Não podemos segurar o mundo. Ele roda, quiçá, muito mais rápido que queremos. E mais lento do que precisamos. As sensações são como brisas, que vem lavar a alma e se vão. Fica o perfume. Que não fique o remorso do que não foi feito, e sim o prazer de viver plenamente.
Isto me leva ao Bar do João, quatro portas grandes, a esquerda da Dr. Santos, um pouco acima da casa onde era o Hospital Prontocor – antes uma pensão que recebia o povo de Taiobeiras. Ficava no quarteirão entre dois Dons: Pedro II e João Alves Pimenta, ao lado da Pensão Mato Verde. Ali tomei porres comendo dobradinha, tomando Brahma e cachaça com amigos e amantes. Ali foi o montesclarino John Sebastian bar... Tinha um balcão grande na frente e uma entradinha para o reservado. E João com a música dos Beatles tocando sem parar. Tanto que chamávamos o local de Beatles Bar.
Ali, um dia, meu anjo descabelado caiu em cima de mim. Caiu por engano – ou quem sabe, não? Um anjo torto, desses que vivem na sombra. Caiu e bebeu uma cacha-cola, mistura de uma cachaça desdobrada com coca-cola que era servida, já que não havia dinheiro para lhe pagar uma Cuba Libre.
No Bar do João acontecia destas coisas. Até anjo caia em cima da gente, quanto mais pessoas. Talvez faltasse o pó de pirlimpimpim...
Hoje, olhando meus cadernos de viagem, é que percebo que as portas e janelas daquela paisagem tem alguma coisa daquele anjo torto, descabelado. Não há nada abandonado num passado que se fez com todo o possível sentimento. Volta e meia tudo volta, e vemos que a história não morreu. Estava só guardada lá dentro da gente.
A época do Bar de João bateu com o tempo em que eu fazia Tiro de Guerra, quase 40 anos atrás, em que os sargentos Bhaumer, Telles e Camargo tentava ensinar o que é bom e o que é mau, sem nunca dizerem de que lado estavam: do bom ou do mau...
O Bar do João viveu mais que aquele ano de 1972. Naqueles anos em que frequentamos o lugar – eu, Felipe Gabrich, Yuri Poppof, Sebastião Soares, Washington Luiz Neném, Ricardo Xarope, Manoel Oliveira, Hudo Fidelcino, Eduardo Brasil, Ceumar, Daguinha, Kyriê, Léo, Glória, Setemeses, Nôra, Juventino Dário, entre tantos – comentamos sobre o ‘Ultimo Tango em Paris’ e as belezas do corpo de Maria Schneider; falamos e cantamos músicas de ‘Cabaret’, fazendo coro a Liza Minnelli e ainda discutimos com ar de intelectuais o porquê de Darlene Glória em ‘Toda Nudez Será Castigada’. Foi nas mesas do Bar do João que torcemos pela rebeldia de Patty Hearts e saboreamos ‘Garganta Profunda’, sem nunca assistir ao filme.
Naquele boteco de quatro portas altas, madeira, em plena Rua Dr. Santos, escutamos, à noite, o rock e soul de Big Boy pela Mundial. ‘Vapor Barato’ a ‘Maracatu Atômico’, passando por ‘Pérola Negra’, ‘Ouro de Tolo’ e ‘Sangue Latino’. Tudo teve parada obrigatória ali. Além dos Beatles, que nunca deixaram de tocar.
Até a guerrilha do Araguaia foi discutido entre uma e outra cachaça. E a guerrilha que iríamos fazer, e nunca fizemos.
Vinho, underberg, baseado! Tudo entrava – e saia!
Inclusive Rosinha (pra não dizer seu nome verdadeiro), a rainha das 1001 noites mal dormidas, que fazia em nós, frequentadores, um aperfeiçoamento do Kama Sutra, para evitarmos naufrágios de alcova. De graça, e no banheiro unissex. Foi ali que muitos de nós conhecemos as posições mais prazerosas e aprendemos passo a passo como executá-las durante a transa, garantindo um gozo mais forte.
O Bar do João veio na hora certa!
Hoje, sinto como se tivesse passado quase 40 anos vendo aquele filme. João que se foi tão cedo para o andar de cima: you are there!
João que curtiu o tempo e o vento, principalmente um tempo em que a palavra liberdade era dita no escurinho do cinema – ou do seu boteco–, mas que vivíamos bem no seu barzinho tosco da Dr. Santos.
Na verdade, o início dos anos 70 foi um tempo em que meu anjo descabelado caiu em cima de mim, numa noite de verão. Um anjo louro, época em que ‘DOI’ era código e Biotônico Fontoura deixava muita gente doidona.
E hoje, relendo meus cadernos de viagem, meu anjo volta e reconhece pessoas que me viram de passagem e também puderam ver quem estava ali.
E se um dia desses eu encontrar por aí com quem estava ali, naquele tempo, meu anjo vai dizer que somos da mesma semente.
Somos nada mais do que gente.
Eu não devia te dizer, mas essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.
