticas das mais diversas, o que o transforma o lugar em um grande caldeirão efervescente de cultura.
Rapidamente podemos lembrar além da diversidade de Cícero, dos magistrais Beija Flor, com sua tessitura narrativa, mostradas em canções com ‘Gameleira‘ e ‘A Bala de Ouro’ (esta gravada com Téo Azevedo), Carlito com seu canto renascentista, revelador e tristonho, mostrando as auguras do rio e do povo, do trio Canto Livre formado por Bha, Delvi e Tino, de Beira Mar, Jackson Antunes, Paulinho Pintor, Zé Mineiro, Gio e Géo, Decão e tantos mais.
Está faltando realizar-se em Janaúba um Fórum Cultural, o que serviria para afirmar o valor da arte independente e espontânea que nasce nas ruas e vielas da cidade, buscando mais ainda o que existe nos guetos do vale. Pode ser uma valiosa ferramenta para o desenvolvimento cultural desta região norte-mineira, incentivando o resgate de identidades culturais. Mas isto é problema para o Arnaldo Pereira resolver pro ano. O nosso...
O nosso é falar da batida agressiva do rock‘n‘roll do Billie Alves, que se mistura ao forró pé-de-serra e a música caipira dos brejos. Para ele, a inspiração é a mesma. Com vários discos independentes – um, de forró, não lançado comercialmente –, sua arte começa a cair no gosto dos formadores de opinião, embora seja um dos maiores vendedores individuais de CDs independentes desse norte-mineiro. Só com seu primeiro CD, ele tirou quatro edições. Menino levado das barrancas do Gorutuba, acostumado com estiagens e enchentes do córrego-rio, colocou debaixo do braço o álbum e caiu no bengo. Vendeu, gastou, fez outros... Divertiu-se o moleque Billie muito mais em cima do palco, do que nós apreciando suas músicas na platéia. Ou o contrário... Sei que todos se divertem.
Cícero Billie Alves é um caso paradigmático, poeta da prosa, e um místico personagem do Vale que vai encantando e espantando a todos com suas formas narrativas. Elas extrapolam a mera classificação de música. Este CD, por exemplo, mistura recursos eletrônicos a uma base instrumental executada com competência, sem jamais perder a melodia de vista. Nele tem experimentação, baladas com belos vocais e rock do bom. Mas o moleque Billie é assim: capaz de ir a um evento em Belo Horizonte ou Almenara, levando na bolsa seu CD independente para distribuir. E assim a vida segue.
Afinado e cheio de estilos, ele interpreta suas canções - como Canção do Sofrê, a mais conhecida, mas nem por isso uma das melhores - atraindo os bons espíritos. E cria um universo no sertão em nossa cabeça, com narrativas e histórias naquela literatura sertaneja. O sertão que Billie - apelido que ganhou por causa de suas interpretações rockianas -, constrói, não se alimenta dos livros que leu, nem de um conhecimento prévio da vida do interior. É ligado às memórias da infância. É ligado ao momento atual. Ele sempre viveu como um morador do campo. Se ela, a inspiração, vem em ritmo mais quente do rock, mais critico do blues ou mais terno, da nossa música sertaneja, não tem problema. Ele vê nossa terra como poeta, da poesia das paisagens e lugares.
Só falta mesmo penetrar na alma de seus personagens.
Mais ainda...