domingo, 21 de novembro de 2010

Ashuashuashuashuashuashu!

Janaúba não muda. Mudam Janaúba. Passa dia, passa ano, passa século. E olha que nem um século ela tem! Janaúba está sempre sob os ventos!
Eles, que chegam em abril, continuam a bater em nosso rosto neste agosto. O vento no ermo a todos concerne, lembra João Rosa em Tutaméia. Tudo o que vemos é por uma básica ilusão de óptica, responde em Estas Estórias. Mas na hora que o vento bate no cabelo da gorutubana, ele faz dela uma ave solta, voando, soltando as penas, deixando-a vistosa, feito flor de açucena.
Minha filha Brisa virou moça de repente. Gorutubana, bonita, 16 anos. Linda! E eu nem a vi crescer como queria. A vida nunca é onde, lembra Rosa. Hoje, sigo o crescimento da Victória (Totóia) e do Júnior (Juca), e alimento o amor de todos. Mas como é difícil educar filhos nestes tempos de cibernética, aritmética, pessoas sem ética. Mô sabe como! A primeira, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes, ensina Rosa.
Ando pelas ruas da Gorutuba de antigamente, presente só em minha cabeça. Ela desapareceu de repente, num clarão, num trovão, num relâmpago. Janaúba mudou. Ganhou ar de metrópole. A filha pequena de Montes Claros quer dar seu grito de independência. Janaúba não é uma cidade urbana. É de forasteiros. Os mesmos que chegaram, foram afastando os antigos, empurrando-os com a barriga.
Hoje, já não existem mais cavalos amarrados no tronco do Beco da Morte, no começo da Belo Horizonte. Aliás, nem tronco há mais! E nem chamam de Beco da Morte.
Hoje ainda se fala do monstro da barragem, que virou bloco de carnaval: Bixo da Barragem. Olha só! Mas, na lua cheia, não aparece mais o lobisomem. Não há mais a mula-sem-cabeça, que soltava fogo pelo pescoço, e assustava as donzelas das antigas. Aliás, há donzelas em Janaúba? Há, é claro!
Não há mais é a gameleira, que deu nome à cidade, e que, entre suas folhagens, os demônios, mais negros do que a noite negra, vinham às sextas-feiras da quaresma fazer planos para tentarem os que viviam na graça de Deus.
Até hoje corre como certo que foi debaixo da gameleira que Mendes Lourenço, quando vaqueiro de Antônio Ramalhudo, deu sua alma ao diabo para ajudar a ele ser o maior criador das caatingas. Também era ali que João Faustino, depois que matou o padre Vitório, vinha, toda sexta-feira da quaresma, de São José do Gorutuba, para virar lobisomem. Tudo acontecia debaixo da gameleira. Nem São José do Gorutuba foi pra frente, com a lavagem do sangue de Padre Vitório pelas águas do Bico da Pedra. Nem a gameleira vingou. E Ana Rosa? Ah! Ana Rosa, a mulher do padre, foi esquecida pelas novas gerações...
As ruas de Janaúba já não são as mesmas. Os bairros mudaram. O Padre Eustáquio continua ali, do outro lado da linha de trem de ferro. Não saiu do lugar, pois não tinha rodinhas. Lá ainda aparecem, vez por outra, um gorutubano, daqueles, do pé rachado. Mas só vez por outra, já que estão lá pros Barbosas da vida. Êta povo! Êta vida! Êta, Donatão! A vida é morte ou dinheiro...
No meu tempo, e foram apenas 20 anos atrás, todas as pessoas se conheciam em Janaúba. E se cumprimentavam, gostassem ou não umas das outras. Foi um tempo curto o meu lá, nove anos, mas ficou eterno.
Lá tinham duas facções políticas: os Timbós, e os Fariseus. Mas como a vida da gente nunca tem termo real, a política da cidade do meu coração seguiu seus passos. Também se tornou irreal.
É bom andar pelas ruas de Janaúba. Descer a asfaltada e moderna – dizem que inspirada numa ruela de cidade francesa – Avenida do Comércio, virar na nova praça do Banco do Nordeste, descer a Francisco Sá ou subir a Brasil.
Vejo as gorutubanas, tão poucas. Com suas pernas grossas, bunda arredondada. Negras, algumas mais claras, outras mais escuras. Pois o Quilombo do Gorutuba já se foi há muito tempo.
De noite elas se misturam com o verde escuro da mata, ficam ainda mais bonitas com a luz do luar de prata. Cantam, e como dançam, as negras do Gorutuba. Nadam no rio que já foi Kuruatuba. Hoje, um filete de água... Coisas que nem o coração explica.
Comer um churrasco em Janaúba é simples. Na Francisco Sá, transformaram a antiga pizzaria do Beto, que tinha nos fundos o Luiz Caldos, numa bela churrascaria. Se bem que eu prefiro ir comer lá em Dé, na Avenida Manoel Athayde. Um restaurante gostoso ao lado do cemitério. Da Saudade! Onde se acha uma paçoca divina. E, já que esta ao lado do cemitério, a gente vai deslembrando os nomes. O fantasma mora ao lado... Batemos papo com eles, bebemos com eles. Coisa da vida, como diria meu pai...
Estou aqui, querendo rever amigos novos e antigos. Parece música. São só duas, três horas, que passo nos gorutubas da vida, a maioria delas (tantas) em reunião. Mas é gostoso sentir a presença deles. Raul, Zé Dias, Arnaldo, Jedir... Américo, Oliveira, Antonio Augusto, Fernando Lucas... E o rio!
As lavadeiras do Gorutuba, todas gorutubanas do pé rachado, continuam lá, com os seios de fora. Lavando a roupa para os patrões. Para viver! Elas são cirandeiras à beira do rio, o braço escravo. É Janaúba sem mim, é Janaúba sem mar, nas ondas do ar... Quanto tempo vivi aqui, como amo esta cidade, meu Deus do céu! Que paixão estranha esta! Talvez tenha sido minha grande paixão, meu grande amor, até encontrar o amor verdadeiro, que está ao meu lado.
Fico a lembrar aqui, vendo estas lavadeiras do rio Gorutuba, como a vida passa ligeiro, como as águas do rio. Como os anos voam. E não é pelas asas da Panair.
Estou muito feliz aqui hoje. Tanto tempo que não vejo minha Janaúba amada. Tanto tempo que não sei quanto. Cadê Pinduca, Zé Tomé, José Dias e Seu Raul? Cadê esse povo? Cadê Jedir, cadê Zezinho Pereira e seu pé de caju, o único que já vi dar frutos vermelhos e amarelos. Ele plantou um junto com o outro. Os dois parecem um.
Cadê vocês, ó mãe de Deus?
Cadê o trem que me trouxe aqui, tantas vezes? Cadê os amigos andando serelepes pelas ruas, perguntando por que eu sumi...? Acho que foi na ânsia de invadir seu peito assim, cidade minha, de qualquer jeito, que acabei machucando meu coração. Mas ele sabe que o sofrimento, por amor a uma cidade, não é tormento. É só paixão. Ai! É só paixão. É só desejo.
Estou aqui, leve e solto, voado nestes gorutubas de minha vida.