Que o diga Drummond...
domingo, 20 de novembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
A garota de 17 anos faz zum zum e mel
Amigo meu, quase na meia idade, está apaixonado por uma garota de 17 anos.
Destas paixões absurdas, de andar lembrando – e babando – por ela a toda hora. De suspirar profundamente quando o pensamento balança a pança e o sorriso vem aos lábios.
Perto dos 60, este meu amigo - que vou chamar de Denner, em homenagem a um quase irmão -, voltou a ser criança. E resolveu curtir a vida. Adoidado!
Está certo! Afinal, depois de anos de casamento, a vida pode cair numa monotonia. Mas o homem continua a pensar em sexo, mesmo cinquentão, com a mesma ansiedade de adolescente. E até pior, pois aí já existe aquela maturidade, aquela experiência e ainda aquela curiosidade por um ou outro ensinamento do Kama Sutra não colocado em prática ainda.
O pior é que não se consegue um passe livre da esposa para, pelo menos, um dia na vida.
Pois este amigo, o Denner, desimpedido, tem a vida toda pela frente... Ou o que resta da nossa vida pela frente.
Não sou contra este amor quase outonal. Existem outros até mais velhos. Afinal, a vida é uma só. E ele tem que olhar muito ainda para sua frente.
E uma mulher como esta menina de 17 anos que arranjou, que faz zum zum e mel em seu ouvido - mesmo que for só em pensamentos -, o deixou mais novo. Renovado. Recuperado. Restaurado para esta terceira e última parte da vida. E com um sorriso de criança no rosto.
E como é difícil chegar a esta idade com um sorriso de criança no rosto.
A garota de 17 anos cheguei a pensar comigo, pode ser um engano. Ilusão de uma cabeça que trabalha 18 horas por dia. Pode ser coisa de subconsciente. Mas como é ele o apaixonado, e ainda não me apresentou à mesma, fico no aguardo.
Pelo que diz com aquele sorriso de criança no rosto, penso até não existir tão formosura de mulher com tão tenra idade. Ou ela parece ter mais do que aqueles inocentes anos, na experiência da vida.
Mas como histórias de amor duram apenas 90 minutos, acredito que ele deva aproveitar ao máximo este tempo. Real ou ilusória mente.
Não sei como fará quando terminar sua hora e meia de paixão. Serão apenas mais dois olhos nus, anos-luz do seu amor?
É bom analisar o que é uma mulher de 17 anos na vida de uma pessoa mais velha. Primeiro, que esta pessoa não está mais na adolescência. Depois, a garota é menor de idade. Real ou ilusoriamente. E esse fato poderia constituir em crime.
Mas como o amor existe num plano diferente - que talvez o Iran Rego, mais chegado nestas coisas extraterrenas, venha explicar um dia -, o que pode atrapalhar um romance como esse não é a diferença de idade, mas o contraste de interesses. Mesmo ilusoriamente.
Como é a química dos dois? Não sei!
Nem conheço a menina de 17 anos, que anda pelas ruas de Montes Claros com sua saia curtíssima, vermelha, gosta de calcinha branca e caminha de salto alto no coração deste amigo de tantos anos.
Nem sei se ela, sentada naquele barzinho da Avenida Sanitária, ao cair da tarde - num bate papo regado a uísque com água de coco para ele, suco de açaí para ela - concordam em assuntos relacionados a sexo, moda e música.
Se neste papo descontraído os pais da menina de 17 anos estão cientes deste amor dela por um quase... Pai, avô...
E se este amor não tiver nada a ver com a menina de 17 anos? Afinal, ela deve gostar de frequentar lugares que ele odeia.
Ele pode discriminar os amigos pirralhos, criticar seu jeito infantil. E os seus hábitos – fumar, pensar em Cauby Peixoto, cantar Madalena, falar de Daço Cabeludo, Bala Doce e de Sêo Ênio, do Quintal... - com os quais ela não concorda e gente que nunca ouviu falar!?
Pode ser que a menina de 17 anos, que vai a Feirinha da Praça da Matriz aos domingos pela manhã só para ver Aroldo Pereira, esteja totalmente encantada apenas com o charme deste meu amigo.
Pode ser que ela, que gosta de Justin Bieber, esteja atrás apenas de seus 15 minutos de fama. Mas qual fama?
Pode ser que ela, que quer ir ao Rock in Rio este ano – já marcou em sua agenda que vai assistir aos shows do AC/DC, Paul McCartney, Avril Lavigne, Shakira, Elthon John, Red Hot Chili Peppers, Metallica, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Sepultura, Angra, Rihanna e Slipknot – esteja atrás apenas disso: a possibilidade de ir ao Rio, por um mundo melhor!
Pode ser apenas o fogo da paixão, que pode dar uma abrandada em alguns dias. Essa coisa de que os opostos se atraem é balela!
Tem gente com necessidade de trabalhar com o ego, com as questões do ego. Entender as estruturas da mente.
Tem gente que quer identificar as nossas mascaras e os escuros que tentamos olhar.
Tem gente que viaja para conhecer novas alturas.
Outras, para conhecer aquele prato que nem sabe pronunciar o nome.
Outros, ainda, para se reencontrar de vez em quando.
Denner, meu amigo, está encaixado nesta forma e em todas as outras.
Ele, de close em close, pode perde a pose.
Ficar desminliguido!
Apesar de Deus ser brasileiro, outros deuses vivem por aqui: Exu, Tupã, Thor, Alá, Oxossi, Zeus, Roberto, Buda e Oxalá.
E a garota de 17 anos.
A menina que faz zum zum e mel...
(Lá do bar de João, na Dr. Santos, vem um som: Eu corro, fujo desta sombra/ Em sonho vejo este passado/ E na parede do meu quarto/ Ainda está o seu retrato/ Não quero ver prá não lembrar/ Pensei até em me mudar/ Lugar qualquer que não exista/ O pensamento em você...)
Destas paixões absurdas, de andar lembrando – e babando – por ela a toda hora. De suspirar profundamente quando o pensamento balança a pança e o sorriso vem aos lábios.
Perto dos 60, este meu amigo - que vou chamar de Denner, em homenagem a um quase irmão -, voltou a ser criança. E resolveu curtir a vida. Adoidado!
Está certo! Afinal, depois de anos de casamento, a vida pode cair numa monotonia. Mas o homem continua a pensar em sexo, mesmo cinquentão, com a mesma ansiedade de adolescente. E até pior, pois aí já existe aquela maturidade, aquela experiência e ainda aquela curiosidade por um ou outro ensinamento do Kama Sutra não colocado em prática ainda.
O pior é que não se consegue um passe livre da esposa para, pelo menos, um dia na vida.
Pois este amigo, o Denner, desimpedido, tem a vida toda pela frente... Ou o que resta da nossa vida pela frente.
Não sou contra este amor quase outonal. Existem outros até mais velhos. Afinal, a vida é uma só. E ele tem que olhar muito ainda para sua frente.
E uma mulher como esta menina de 17 anos que arranjou, que faz zum zum e mel em seu ouvido - mesmo que for só em pensamentos -, o deixou mais novo. Renovado. Recuperado. Restaurado para esta terceira e última parte da vida. E com um sorriso de criança no rosto.
E como é difícil chegar a esta idade com um sorriso de criança no rosto.
A garota de 17 anos cheguei a pensar comigo, pode ser um engano. Ilusão de uma cabeça que trabalha 18 horas por dia. Pode ser coisa de subconsciente. Mas como é ele o apaixonado, e ainda não me apresentou à mesma, fico no aguardo.
Pelo que diz com aquele sorriso de criança no rosto, penso até não existir tão formosura de mulher com tão tenra idade. Ou ela parece ter mais do que aqueles inocentes anos, na experiência da vida.
Mas como histórias de amor duram apenas 90 minutos, acredito que ele deva aproveitar ao máximo este tempo. Real ou ilusória mente.
Não sei como fará quando terminar sua hora e meia de paixão. Serão apenas mais dois olhos nus, anos-luz do seu amor?
É bom analisar o que é uma mulher de 17 anos na vida de uma pessoa mais velha. Primeiro, que esta pessoa não está mais na adolescência. Depois, a garota é menor de idade. Real ou ilusoriamente. E esse fato poderia constituir em crime.
Mas como o amor existe num plano diferente - que talvez o Iran Rego, mais chegado nestas coisas extraterrenas, venha explicar um dia -, o que pode atrapalhar um romance como esse não é a diferença de idade, mas o contraste de interesses. Mesmo ilusoriamente.
Como é a química dos dois? Não sei!
Nem conheço a menina de 17 anos, que anda pelas ruas de Montes Claros com sua saia curtíssima, vermelha, gosta de calcinha branca e caminha de salto alto no coração deste amigo de tantos anos.
Nem sei se ela, sentada naquele barzinho da Avenida Sanitária, ao cair da tarde - num bate papo regado a uísque com água de coco para ele, suco de açaí para ela - concordam em assuntos relacionados a sexo, moda e música.
Se neste papo descontraído os pais da menina de 17 anos estão cientes deste amor dela por um quase... Pai, avô...
E se este amor não tiver nada a ver com a menina de 17 anos? Afinal, ela deve gostar de frequentar lugares que ele odeia.
Ele pode discriminar os amigos pirralhos, criticar seu jeito infantil. E os seus hábitos – fumar, pensar em Cauby Peixoto, cantar Madalena, falar de Daço Cabeludo, Bala Doce e de Sêo Ênio, do Quintal... - com os quais ela não concorda e gente que nunca ouviu falar!?
Pode ser que a menina de 17 anos, que vai a Feirinha da Praça da Matriz aos domingos pela manhã só para ver Aroldo Pereira, esteja totalmente encantada apenas com o charme deste meu amigo.
Pode ser que ela, que gosta de Justin Bieber, esteja atrás apenas de seus 15 minutos de fama. Mas qual fama?