Ai! Hoje eu vou tomar uma cachaça no bar do Dé. Ao lado do cemitério. Com Porretinha, Arnaldo Pereira e Zé Dias. Se eles não tiverem, tomo uma pro santo, já que estou ao lado do cemitério da Saudade. Quantas saudades de quantos que ali estão. Conforme o vento que bate ao pé da planta, a gente pega e canta, a gente quer cantar.
Desanuviei! Essa cidade é linda, e é dos negros, Victoria e Júnior.
Embora os brancos, quase todos forasteiros, como eu, cismem de tomar conta dela.
Vou mostrar pra vocês, meus filhos, a praia do Copo Sujo, as piscinas do Barreiro da Raiz. Vou mostrar os recantos da Terra do Benvirá, que tanto cantou Geraldo Vandré. E nem a conheceu!
Vou apresentar a vocês aos negros que moram no Barbosas, e cuja terra, Janaúba, era deles. Foram expulsos. Para quê? Para esse tal de progresso?
Não, para que tomem seu dinheiro, roubem sua terra, sua cultura. E, ao invés de guardar e mostrar pra todos essa cultura, a escondem, bem escondido, lá no Inferninho, que ganhou o nome de Novo Paraíso. Nem para isso, dar nome aos bois, serviram.
São apenas forasteiros
Estou a viajar por mim mesmo. Sinto seu cheiro, embora nem conheça o seu cheiro. Mas ele vem nos ventos de abril, de maio, junho, julho e agosto, que batem em meu rosto.
“Sou poeta menor, perdoai”, escreveu Manoel Bandeira. Longe dele o alto diapasão do anglo-americano T. S. Eliot, por exemplo, um dos grandes poetas do século passado, autor de versos de alta densidade metafísica, enigmáticos.
“O tempo passado e o tempo presente/
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/
E o tempo futuro contido no tempo passado”.
Janaúba é pão, pão, queijo, queijo.
Viu, Mô!

O gorutubano Jackson Antunes. Ou melhor, Joaquim, meu amigo!

Passe-me teu chapéu em lua de agosto/
dá gosto te ver chegar, escreveu certa vez Almir Rosa.
Pois era assim que ele chegava em Janaúba, naqueles anos de 1980. Vinha às vezes de trem, às vezes na boléia do caminhão, sempre que podia de ônibus, da sua belorizonte distante, onde escolheu para viver. Mas gostava mesmo era de viajar de trem...
Era uma viagem um pouco tranquila, um pouco nervosa, onde caminhava para o povo que se destinou, a lua branca iluminando seu caminhar.
Café com pão/
manteiga não... A máquina a disparar, o coração a repicar que quer chegar, quer chegar, quer chegar...
Era uma viagem mágica, principalmente quando ia chegando pelo lado sul, vendo os lagos, azuis ainda, grandes ainda, do Dente Grande. Aquela maravilha de cenário.
Voltava para ver seu povo, sua família, para correr atrás da vida com Paulinho Pintor, Walmir e Aldo Pereira. Formaram um quarteto gorutubano que, no final dos anos 1960, início dos 70, começou a pintar e bordar na cidade gorutubana, depois que um circo passou e nenhuma donzela foi atrás do palhaço. Faziam peças de teatro, faziam circo, faziam as pessoas rirem, as pessoas chorarem, as pessoas viverem outras estórias.
Era Jackson Antunes, que traz Janaúba no seu peito.
Onde está, lembra do seu povo, de gorutubanos como Donato Durães, do rio Kuruatuba, do Buraco da Amélia, de Quinzim dentista, de Zé Carlos Moreira.
Foi na voz dele, declamando Patativa do Assaré, em um boteco na chamada “savassi gorutubana”, que conheci, primeiro, os lagos do Dente Grande.
Depois, lendas das terras altas e baixas.
Como a de Alfredo Mendes Lourenço, que quando vaqueiro de Antônio Ramalhudo, deu sua alma ao Diabo para ser o maior criador das caatingas. Pois Mendes Júnior encheu de gado desde a barra do Rio Verde até as cabeceiras do alto Catuny, desde o Quem-Quem até o Bonito e Mamonas, além do Brejo das Creoulas.
Gado dele não morria, não adoecia e nem apanhava bicheira.
Foi Jackson também quem me contou a história de João Faustino. Depois que assassinou o Padre Vitório, vinha toda sexta-feira de quaresma do São José do Gorutuba para virar lobisomem debaixo da gameleira do povoado que um dia ia ser Janaúba.
Tentou, com ajuda de poucos, fazer um filme sobre o Padre Vitório, na década de 1980. Não conseguiu.
Mas as lembranças das filmagens passam na frente da gente. Principalmente quando a gente senta com Quinzim, naquele boteco em frente ao seu consultório, na avenida do Comércio, comendo espetinho, bebendo uma cerveja gelada, olhando as pernas das gorutubanas que passam.
Foi Jackson quem me mostrou a mulher gorutubana e me fez apaixonar pelas suas serras, pelas suas terras, pelas suas matas, pelas suas grutas e seu rio.
Por ali, inclusive, encostei meu corpo por ali durante anos. Não para descanso, mas para aprender mais.
E como se aprende com os gorutubanos...
O gorutubano Jackson Antunes, hoje, não precisa de apresentações.
Já seus parceiros daquele quarteto gorutubano, sim: Paulinho Pintor continua em Janaúba, escrevendo suas peças teatrais, entre uma de faixa pintura e outra, entre um gole e outro, no Inferninho... Ops, Novo Paraíso! Me visitou dia destes, preocupado, mas cheio de alegria para dar, nunca para vender.
Aldo Pereira, que nasceu em Mato Verde mas aportou um bom tempo em Janaúba, veio para Montes Claros ser radialista. Aqui continua escarafunchando o teatro. As pinturas de faixas e letreiros ficaram para trás.
Walmir resolveu ser político. Hoje é prefeito de Nova Porteirinha, em cima dos seus cento e muitos quilos. Mas confessa que queria ter continuado a carreira e ser um hoje, um ator. Global, de preferência.
O ator/cantador Jackson continua com a mesma paixão pela música e pelo teatro, que veio do circo que faziam na cidadezinha de antigamente. Cheia de poeira e de um rio de praias e água dos mais bonitos. Hoje, nem tantas são as praias daquele rio antes caudaloso. Pode-se contar nos dedos. Sua areia foi levada, não pelo vento, mas para se construir Montes Claros. Parece aquela história que o Dó contava: pecar na igreja sempre foi mais gostoso.
Jackson começou por causa e no circo. Tinha mais ou menos oito anos quando um circo passou em Janaúba. Ele se apaixonou. Certamente pelo lado teatral. Naquele tempo o circo era dividido em duas partes, a parte principal que era o espetáculo normal e a segunda, reservada aos dramas, ao teatro. Hoje, isto acabou.
Os dramas vivem até hoje na cabeça de Paulinho Pintor. Ele guarda em casa os escritos das peças encenadas naquela época. E conta com orgulho como eram.
O quarteto fez dramas, comédias, viajou pelas cidades da região.