Pode ser que ela, que quer ir ao Rock in Rio este ano – já marcou em sua agenda que vai assistir aos shows do AC/DC, Paul McCartney, Avril Lavigne, Shakira, Elthon John, Red Hot Chili Peppers, Metallica, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Sepultura, Angra, Rihanna e Slipknot – esteja atrás apenas disso: a possibilidade de ir ao Rio, por um mundo melhor!
Pode ser apenas o fogo da paixão, que pode dar uma abrandada em alguns dias. Essa coisa de que os opostos se atraem é balela!
Tem gente com necessidade de trabalhar com o ego, com as questões do ego. Entender as estruturas da mente.
Tem gente que quer identificar as nossas mascaras e os escuros que tentamos olhar.
Tem gente que viaja para conhecer novas alturas.
Outras, para conhecer aquele prato que nem sabe pronunciar o nome.
Outros, ainda, para se reencontrar de vez em quando.
Denner, meu amigo, está encaixado nesta forma e em todas as outras.
Ele, de close em close, pode perde a pose.
Ficar desminliguido!
Apesar de Deus ser brasileiro, outros deuses vivem por aqui: Exu, Tupã, Thor, Alá, Oxossi, Zeus, Roberto, Buda e Oxalá.
E a garota de 17 anos.
A menina que faz zum zum e mel...
(Lá do bar de João, na Dr. Santos, vem um som: Eu corro, fujo desta sombra/ Em sonho vejo este passado/ E na parede do meu quarto/ Ainda está o seu retrato/ Não quero ver prá não lembrar/ Pensei até em me mudar/ Lugar qualquer que não exista/ O pensamento em você...)
Essa tigresa é só de brincadeira
Insaciável!
Uma máquina do sexo. Assim pode-se definir aquela gorutubana do Rio Novo. E como sabia fazer bem feito. Acredito que tenha seduzido metade da cidade só com o olhar e aquelas palavras doce que saiam de sua boca. A metade rica, é bom dizer. A outra, ficou só na vontade de conhecê-la. Mas todos os homens (e mulheres) de Janaúba a desejavam. Bruna Surfistinha ali era aprendiz.
Exagerada!
Nos beijos, no doar, no amar. Este, fazia com satisfação e nunca se satisfazia completamente na cama. Tinha que cair e rolar pelo chão, tinha que dar-se em pé, encostada à porta, a parede, ou sentada na mesa da cozinha, esfregando a pele do seu corpo contra o...
Quando fazia amor, era o chão, sem o chão. Era a leoa no cio, a tigresa na dança do amor. Uma deusa. Gostava de ficar no comando. Mas, conforme o jeito, queria ser comandada. Alta, de uma beleza mais interna que externa, cabelos cobrindo o olhar, o que a deixava com ar fatal de artista de cinema dos anos 50.
Queria falar de tudo, queria fazer de tudo, experimentava posições kamasutranianas. Tanto que encomendou ao Marcos Caíres, na Papelaria Guimarães, uma edição do Kama Sutra. Não sei se foi buscar...
Assim era aquela tigresa, uma beleza que aconteceu em Janaúba dos anos 70. E como num romance desmilinguido, ela me contou com certeza tudo o que viveu. De perto, ninguém é normal, às vezes, segue em linha reta a vida, que é "meu bem, meu mal". Era ela. No mais, as "ramblas" do planeta "orchta de chufa, si us plau".
A história de HP com ela foi engraçada. A estória de AP com ela foi romântica. A estória e as histórias de CN com ela, ele guarda no peito até os dias de hoje.
Estórias e histórias, pois Rosa já nos alertara que a estória não quer ser história. São coisas diferentes. História é o tempo onde as coisas acontecidas não acontecem mais. A estória é o tempo onde coisas não acontecidas acontecem sempre. Abacaxi e pitanga não é a mesma coisa. Mas um morango com champanhe, esta escorrendo pelo corpo, melhora tudo.
A Tigresa - vamos chamá-la assim - me falou que o mal é bom. Ela, que foi o arauto da geração sexual de Janaúba. Pois há o antes e o depois de sua passagem naquelas terras gorutubanas. Coisa que a envaidece até hoje, onde quer que esteja. Não queria ser mensageira de nada. “Apenas me ame como se não houvesse amanhã”, repetia sempre, num sussurro, no ouvido, na hora do bembom. Quando falava de amor e desejo, a boca se mostrava macia, vermelha. “É nela que está o meu pensamento”, comentou certa vez, sem que lhe perguntasse nada. Mas foi direto ao ponto, daquele coração atrapalhado.
Uma vez, vejam vocês, logo depois de fazer um amor suado, daqueles de ais e uis, em que as garras da felina marcam o coração. Daqueles que a garganta fica seca, o peito sufocado. Onde se rasga a vida, se move montanhas. Daquele amor que só ela sabia fazer, cheio de cheiros, maldades e felicidade no final, crazy he call’s me, louca me chamam. Pois, depois de tudo, começou a falar sobre as idiossincrasias de sua geração, enquanto bebia, gole a gole, água mineral gasosa. Pois ela, a Tigresa, não bebia nada alcoólico. Nem fumava cigarro, baseado em leitura que fez numa revista Grande Hotel, que ele provocava câncer.
Seu único vício, e sabia, admitia, era amar. Seja na cama, no banco do carro, nas areias do rio Gorutuba, ou mesmo um cantinho mais escuro da Avenida do Comércio ou da Francisco Sá. Movimentada, pois era melhor. Mas não com qualquer um. Tinha que ser com alguém que merecesse seu coração, sua confiança. E foram poucos, muito poucos, naquela Janaúba que todos (e todas) a desejavam.
Falou-me sobre as dificuldades e os prazeres que as pessoas de sua idade tinham, numa cidade do interior dos anos 70, ligada a tudo e a nada ao mesmo tempo, sem asfalto, sem futuro, com luz desligada às dez da noite.
Quando a conheci parecia tímida, cabelo sobre os olhos. Mas era espalhafatosa. Falou-me que seus amantes foram tantos e tão poucos, que se contava nos dedos de uma mão. Eles hoje estão esmaecidos, invisíveis. São personagens concretos que perderam a nitidez.
Ela, não!
Continua a mulher sagrada, vaca profana, derramando la leche buena toda en mi garganta, la mala leche para los "puretas”. A vida, às vezes, tem um lado. A vida, às vezes, tem dois lados. Quando ela é sol ela é eclipse, e quando ela morre é que ela vive. E para esta Tigresa, de divinas tetas, amar demandava coragem, mas era uma visibilidade apenas prática.
Teve uma única experiência digamos, psicodélica, quando caiu de amores por um radialista e ao mesmo tempo namorava um italiano. Era tomada de amores, chegou a me confessar, e não tinha ciúmes se eles também caíssem de amores por outras. Ia para Montes Claros hospedar-se no Hotel Nacional ou no Sandy’s com um, ou viajava para a América do Norte ou Europa com outro. Eles também não tinham ciúmes um do outro. Coisa estranha para aqueles anos 70. Ou não! Mas como ficar com ciúmes dela, que era de um e de todos, louca de amor, que tinha a mágica entre as pernas?
Confessou-me que ficou doidona uma única vez – não falou de outras experiências. Foi com o peiote, cacto sagrado usado por índios da América do Norte, numa viagem com o italiano. Disse que a experiência foi boa, viu-se até a cavalgar um gigantesco pássaro-fóssil, mas que amar sem nada na cabeça era bem melhor. “A gente sente mais o pulsar do amor”.
Ela era uma poeta do amor. Fazia não amor, mas poesia com seus ais e uis, seus pelos pelo corpo, seu suor. Tinha um sorriso alegre. Era um sorriso que as invejosas chamavam de maligno. Mas que os homens achavam cativante. Nunca me disse ter lido ou saber quem era Olavo Bilac, Baudelaire ou T.S. Elliot. Nem Jorge Amado ou Fernando Sabino. Gostava de Nelson Gonçalves, que ouvia seu pai cantar. Vivera em grupo, mas isoladamente.
Para ela, pornografia é gostoso e sexo é bom. É como suco de maracujá e sorvete, disse. O sexo move as pessoas de forma que nenhuma outra coisa conseguiria. Ela gostava de fazer amor ciscando, cultivava esta mania de bordejar o corpo, um passarinho. Com aquele lado provocador, de arriscar, de flertar, de assumir posições de vanguarda. Confessou-me que foi feliz com alguns homens. Com outros, foi mulher.
Em casa, gostava de usar saia curta e camiseta branca, sempre molhada. Principalmente se estivessem ela e ele, sozinhos.
Seu jeito de amar, acredito, subverteu tudo que era feito até então e influenciou outras mulheres da sua terra. E olha que ela não era puta. Era apenas mulher.
Apaixonada por fazer amor.
Não sexo.
Não história.
Estórias.
Mas as nuvens escuras sempre aparecem sobre o céu das cidades. E um dia apareceram para ela.
E até o tapete, sem ela, voou...
Lá longe, toca “Solitude”... E parece que a cidade canta: Nesta solidão/
Imploro/
Para ver você/
E viver em paz...
Uma máquina do sexo. Assim pode-se definir aquela gorutubana do Rio Novo. E como sabia fazer bem feito. Acredito que tenha seduzido metade da cidade só com o olhar e aquelas palavras doce que saiam de sua boca. A metade rica, é bom dizer. A outra, ficou só na vontade de conhecê-la. Mas todos os homens (e mulheres) de Janaúba a desejavam. Bruna Surfistinha ali era aprendiz.
Exagerada!
Nos beijos, no doar, no amar. Este, fazia com satisfação e nunca se satisfazia completamente na cama. Tinha que cair e rolar pelo chão, tinha que dar-se em pé, encostada à porta, a parede, ou sentada na mesa da cozinha, esfregando a pele do seu corpo contra o...
Quando fazia amor, era o chão, sem o chão. Era a leoa no cio, a tigresa na dança do amor. Uma deusa. Gostava de ficar no comando. Mas, conforme o jeito, queria ser comandada. Alta, de uma beleza mais interna que externa, cabelos cobrindo o olhar, o que a deixava com ar fatal de artista de cinema dos anos 50.