Daí, Jackson pulou fora. Resolveu ir mais longe. Primeiro, Montes Claros, onde apresentou um monólogo que fez sucessos no Centro cultural Hermes de Paula. Depois, a capital. Sempre pintando suas faixas para sobreviver. Com a chegada da televisão, o circo sofreu um esvaziamento e ele foi fazer teatro amador. E apresentando em Belo Horizonte, levou a vida, até ser descoberto numa fita demô que enviara a Globo.
Aí, começou tudo de novo.
Mas antes, voltemos lá atrás.
Nascido em Janaúba, em 28 de agosto de 1960, não conheceu seu avô, um grande aboiador que morreu no dia de seu nascimento. Criança, Jackson saía acompanhando as folias de Reis de porta em porta. Quando tinha oito anos, a família ganhou um rádio comprado pela irmã e tornou-se costume ouvir as transmissões do Programa Sertanejo Classe A, da Rádio Nacional de São Paulo, e acompanhar as interpretações de duplas como Tião Carreiro e Pardinho, Cacique & Pajé e Sulino e Marrueiro, entre outras.
Havia uma energia louca naquele rapaz.
Na época da rádio Gorutubana - e que época! –, sempre que estava na cidade ia lá, dar seus palpites, uma espiadinha, uma conversadinha, aquele bate papo gostoso.
Nossos encontros, entretanto, foram rareando, já que mudei para Montes Claros e ele, logo depois, foi estrear a novela “Renascer”, e o tempo para Janaúba diminuiu. Daí, né, foram poucas as escapadas. Uma delas, em 2009, durante a festa de agosto, onde fez show supimpa.
Como ator, atuou em diversas novelas na TV Globo, entre elas “O rei do gado”, na qual interpretou o papel de um líder sem-terra. Mas isto é história para mais tarde.
Nem todos conhecem a outra face do ator Jackson Antunes, que costuma interpretar papéis rústicos nas novelas.
Mas ele é cantor, um cantador matuto, como se autodenomina. Aliás, sempre foi. Lembra do avô? Pois... O tempo dos dois por aqui foi curto, mas é eterno.
O primeiro CD, “Jackson Antunes canta Téo Azevedo” (1998), foi gravado em 1998, após sete anos de negativas de diversas gravadoras. Gravou em seguida “Jeitão de Caipira”, em dueto com o cantador e violeiro paulista Tião do Carro. Em 2000, lançou seu terceiro disco, “Jackson Antunes, O Cantador Matuto”, onde canta Luiz Gonzaga, que alcançou em pouco tempo a marca de 250 mil cópias vendidas, sem aparecer no Faustão.
Em 2002 participou do CD das Irmãs Galvão nas músicas “Cabocla Tereza”, de Raul Torres e João Pacífico e “Chico Mineiro”, de Tonico e Francisco Ribeiro. No mesmo ano gravou “Veredas do Grande Sertão”, lançado pela Kuarup.
Lançou pela Kuarup o CD “Pé de Serra”, com produção de Téo Azevedo. Paralelamente, atuou na novela “Terra Nostra”, da TV Globo, encarnando um cantador matuto.
E segue lançando seus discos, “Quanta Saudade Dá”, uma homenagem ao ator Mazzaropi, com destaque para a faixa título com acompanhamento de Zé Américo.
Não perde uma festa de Folia de Reis de Alto Belo, promovida pelo amigo Téo Azevedo. Participa desde 1998, sempre desfrutando de grande popularidade entre seus frequentadores, habitantes das adjacências ou proveniente do Norte de Minas.
Seu espetáculo musical “Coração Caipira”, rodou por quase todas as terras deste Brasilzão de Deus. Tinha um cenário tipicamente sertanejo, uma “vendinha”, onde o ator contracena com dois companheiros de viola, Decão e Marimbondo de Chapéu, que além da viola toca uma rabeca por ele mesmo produzida.
Como músico, Jackson nunca compôs uma canção. Diz que não se atreveria, pois “existem tantos compositores maravilhosos...”. Sua preferência é pelos compositores “caipiras”, Tião do Carmo a Teo Azevedo. Para ele, Tião do Carmo, é o violeiro mais importante do Brasil.
Sobre a origem da música em sua vida, ele mesmo responde. “Não tem como, é..., não ter essa convivência com a música, por exemplo a nossa região não tem o berrante, lá usa o “aboio” e existem várias modalidades de aboio. Ao aboiar produz-se um som de canto, que os boiadeiros acreditam, e eu também acredito, que eles conseguem se comunicar com aqueles bichos tão irracionais através do canto, como as lavadeiras de rio comunicam com o rio. Não tem como, e não há a diferença entre uma voz bonita e uma voz feia, lá no sertão a gente respeita todas as vozes. Toda voz é linda, toda voz é bem vinda, porque o canto vem da alma”. Precisa explicação melhor? .
Para o jornalista e escritor Jorge Fernando dos Santos, com o múltiplo talento de ator, diretor teatral e cantador, Jackson Antunes nos dá um exemplo raro de fidelidade às suas raizes. Ao invés de faturar fácil, gravando músicas descartáveis bem ao gosto da mídia, ele prefere emprestar sua voz e seu prestígio global aos clássicos da genuína música de raiz..
Além de ator, cantador, Jackson é escritor. Tem livros publicados e livros a publicar. Tem um hipnotismo na fala. E um dos grande momentos de Jackson como ator, entre tantos, foi quando interpretou o matador que se apaixona pela vítima em “Memória de Embornal”, dirigido por Tizuka Yamasaki. O monólogo, de autoria de Íris Gomes da Costa, apresentava uma brasilidade de linguagem única. É a história de Zé Cabriolé, um “cabra matador que atira té com os pé...” Um dia ele recebe a incumbência de matar uma mulher. Para conhecê-la, recebe uma foto, mas se apaixona pela imagem da mulher do “retrauto”.
O espetáculo refaz o gosto pelo simples, pela poesia das palavras, pela sedução da linguagem popular brasileira. A interpretação de Jackson emociona e me impressiona.
Jackson participou de novelas diveras, “A Padroeira”, “Terra Nostra”, “Pecado Capital”, “Anjo Mau”, “O Rei do Gado”, “Irmãos Coragem”, “Renascer”... dentre outras! E de seriados como “Aquarela do Brasil” e “Memorial de Maria Moura” e do especial “Brava gente - “O diabo ir por último”.
Outro momento que marca é um relato feito em uma revista (que nem sei mais qual é): “Se encontro na rua um garoto negro, ou com deficiência física, e ele me pergunta se deve tentar a TV, tenho vontade de responder que não. A TV está cheia de closes que parecem quadros pintados, com muitos olhos azuis e peles de bebê. Chega ao ponto de anunciar um ator como a barriga mais bem malhada!”
Este é o gorutubano Jackson.
Ou melhor, Joaquim, meu amigo!

I want to hold your hand

Era início dos anos 60. A montesclarina província estava em marcha lenta. O bairro São José acabava ali, na rua Gregório Veloso. Depois, só uma trilha nos levava até o morro onde seria construído o DER. E ainda tinha aquela pinguela para atravessar, do rio de esgoto que passava ao lado do colégio São José. Ou então, se pulava!