Queria falar de tudo, queria fazer de tudo, experimentava posições kamasutranianas. Tanto que encomendou ao Marcos Caíres, na Papelaria Guimarães, uma edição do Kama Sutra. Não sei se foi buscar...
Assim era aquela tigresa, uma beleza que aconteceu em Janaúba dos anos 70. E como num romance desmilinguido, ela me contou com certeza tudo o que viveu. De perto, ninguém é normal, às vezes, segue em linha reta a vida, que é "meu bem, meu mal". Era ela. No mais, as "ramblas" do planeta "orchta de chufa, si us plau".
A história de HP com ela foi engraçada. A estória de AP com ela foi romântica. A estória e as histórias de CN com ela, ele guarda no peito até os dias de hoje.
Estórias e histórias, pois Rosa já nos alertara que a estória não quer ser história. São coisas diferentes. História é o tempo onde as coisas acontecidas não acontecem mais. A estória é o tempo onde coisas não acontecidas acontecem sempre. Abacaxi e pitanga não é a mesma coisa. Mas um morango com champanhe, esta escorrendo pelo corpo, melhora tudo.
A Tigresa - vamos chamá-la assim - me falou que o mal é bom. Ela, que foi o arauto da geração sexual de Janaúba. Pois há o antes e o depois de sua passagem naquelas terras gorutubanas. Coisa que a envaidece até hoje, onde quer que esteja. Não queria ser mensageira de nada. “Apenas me ame como se não houvesse amanhã”, repetia sempre, num sussurro, no ouvido, na hora do bembom. Quando falava de amor e desejo, a boca se mostrava macia, vermelha. “É nela que está o meu pensamento”, comentou certa vez, sem que lhe perguntasse nada. Mas foi direto ao ponto, daquele coração atrapalhado.
Uma vez, vejam vocês, logo depois de fazer um amor suado, daqueles de ais e uis, em que as garras da felina marcam o coração. Daqueles que a garganta fica seca, o peito sufocado. Onde se rasga a vida, se move montanhas. Daquele amor que só ela sabia fazer, cheio de cheiros, maldades e felicidade no final, crazy he call’s me, louca me chamam. Pois, depois de tudo, começou a falar sobre as idiossincrasias de sua geração, enquanto bebia, gole a gole, água mineral gasosa. Pois ela, a Tigresa, não bebia nada alcoólico. Nem fumava cigarro, baseado em leitura que fez numa revista Grande Hotel, que ele provocava câncer.
Seu único vício, e sabia, admitia, era amar. Seja na cama, no banco do carro, nas areias do rio Gorutuba, ou mesmo um cantinho mais escuro da Avenida do Comércio ou da Francisco Sá. Movimentada, pois era melhor. Mas não com qualquer um. Tinha que ser com alguém que merecesse seu coração, sua confiança. E foram poucos, muito poucos, naquela Janaúba que todos (e todas) a desejavam.
Falou-me sobre as dificuldades e os prazeres que as pessoas de sua idade tinham, numa cidade do interior dos anos 70, ligada a tudo e a nada ao mesmo tempo, sem asfalto, sem futuro, com luz desligada às dez da noite.
Quando a conheci parecia tímida, cabelo sobre os olhos. Mas era espalhafatosa. Falou-me que seus amantes foram tantos e tão poucos, que se contava nos dedos de uma mão. Eles hoje estão esmaecidos, invisíveis. São personagens concretos que perderam a nitidez.
Ela, não!
Continua a mulher sagrada, vaca profana, derramando la leche buena toda en mi garganta, la mala leche para los "puretas”. A vida, às vezes, tem um lado. A vida, às vezes, tem dois lados. Quando ela é sol ela é eclipse, e quando ela morre é que ela vive. E para esta Tigresa, de divinas tetas, amar demandava coragem, mas era uma visibilidade apenas prática.
Teve uma única experiência digamos, psicodélica, quando caiu de amores por um radialista e ao mesmo tempo namorava um italiano. Era tomada de amores, chegou a me confessar, e não tinha ciúmes se eles também caíssem de amores por outras. Ia para Montes Claros hospedar-se no Hotel Nacional ou no Sandy’s com um, ou viajava para a América do Norte ou Europa com outro. Eles também não tinham ciúmes um do outro. Coisa estranha para aqueles anos 70. Ou não! Mas como ficar com ciúmes dela, que era de um e de todos, louca de amor, que tinha a mágica entre as pernas?
Confessou-me que ficou doidona uma única vez – não falou de outras experiências. Foi com o peiote, cacto sagrado usado por índios da América do Norte, numa viagem com o italiano. Disse que a experiência foi boa, viu-se até a cavalgar um gigantesco pássaro-fóssil, mas que amar sem nada na cabeça era bem melhor. “A gente sente mais o pulsar do amor”.