Do outro lado da cidade, o bairro Todos os Santos começava a ser formado. Também uma pinguela, feita de uma árvore tombada, nos deixava atravessar o rio dos Vieira. Onde hoje está o Elos Clube, dos portugueses, ficava um dos nossos campinhos de futebol preferido. Tinha outro, mais abaixo, perto de um pé de araçá, onde nosso time, que tinha Márcio Hiran como artilheiro, enfrentava o de Marquinhos, que vinha com seu irmão, Márcio, como beque central.
Haviam gangues sim, naquela época! A nossa era da igrejinha do Rosário, que, derrubada, estava sendo, pouco a pouco, reconstruída. Ali era nosso quartel general. Tinha também a do Paulo Bobão, perto da Santa Casa (ele era uma dissidência nossa. Criou sua própria turma após mudar da Coronel Prates). E do Marquinhos, perto da rua Irmã Beata. As gangues brigavam. Muito! Mas no futebol. Quando não nos campinhos da nossa infância, durante o dia, na rua Coronel Prates, em cima dos paralelepípedos, a noite. Disputa da grossa. E com muito machucado, dedão do pé ferido, pois a maioria jogava descalço.
Uma das imagens que me vem agora, na lembrança, daqueles anos 60, é aquela da lata de sopa Campbell, de Andy Warhol. Ou o filme “Ben Hur”, com Charlston Heston. O Cine São Luiz, onde Baltazar, pai de Gêra Brandão e Luiz Carlos, vez por outra, nos deixava entrar de graça.
O Rays era quem levava para casa livros, revistas e discos. Os discos, preferencialmente, da nova música, o rock do Roberto Carlos. Fez até uma camisa vermelha, igual àquela em que ele aparecia na capa de um LP, o do Calhambeque. Bip-bip! Pai ficou retado, mas acabou concordando com as modernidades que começavam a nos aparecer. Era a vida que mudava naqueles anos de 1960. Também músicas de Elvis Presley, livros e revistas com fotos de Marilyn Monroe, os catecismos do Zéfiro, apareciam em casa. Fiz uma pequena coleção de revistas e livros. Mas uma das namoradas do Rays - acho que irmã ou prima do José Vasconcelos Câmara - disse que eu não podia ler aquilo. Pegou tudo e sumiu. Deve estar no seu quarto até hoje, pois logo depois ela e Rays se separaram. Praga de irmão. Hoje, minhas revistas, livros e catecismos devem servir, pelo menos, como souvenir para ela.
Lembro que pai, fã de carteirinha do presidente Juscelino Kubitschek, não foi na inauguração de Brasília, a nova capital do país. Mas comprou todas as revistas da época, Manchete e Cruzeiro, que até hoje estão guardadas.
Só no final daqueles anos de liberdade vigiada (afinal, os milicos pegaram o poder em 64), foi que descobrimos o movimento hippie, que pregava a paz e o amor, através do poder da flor (flower Power), do negro (black Power), do gay (gay Power) e da liberação da mulher (women’s lib). Os anos 60 foram de manifestações e palavras de ordem. Elas mobilizaram jovens em diversas partes do mundo. Inclusive na provinciana Montes Claros, que mudava de cara pouco a pouco. Em marcha lenta, é claro.
Foi nesses anos de mudanças, que ganhei meu primeiro jeans americano, o básico da moda de rua. Uma calça Lee, que desbotava e perdia o vínculo com as roupas normais. Presente do irmão mais velho. Aquilo dava liberdade e rebeldia.
Estudava no colégio São José. Indo ou voltando, passava pela zona, na padre Augusto, no fundo do antigo cemitério. Que delícia aquela mulheres com seus peitões nas janelas, nos chamando para nos tirar a virgindade. Aquela troca de olhares e aquela proibição juvenil. E que medo!!!
Irmão Jaime Damião batia em nossas mãos com aquela varinha de pescar. Seria sua varinha de condão. Por qualquer motivo: se não respondêssemos em francês, se participássemos de reuniões “obscuras”, como classificava as reuniões no DEMC de então. O montesclarino participava do movimento estudantil, que acabou explodindo e tomando conta das ruas em diversas partes do mundo. Contestávamos, aqui também, a sociedade, seus sistemas de ensino e a cultura em diversos aspectos, como a sexualidade, os costumes, a moral e a estética. E sobrava muito para mim. Sempre apresentava versões diferentes daquela mostradas nas aulas. Seria rebeldia?
Irmão Ladislau Figueiredo talvez achasse que fosse. Me chamava sempre a sua sala para pregar o “estabilismenth”. Mas não dava! Jornais, como o Correio da Manhã, revistas, como Realidade, nos abria a cabeça para outras coisas. Tanto que, no começo dos anos 70, quando já se tocava “Je T’aime, ma non plus”, “pediram” para que fôssemos trocar idéias em outras escolas. E lá fui para a Escola Normal... Onde encontrei com Celso Leal, Manoel Oliveira e Jaime Cruz. Para trás ficavam 11 anos de São José, e uma vida de estudos.
Em Montes Claros, mesmo em marcha lenta, também lutava-se contra a ditadura militar, o que iria mais tarde resultar no fechamento do Congresso e na decretação do Ato Institucional nº 5. Não se lutava como no Rio ou São Paulo, pois o Coronel Georgino marcava pesado. Mas lutava-se quando ele piscava...
A cidade seguia sua vida de interior. A renuncia de Jânio Quadros nos caiu menor que a morte de John Kennedy. Na casa de tio Geraldo e tia Edi, junto com Márcio, Tereza e Bete, torcíamos pelo Brasil na Copa de 62. Tia Edi amarrava o “rabo do diabo” embaixo de mesas, e sempre saia gols. Foi lá também que, em 65, nas tardes de domingo, assistíamos, numa TV preto&branco, cheia de chuviscos, a Jovem Guarda. E, mais e mais, a modernidade nos chegava. No cinema, Belle de Jour, com Catherine Deneuve, Bonequinha de Luxo, A Doce Vida do Fellini, até O Pagador de Promessas, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.
O tempo passava. As quintas-feiras, que antes eram de almoço na casa dos padrinhos Elias e Zita Camargo, na Gregório Veloso, ficavam para trás. Elias já me servia uma Gin Tônica, e os quadros nas paredes pareciam mais interessantes. Eles moravam ao lado da casa do professor Raimundo Saturnino, pai do (até hoje) inquieto Paulinho Manga-Rosa. Que dupla: Manga Rosa e Perereca! Nunca chegamos a jogar, naqueles anos, pelo mesmo time de futebol. Embora jogássemos sempre no mesmo time de coração. O almoço da quinta era bife a milanesa com banana frita. Uma delícia! Feita pela Geralda, irmã de Belinha Grande, filha de Vó Mariinha, que morava na Malhada das Almas.
Não só Roberto, mas também os Beatles já rodavam na vitrola enquanto nadávamos na piscina do Max-min. Ou íamos em excursão, com tio Geraldo, para Pentáurea, aquele local longe, cheio de areia movediça, intocável. Foi na casa de tio Geraldo que escutei, pela primeira vez, o lp Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Que tapa na cara! O que era aquilo? Que música diferente, interessante, desbundante era aquela? Foi ali que começou tudo! Ou continuou...
E vieram filmes como Barbarella, com Jane Fonda. O disco Tropicália, ou Pane et Circenses, do Caetano Veloso. E 2001, Uma Odisséia no Espaço, do Kubrick, ali, no Cine Fátima. Os matinês do início da década, que formavam filas imensas no Cine Coronel Ribeiro, por causa dos seriados, ficavam para trás. A música já era outra, não aquele roquezinho do Calhambeque e de blusas vermelhas.
Para o desbunde ficar maior, Woodstock aparece! Eram três dias de paz, amor e liberdade. Nas telas, Easy Rider, sem destino. Com eles, porém, nos chega a morte chocante de Sharon Tate, esposa do Roman Polanski, naquele agosto de 1969. Aqui, Carlos Marighella era assassinado, em 4 de novembro daquela ano. A ditadura mostrava que não ia embora. Que ia nos incomodar, queria ou não Coronel Georgino.
Talvez o que mais tenha caracterizado a nossa juventude naqueles anos 60 tenha sido o desejo de rebelar, a busca por liberdade de expressão e liberdade sexual. O surgimento da pílula anticoncepcional foi responsável por um comportamento sexual feminino mais liberal. Porém, elas também queriam igualdade de direitos, de salários, de decisão. Até o sutiã foi queimado em praça pública, num símbolo de libertação. Os 60 chegaram ao fim, coroados com a chegada do homem à Lua, em julho de 1969. Woodstock Music & Art Fair, em agosto, reuniu cerca de 500 mil pessoas em três dias de amor, música, sexo e drogas.
Mas aqui, nestes montesclarinos sertões, todos achavam que a cidade continuava a andar em marcha lenta.
Mas era pura mentira!
Eu já pegava em sua mão...!!!

Os deuses nos livram de sermos solenes

A moeda número um de Tio Patinhas não é minha. mas vou sonhando até explodir colorido. Nada no bolso ou nas mãos.
Isto é música de Caetano Veloso, e cantada na sua despedida do Brasil, naquele famoso show Barra 69, no teatro Castro Alves, fica mais déjàvu ainda. O Du Brasil pode confirmar se foi lá mesmo.
Já faz tanto tempo.
Ouvia o disco em sua casa, quando ainda morava na Rayo Kristoff, na década de 1970.
Era época de Daga, do Luiz Carlos, irmão de Gêra Brandão, que ainda não tinha paixão pela Fatel.
A gente se reunia, às vezes para falar de música, às vezes para falar da vida, às vezes só para curtição mesmo. Um cheiro de patchouli no ar.
Estávamos com 17, 18 anos, o mundo era todo a nosso favor.
Pelo menos pensávamos assim, metidos a hippie que éramos, esquecendo da revolução que acontecia do lado de fora, na rua.
Tinha também o disco do Geraldo Vandré, em que ele cantava “Pátria Amada, Idolatrada, Salve Salve”.
Havia concorrido com a música em um festival no Chile (que tinha o Allende e onde tudo “também” era permitido).
O Luiz, irmão de Gêra, já morava nesta época em Brasília. Era ele quem conseguia estes LPs por meios ilícitos (como o Barra 69 de Caê e Gil), e a gente curtia junto com o que era lícito na vida.
Nas conversas, “inteligentes” demais que éramos, discutíamos sobre psicologia, sexo, política, religião, Jorge Amado, João Rosa, as crônicas do Felipe Gabrich e por aí afora.
Transgressão positiva!
Afinal, um pouco de frivolidade é necessária, pois os deuses nos livram de sermos solenes.
Os papos varavam noites.
Às vezes, até dias.
Uma cachaça aqui, um cajá-manga de tira gosto (do pé no quintal da casa de Gêra).
Às vezes o papo ia para praças, andanças pelos caminhos que o rio Vieira (ainda não havia a avenida Sanitária, mas apenas o córrego que começava a ser poluído) nos levava.
Subíamos a serra e acampávamos em nosso local predileto: a cachoeira (que existia) onde hoje é o parque do Sapucaia.
Entre músicas tocadas no velho violão, reavaliávamos a vida ou reinventávamos a vida. Do alto dos 17, 18 anos, mesmo tendo apenas uma idéia difusa sobre ela.
O que era certo era a morte estar empoleirada em nosso ombro, espiando com seu inquietante olho de coruja. Como foram dourados aqueles nossos anos...
Mas o tempo passou, como o tempo passa. Ricardo, Gêra, seu irmão Luiz e tantos outros foram para outro andar.
Continuamos, às vezes com os mesmos pensamentos, mas com cinco décadas nas costas. Ouvimos hoje às mesmas músicas? Talvez...
Dia destes estava comentando com Brasil sobre a editora Sapo na Muda.
Idéia maluca, de se fazer uma rádio que toque coisas nossas (principalmente que não deixe perder as raízes não só norte-mineiras, mas mineiras mesmo), uma editora que lance livros de gente que está ao nosso lado, sem condições, e uma gravadora que revele não as coisas da terra, mas as coisas aqui feitas.
Existe até mesmo um primeiro CD pronto, gravação histórica do Sérgio Sampaio, aquele do “Eu quero é botar meu bloco na rua...”
Mas a coisa não é fácil não, como diz Reinaldo Corby.
Hoje levantei para escrever sobre o amor.
Ou melhor, para revisar o que escrevi sobre o amor
Sobre você, minha companheira, que como uma planta teimosa cresce cada dia, e se enrosca no meu único tronco.
Hoje era para publicar algo sobre o nosso amor, escrito há uns três, quatro meses, e colocado na pasta Pessoal&Intranferivel.
Pois vai ficar lá mais um tempo, pois ainda está imperfeito.
Pergunta João Rosa em Tutaméia: amar é querer se unir a uma pessoa futura, única, a mesma do passado?
Parece estranho o ensinamento, mas por quê não?
Venho cheirando a minha entidade favorita, mas ela não fala nada nas noites sem sono.
Só Rafael, com suas visitas aos espíritos, pode nos responder mais sobre isso.
Ensinou Rosa em Grande Sertão: Veredas - quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.
Lya Luft revela que, além disso, a tranqüilidade dos sábios não é tão fácil.
Não queria ser sábio. Na verdade, nem sou.
Quero só a tranqüilidade do maluco beleza Raul Seixas que colocou num papel: o pouco-a-pouco é um porto seguro.
A bênção, dona Maria!
E obrigado por tudo.
Principalmente pela proteção.

O temário das lembranças fala, mas falha, falta

A gente sabe que está ficando velho quando começa um texto: “eu sou do tempo do….” Pronto, falei!
Acho que isso me passou por causa de uma incumbência que o João Rodrigues me passou. Voltei no tempo passado e continuei no atual ao mesmo tempo em que o tempo passava. Agora, vamos em frente.
Como eu dizia, eu sou do tempo em que as crianças não tinham opção por religião. Tinham que fazer curso de catecismo, confessar aos sábados e ir à missa aos domingos, comungar (em jejum de cinco horas) e seguirem católicas.