Ela era uma poeta do amor. Fazia não amor, mas poesia com seus ais e uis, seus pelos pelo corpo, seu suor. Tinha um sorriso alegre. Era um sorriso que as invejosas chamavam de maligno. Mas que os homens achavam cativante. Nunca me disse ter lido ou saber quem era Olavo Bilac, Baudelaire ou T.S. Elliot. Nem Jorge Amado ou Fernando Sabino. Gostava de Nelson Gonçalves, que ouvia seu pai cantar. Vivera em grupo, mas isoladamente.
Para ela, pornografia é gostoso e sexo é bom. É como suco de maracujá e sorvete, disse. O sexo move as pessoas de forma que nenhuma outra coisa conseguiria. Ela gostava de fazer amor ciscando, cultivava esta mania de bordejar o corpo, um passarinho. Com aquele lado provocador, de arriscar, de flertar, de assumir posições de vanguarda. Confessou-me que foi feliz com alguns homens. Com outros, foi mulher.
Em casa, gostava de usar saia curta e camiseta branca, sempre molhada. Principalmente se estivessem ela e ele, sozinhos.
Seu jeito de amar, acredito, subverteu tudo que era feito até então e influenciou outras mulheres da sua terra. E olha que ela não era puta. Era apenas mulher.
Apaixonada por fazer amor.
Não sexo.
Não história.
Estórias.
Mas as nuvens escuras sempre aparecem sobre o céu das cidades. E um dia apareceram para ela.
E até o tapete, sem ela, voou...
Lá longe, toca “Solitude”... E parece que a cidade canta: Nesta solidão/
Imploro/
Para ver você/
E viver em paz...
Havia um sonho em cada estrada...
Olhando os livros na vitrine de Miguel de seu Ducho, eis a surpresa de encontrar o CD de Luis Guedes & Thomas Roth. Com seus dois vinis. Coisa rara! Eu ainda os tenho (os elepês) guardado em casa e no coração. Afinal, havia um sonho em cada estrela e, em cada rua, uma lua, como nos lembrava Luiz Guedes em “Bons Tempos”, uma das suas parcerias mais tristes com Thomas Roth. Naquele tempo, em que a doença ainda não havia manifestado em Lulu, ele cantava amigos todo tempo, pois havia tempo e havia amigos. Eram outros os perigos.
Ser livre era sagrado, era direito, era um jogo seguro. Mas tudo tem seu tempo certo. Carlos Drummond de Andrade já teria escrito que havia jardins, havia manhãs naquele tempo. Lembro quando o montes-clarense Luis Guedes, Lulu, voltou para sua cidade quando já não havia jardins, manhãs, lua em cada rua. Doente, fazia seu tratamento calado. O primo Beto chegou a se manifestar em um show solidário, para o então solitário Lulu. Os tempos dos “Heremitas” havia passado. O cine teatro Fátima tinha virado casa de jogo, depois casas Bahia. As tardes de domingo, no Automóvel Clube, haviam ficado para outro tempo.
Foi assim que Lulu virou estrela no céu, como dizem os índios quando alguém morre. Lembro ainda hoje: desencantou-se numa terça-feira, em Belo Horizonte. Um dia depois, na sua terra, onde seu corpo passou as últimas horas na galeria que leva o nome do seu tio, Godofredo Guedes, descia ao jazigo, sem o som dos “Heremitas”. Era enterrado quase despercebido pela cidade que, lá fora, vira, pouco a pouco, metrópole, e não tem tempo para os filhos teus que não fogem a luta. E o povo, pouco a pouco, vai esquecendo... Mas havia um sonho em cada estrada.
Por meses a fio, em 1981, uma canção não desgrudava dos rádios. Era “Canção de Verão”, uma celebração da estação quente que estava por vir e, sobretudo, uma apologia à vida, tornada famosa pelo Roupa Nova. Foi a primeira vez que Luiz Guedes - com a parceira de Thomas Roth - saboreou a fama. “Canção de Verão” tornou-se uma das músicas mais executadas do país, com aquele refrão instantâneamente reconhecível, aquela melodia correta e uma letra direta, arrematando de maneira irreversível a popularização da dupla de compositores. Esse processo já havia sido iniciado por “Nova Estação”, música com a qual concorreu ao MPB-80 e que foi a de maior execução pós-festival. Acabou sendo regravada por Elis Regina. Eles também alimentaram Emílio Santiago, que gravou “Mais uma Vez”.
Mas estancava ali, naquele sol de verão de 1981, o momento em que Lulu e Roth utilizavam terceiros como veículo de sua música costurada cuidadosamente com melodias e harmonias ricas, de letra simples na medida exata, de vocalises borjudos. Faltava à dupla gravar um disco seu, onde expusessem o terreno de ação da arte que emprestavam a outros em sua plenitude.