Eu quase fui para o seminário, iludido que poderia ter poderes sobrenaturais. Não fui santo. Nem sou. Um crente descrente, talvez. Ateu que acredita em Deus. Mas isso não era um problema. Haviam outros…
Por exemplo, um dos grandes problemas era encarar uma confissão e dizer que fez ‘aquilo’ no banheiro. Ou, pior, que participou de um festival de punheta no fundo da casa do Arthur Tutuca Ramos, na Praça Portugal. E não ganhou o primeiro lugar.
Quem papava sempre o premio era o Carlinhos Rebucetê, que via o futuro com a palma da mão. Ele, como Gravatinha, que veio depois para a turma da Igreja do Rosário (Ico, Tutuca, Paulo Bobão, Marciram, Taninha, Rebucetê, Miguel, Gualter, entre tantos), acreditava piamente em seres do outro mundo - sejam ET’s ou fantasmas. Morreu de medo.
Essa coisa, a morte pelo medo, ficou em minha cabeça muito tempo. Alguma coisa transando entre os neurônios, umas joiazinhas de iluminação.
Rebucetê foi o primeiro amigo que vi morto, no caixão, esticado, durinho e frio (dizia Taninha, pois nunca peguei num morto). Aquele velório triste, onde não havia cruz, nem oração, nem recebeu a visita do padre. Ele havia se enforcado.
Um poeta, não só pelo que fazia com as mãos, mas pelo que nos transmitia com suas idéias e viagens cósmicas. Em sua carta de despedida, disse que morria por não conhecer os mistérios da vida e ter medo dos fantasmas que nos habitam.
Também tenho meus medos. Por exemplo, nunca encontrei com um ET. Se desse de cara com um, não sei se seria abusado ou abusaria.
Fantasmas, estes vivem a me rondar - ou a ronronar. Passam, me olham, acham que vão perder tempo comigo, e cascam fora.
Uma vez escrevi para um amigo que havia partido, Edson. Ele estava numa depressão brava, não sei se foi embora por querer ou não. Tomou uns remédios, depois de beber umas. Partiu, simplesmente, não sei pra onde... Não deixou carta, bilhete, nem nada. Talvez, ainda pensasse em acordar dia seguinte. Acordou morto.
No poema que lembrei dele. Melhor, fiz para ele. Dizia que se quisesse me encontrar, não chegasse de uma vez. ‘Não, eu não gostaria de acordar a noite/ e te encontrar feito um fantasma/ a vagar pela casa./ Talvez, quem sabe,/ fosse melhor te encontrar de relance,/ te ver num bar - e não ver,/ coçar os olhos na esquina/ e você se perder na multidão’.
Às vezes, agradeço a Deus por que talvez seja esse modo pelo qual meu medo se redime e eu não me perco.
A turma do Igreja do Rosário era tão unida como o anjo de Georgino Jorge de Souza Junior, Orinella, que não conheci mas escutei casos que, segura a ponta da mesa e mastiga as sílabas em sua língua.
As calças curtas, a rua de paralelepípedos como campo de futebol, a igreja em construção, a turma do Marquinhos, perto do rio Vieira, o campinho pra lá da casa de Carlão, aonde a gente ia passando por uma pinguela sobre o rio, para jogar futebol. Os filhos do José Mário enxertavam nosso time. Que nem sempre vencia.
Às vezes, a gente retroverte no tempo, lembra até do pé de Pitomba, que nascera com Montes Claros na Rua Gonçalves Figueira. Cadê ele? Deve ter sido derrubado.
Por ali, descendo a Gonçalves Figueira, passávamos pela casa do Teixeira Bastos, atravessávamos a ponte do Vieira, tentávamos roubar umas uvas no ‘sitio’ de Antonio Narciso Soares, para depois ir nadar no Pai João. Ainda que infestado de esquistossomose, era ali, naquela piscina natural, que a gente ficava mais alegre do que nas piscinas da Praça de Esportes.
O Vieira também era limpo, a partir de certa altura, no Melo. Tinha poços ótimos. Lembro-me muito da Lajinha, hoje sepultado e selado.
Era um mundo diferente aquele, na década de 1960.
Se a gente se comportasse bem, aos domingos, no Bar Sibéria, na esquina da Dr. Veloso, em frente ao Clube Montes Claros, “sêo” Novaeszinho me dava uma “Caçulinha”, ou guaraná R&C. Às vezes, levava para almoçar no Restaurante Mangueira, na Dr. Santos. Às quintas, porém, tinha encontro marcado com o pai, para tomar a canja de galinha no Mangueirinha, na Afonso Pena com Padre Augusto. Ele tomava sua Brahma e uma pinguinha. Eu, uma Grapette.
No Intermezzo, só fui quando cresci mais e já existia o Espeto de Ouro, ao lado da nossa casa da Dr. Veloso. No Valério, era só em ocasiões especiais. Como quando mãe ganhou um concurso do A.R. A comemoração foi lá.
Mas quando sobrava um dinheirinho da mesada, eu ia mesmo era pro bar e sorveteria Cambuy, em frente ao Cine e Teatro Fátima. Ali me maravilhava com frutas só vistas quando ia a Belo Horizonte. Tinham doces, queijos, presuntos, nozes, castanhas. Meu sonho de consumo naquela época.
Naquele tempo, tínhamos relíquias como Tuia, Parsival de Almeida, Ateneu e Casimiro de Abreu.
Tínhamos os dribles de Manoelito, Manoelzinho, Chinesinho, Jomar e Bispo.
Tínhamos Mané Nunes (Quatrocentos), Sabú, Mundinho Atleta e sessões de cinema no Coronel Ribeiro, São Luiz, Ypiranga ou Fátima.
Foi ali que assisti Yul Brinner e Gina Lolobrigida em ‘Salomão e a Rainha de Sabá’, e Ben Hur, com Charlton Heston. Quando passou Macunaíma, não consegui entrar no São Luiz nem no Coronel Ribeiro. Era barrado pelo Comissário de Menores Zé Idálio. Assisti no Ypiranga, pois ali ele não ia. Depois, consegui gravá-lo numa fita de vídeo e, vez por outra, volto a deliciar-me com Paulo José e Grande Otelo no papel deste anti-herói (?) nacional. O Cine Montes Claros que conhecemos, chegou depois, com som saindo de todas suas paredes.
Pai comprou seu primeiro fusca na Somar, na Carlos Gomes. Foi Tio Geraldo quem estava com a gente quando fomos buscá-lo. Tio dirigiu até os Santos Reis, deu a direção pro meu pai e ele trouxe de volta. Mais nunca largou. Aprendeu assim, num estalo. Rays apelidou o carrinho de ‘calça Lee’, pois descorou com ciúmes do outro fusca mais azul que pai comprou, anos depois.
Dos onze anos estudados no São José, além dos amigos todos que repartem ainda hoje meu coração, ficou a música particular ensinada pelo irmão Jaime Damião:
Frere Jacque, Frere Jacque/
Doure vous, Doure vous/
Solere Martine, solere Martine/
Dim, dim, dom/
Dim, dim, dom. Também, as idas até a escola de datilografia do pai do Luciano Meira, a Remington Rand, para ver se aprendia alguma coisa. Aprendi mesmo com uma Olivetti lá me casa, e até hoje uso somente os dois dedos para digitar ou datilografar.
O temário das lembranças fala, mas falha, falta. Nosso mundo não era tão grande.
Nosso mundo era bem pequeno.
Nosso mundo era nosso.
Não tenho bola de cristal.
Apenas ouço o Tino - tenho pena de nós dois.
Mas é por isso que todos vivem assim.

Porém com todo respeito, te carrego no meu peito

Tive um sonho, dia destes, com o Chico Buarque de Holanda. Não, não foi o sonho medonho desses que às vezes a gente sonha e baba na fronha e se urina todo e quer sufocar. Foi um sonho maneiro, mineiro, calmo, tranquilo, destes que a gente sobe a construção como se fosse sólido e ergue no patamar quatro paredes mágicas, tijolo com tijolo num desenho ilógico.
Não sei por que cargas d’água – sonho a gente respeita – Chico fez um show numa cidade do Norte de Minas e fui assistir. Liguei pro Chorró, fã condicional do compositor (não se esquecendo que ‘todo compositor brasileiro é um complexado’, como ensinou Tomzé). Nos encontramos ao lado da pensão que Chico estava hospedado com seus músicos. Pensão? Parecia a Pensão Nossa Senhora Aparecida, que existiu certa vez na Avenida do Comércio, em Janaúba. Mas a cidade não era a gorutubana, embora aquele pedaço lembrasse o Buraco de Amélia. Tentei que Inês fosse – ela estava numa roda de pagode – mas preferiu pagodear. Chorró levou Margareth.
Nos encostamos a um muro, em frente ao jardim da pensão, e ficamos curtindo ele lá, cantando. Se lembra quando toda modinha falava de amor/ pois nunca mais cantei, oh maninha/ Depois que ele chegou...
Como todo sonho deixa seus saltos, seus brancos (e até seus negros), e nem sempre a gente sabe como eles vem ou vão, já estávamos os três na sala de estar da pensãozinha, que agora parecia o hotel da mãe do Noriel Cohen, na rua Dr. Santos, em frente ao Bar do João e do Prontocor. Conseguimos falar com Chico, a quem chamei de “Seo” Francisco, com toda pompa e circunstância da música clássica que me vinha aos ouvidos naquela hora. E, ao invés do Chorró se derreter em lágrimas emotivas, isto aconteceu comigo. Chorei copiosamente quando Chico me abraçou. Gosto do Chico, de tudo que foi e é o Chico, de tudo que nos ensinou o Chico, mas sou fã do Caetano. E do Tino. Mas naquela hora, além de lágrimas, suas músicas tiritaram em minha cabeça. Da primeira, a Banda, que me levou aos tempos de minha mãe e tia Edi, mãe da Tereza Cristina, Márcio Hiram, Bete e Marcelo. Elas cantarolavam-na enquanto cozinhavam. Ou fritavam um bife. Acebolado.
Acordei com o verso ‘A minha gente sofrida’. Acordei com minha gente sofrida na cabeça. Essa gente sofrida que pede esmola na esquina, que morre na contramão atrapalhando o sábado, que não sabe amar, que vive por viver sem saber o por que. São as Sônias, Lucianas, Valdir; Cândidas, Lourdes, Felipe; Homeros, Rossinis, Terezinha; Mirim, Vanderley, Fatinhas; Lucias, Romanas, Waldomiro. São tantas pessoas.
Montes Claros está cheia de gente sofrida. Basta ler algumas páginas dos jornais. Pare nas páginas de Polícia e Sociedade. Morte, depressão, violência, gente sem vida. Nego humilhado, morto-vivo, flagelado. E não é sonho.
Da janela na copa das árvores vejo o dia envelhecer cinza, envolto num véu de bruma, dando tapinhas nas costas das casas, que respondem acenando luzes nas janelas. E a noite vai caindo lenta e jovem. É a hora mais linda e triste dessa minha terra, o lusco-fusco, a hora do Ângelus. Me lembro de um amigo meu, que não vale citar o nome, me perguntando se já fumei maconha. Ele conta que fumou a primeira vez e não sentiu nada. Sua noiva lhe perguntava, a toda hora: cadê o tapa? Cadê o tapa? E ele, com aquela cara engraçada, olhando para ela, rindo... Que tapa?
Outro, João, na época em que trabalhei na Transit, 1975, teve dois processos na polícia. Um como comunista. Outro como facista. Ele jogava mesmo os pobres contra os ricos. Chegava numa cidade, Varzelândia, Várzea da Palma, Cachoeirinha, fundava logo um clube para as pessoas mais humildes e pobres com tudo que o clube dos ricos tinha. Numa destas cidades aí, teve que sair de noite, escondido na boléia de um caminhão. Não sei hoje onde se encontra o João, que morava na Avenida Cula Mangabeira. Se apenas militou, se apenas o militaram. João sumiu, e pode nem estar mais neste reino da terra. Nem recebeu uma moda de viola ou virou folclore. Esqueceram dele. Estes militares...
Assisti uma vez uma senhora da sociedade nossa procurar um pastor e, para agradecer uma cura através de bênção, arrancar brincos, anéis, pulseiras e deixar tudo para a igreja. Eu nunca vi tanto dinheiro como tinha aquele pastor, que também era vereador e relojoeiro. Ele mandava pro banco o dinheiro em caixas de sapato. Tenho idéia de fazer um livro sobre este dublê de pastor e político. Era uma figura interessantíssima, amiga dos ricos.
Meus tios Eudipson, Euderson, Eunilson, Euridson, Duque, Oraide, Eulidson e Geraldo, foram embora da terra montes-clarina. Pai, Novaes Novo, ou Novaeszinho, foi o único a ficar, a ser enterrado junto com meu avô, João, o Novaes Velho. Angélica mora hoje no cemitério do Bonfim de Belo Horizonte, junto com Oraide, ali enterrada há um mês. João, no Bonfim de Montes Claros. Devem ter se encontrado no infinito eterno. Já pai e mãe ficaram juntos com o Rays. Muito da saída de meus tios das terras montes-clarinas veio do que aconteceu com João nos anos 1930. Principalmente num cemitério da cidade, a mando de Dona Tiburtina.
Tio Messias, que não entrou na cota dos tios anteriores – assim como tio Francisco – era otimista com relação às pessoas. Achava-as sensíveis à verdade. Se existia um dramão, ele discutia, resolvia. Pelo menos aparentemente. Para ele, se as coisas ficarem fechadas não entra ar, não tem possibilidades, não há o ponto-chave. Tem gente que fala tão mal da vida dos outros que dá até íngua.
E as tem as pessoas da cidade. Você já teve a curiosidade de conversar com elas? Por exemplo, Luzia. Diz: “lá no meu bairro tá faltando água. Lá em casa vai água duas vezes por semana. Ai, como eu fiquei velha depressa aqui em Montescraro. Nossa Senhora! Quando eu vim de minha terra era uma menina!” Já Antônio: “não acha um absurdo uma pessoa vir desse interiorzão pra se tratar em Montescraro? Sabe o que tenho mais medo? É procurar um ponto-socorro porque nem todo ponto-socorro atende a pessoa na hora. É difícil. Eu tenho visto aí a gente paga isso aquilo, precisa ir ao ponto-socorro tal e quando chega lá o filho tá morto”.
Marilda: “você escreve muito, é? Qual a linha que adota para escrever? No meu caso estou na linha do realismo fantástico. Será que a gente tem que se preocupar em ficar dentro de uma linha? Acho que não. Acho que a gente tem que escrever escrever escrever até com certa humildade para ver qual a linha final”. Helena: “No momento eu me sinto mal em Montescraro. Nos últimos anos, esta cidade se transformou numa cidade completamente ressecada, desumanizada. Pra gente não se estender muito sobre isso, vou te dar um exemplo que acho contraditório, desumano. Eu sou uma pessoa que gosta muito de música. Desde que me conheço. E hoje isso é um fenômeno massacrante. Tem a cidade invadida pela música de uma maneira insuportável, utilitária, e onde ninguém mais presta atenção a ela. Carro de som nos barzinhos, bicicleta de som pelas ruas, o som das casas de discos... Isso neutraliza completamente aquilo que a música pode significar para o homem”.
Jorge: “você já fumou maconha? Eu fumei uma vez mas no senti nada”. Seu Zé: “não gosto desta cidade, se eu pudesse voltava pro campo. Lugar de sossego pra criar família honesta é o campo. Aqui há coisa que não serve pra uma família assistir. Não conto com um filho honesto. Conto com um ladrão um perdido que não aprende nada. Só malandria”. Mauro: “Aqui, sábado e domingo, cai tudo na safadeza. Já foi no (...)? Vai todo mundo. Bicha, mulher, safado. A gente baixa lá pra sentir aquele treco. Agora, quem tem dinheiro vai pra boates. Meu derivativo é pinga e mulher. Tem outra coisa, gostei de uma menina. Não casei. Medo de chifre. Das safadezas. A maldade é muito grande. Fiquei sem vergonha mesmo. Ela sai com todo mundo. E come comigo”.
Lembra de Tom Zé? Aquele, de ‘todo compositor brasileiro é um complexado’? Pois é dele também o verso
‘Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito’

Ela é alguma coisa no caminho, ela sabe

Era um bordel nublado por cigarros e poeira da rua sem asfalto, que cruzava com a Melo Viana. Correia Machado?, pergunta alguém. A janela dava para o quintal daquela casa de encontros onde homens sentavam em mesas antigas, algumas quebradas. Pelas mesas passavam velhas raparigas como o tempo e novas meninas com tempo.
Naquele quintal tinha um pé de goiaba, talvez das brancas, talvez das vermelhas, não dava para se saber qual. Nunca ganhou uma, nunca pediu à dona daquela casa suspeita, embora, nas raras vezes que chegou a janela, viu algumas bonitas, grandes, que enchiam sua boca d’água. Chegava a falar oi com a dona, que tinha uma bunda medonha e uma cara de sonsa. Só a cara.
Abria-se pouco aquela janela da casa. Talvez para não enxergar naquele espaço - que deveria ser o bar do bordel -, homens e mulheres fazendo safadeza. Conhecia algumas das moças. Tinha Iaiá, procurada durante o dia para derrubar vermes de criança, praguejar bicheira, benzer verruga naquele espaço de cidade. Tinha Anita, que gostava de uma trepada e, por tanto gostar, foi parar ali, tão logo passou a lua de mel e ver que o marido não agüentaria seu fogo. Tinha Juve que gostava de ir ao botequim com um vestido de cetim, um pouco solto na cintura e sem roupa de baixo...
Perto dali uns cem metros mal medidos, ficava um botequim, onde os filhos de dona Linda ganhavam a vida. Não tão limpo, não tão sujo, um botequim. No canto, sempre havia um bêbado (Luiz Gastabala?) que rabiscava versos num papel antigo (Rafael?), daqueles de embrulhar carne.
A Melo Viana (Melviana para alguns) ganhou este nome, dizem os historiadores de plantão – e como a cidade os tem -, porque por ali fugiu o então vice-presidente da República, Fernando de Melo Viana, naquele seis de fevereiro de 1930, escapando dos tiros de Dona Tiburtina, João Alves e da tropa.
Para Marquinhos 98 aquele espaço era o paraíso. Marquinhos ganhou o apelido por ser o carnavalesco do Grêmio Recreativo Escola de Samba Destak – e, dizem, se parecer com Joãozinho 30. Consertava nas horas vagas, sofás e hoje aluga DVDs. Segue a vida como o Cônsul Geral do Reino dos Países Baixos dos Morrinhos de Nosso Senhor do Bonfim de Dona Germana.
Para Leya Bloodymary aquilo era o submundo romântico de Montes Claros por onde, vez ou outra passava a caminho da Ladeira Cônego Quirino. Ali perto existiam muitas casas de encontro, algumas melhores, algumas piores, apenas casas de encontro com suas mulheres cansadas, de olhar morto durante o dia, mas que estavam pintadas e putas à noite. Prontas para fazer o que tinha que ser feito.
Naquele Reino dos Países Baixos tinha sacanagem, malícia, putaria. Isto sempre atraiu Leya Bloodymary. Faltava só um show de Kurt Weill. Aquele pedaço de terra de Montes Claros era o lugar de encarar temporais e enfrentar marginais, brigar em bares e saquear corações. E Leya sabia fazer isto muito bem.
No bar da mãe de Marquinhos 98, o Destak, aquele pontinho preto no mapa da cidade, estavam aqueles de vida errante, entregues a qualquer paixão, à deriva dos sonhos prometidos. Ali se podia marcar encontro com o pecador confesso, o clandestino moderado, o traficante sem medo.
Ou com o herói do botequim, que roubava flores no jardim da solidão para oferecer à namorada de um amigo velho – ou novo, não importava nem mesmo se fosse amigo. Mesmo aquele que conhecera ali naquele instante que parecia perdido no local e estava com a mulher ao lado, a mulher que é de seus sonhos naquele momento em que a bebida faz a razão se encontrar com a rota das sereias, as iaras que cantam em nossos rios. É imoral, indecente, fuma demais, bebe demais, ouve Maisa demais. Mas sempre oferecia uma flor – de preferência, uma rosa – àquela que seu coração mandasse. Quem diria que somos limpos e sem defeitos, a imagem e semelhança de Deus?
Ali era o paraíso dos compositores desgarrados e dos poetas malditos. E os começos, meios e fim! Aquele pedaço da cidade era cheio de xavequeiros, vagabundos elegantes, canalhas românticos, do boêmio trovador, e daquele de cabelo calculadamente desarrumado, o michê. Era ali que Leya Bloodymary amava ficar. Era ali que gostava de viver. Leya, último de uma linhagem de heróis da cidade, que tinha até o busto do avô na pracinha. Fica cada vez mais claro que o tempo presente e o tempo passado talvez estejam ambos presentes no tempo futuro, como achava T.S.Eliot.