“Canto Matinal” foi o compacto de 1981, com arranjo de Wagner Tiso, e “Como Nunca”, que recebeu o arranjo de Cláudio Burnier. Esta havia sido gravada no álbum “Sol de Primavera”, pelo primo Beto Guedes. Mas o compacto não detonou satisfatoriamente a curiosidade do público. Lulu e Roth já eram, de fato e direito, prediletos dos intérpretes e, como tal, ressentiam-se da falta de exposição maior ao público. Por isso, chegou “Extra”, que remediou o problema. Foi um disco onde ficou bem clara a expertise da dupla para garimpar melodias tão ricas quanto suas harmonias, ao mesmo tempo fáceis de guardar e de nuances que se alteram entre o dramático, o romântico e o celebratório.
Dele, outros sonhos se passaram. E num país em que, geralmente, os compositores excepcionais costumam virar intérpretes medíocres, Luis Guedes e Thomas Roth foram gemas raras, odaras. O que, a bem da verdade, não chega a ser uma qualidade inesperada, traçados os precedentes da dupla: a teimosia e a incansabilidade sempre foram suas características.
Mas passou-se o tempo, como o tempo sempre passa. No início da década de 1990, Lulu retornou à Montes Claros. Da infância, a lembrança da ZYD-7, da qual era ouvinte assíduo. Agora, novas emissoras no ar, novas tendências, o progresso.
Lulu se acostumou à música desde cedo, fosse ela proveniente da imponente presença de Luiz Gonzaga - que o pai o levou para ver ao vivo, certa vez - das incontáveis serenatas que presenciou, vendo os regionais amadores em que tocavam o pai e o tio, ou das festas de rua, como folias de rei, quadrilhas juninas e festas de agosto. Ele adorava música de acordeon.
Porém, só bem mais tarde consideraria uma carreira em música, no momento em que conheceu Adson, garoto como ele, que dividia seus dias entre o trabalho numa mercearia e uma incurável paixão pelos Beatles. Foi o estopim de tudo. Os dois tornaram-se inseparáveis e a amizade gerou mais de 100 músicas, todas inéditas. Também foi a conta para que Lulu comprasse uma guitarra Phelpa e alistasse no grupo de baile “Os Heremitas”, especialistas em covers de sucessos do grupo inglês - quem mais? - Herman’s Hermits. Inchava o ego de Lulu, em tenros 16 anos, ver multidões ovacionando sua versão de “Listen, People”.
Pressionado pela família, viu-se obrigado a tentar o vestibular - primeiro, para Direito, depois, para Administração de Empresas - em São Paulo, cidade que essa parte da família Guedes havia adotado ao deixa Belo Horizonte para acompanhar a filha mais velha, universitária.
Distante de Adson, o único a seduzí-lo para longe das universidades e de volta à música era o primo Beto que, ainda assim, permanecera em Beagá. Foi quando, empregado a contragosto numa empresa de mudanças, Lulu conheceu Thomas Roth, filho de pais alemães, carioca transplantado ainda bebê para a terra da garoa. Mas o primeiro disco da dupla - ou mesmo uma apresentação conjunta - custou acontecer.
Thomas chegou primeiro ao estúdio, gravando uma faixa do álbum Mambembe, do qual participaram ainda os novatos Ednardo, Amelinha, Belchior e Cirino. Depois, veio “Manchetes” e “Quero”. Elis Regina ouviu esta última, gostou e a incluiu no antológico “Falso Brilhante”. Como dupla, o início foi no palco do MPB-80, com “Nova Estação”. Daí pra cá, você já sabe...
Ser livre era sagrado, era direito, era um jogo seguro. Mas tudo tem seu tempo certo. Carlos Drummond de Andrade já teria escrito que havia jardins, havia manhãs naquele tempo. Lembro quando o montes-clarense Luis Guedes, Lulu, voltou para sua cidade quando já não havia jardins, manhãs, lua em cada rua. Doente, fazia seu tratamento calado. O primo Beto chegou a se manifestar em um show solidário, para o então solitário Lulu. Os tempos dos “Heremitas” havia passado. O cine teatro Fátima tinha virado casa de jogo, depois casas Bahia. As tardes de domingo, no Automóvel Clube, haviam ficado para outro tempo.
Foi assim que Lulu virou estrela no céu, como dizem os índios quando alguém morre. Lembro ainda hoje: desencantou-se numa terça-feira, em Belo Horizonte. Um dia depois, na sua terra, onde seu corpo passou as últimas horas na galeria que leva o nome do seu tio, Godofredo Guedes, descia ao jazigo, sem o som dos “Heremitas”. Era enterrado quase despercebido pela cidade que, lá fora, vira, pouco a pouco, metrópole, e não tem tempo para os filhos teus que não fogem a luta. E o povo, pouco a pouco, vai esquecendo... Mas havia um sonho em cada estrada.
Por meses a fio, em 1981, uma canção não desgrudava dos rádios. Era “Canção de Verão”, uma celebração da estação quente que estava por vir e, sobretudo, uma apologia à vida, tornada famosa pelo Roupa Nova. Foi a primeira vez que Luiz Guedes - com a parceira de Thomas Roth - saboreou a fama. “Canção de Verão” tornou-se uma das músicas mais executadas do país, com aquele refrão instantâneamente reconhecível, aquela melodia correta e uma letra direta, arrematando de maneira irreversível a popularização da dupla de compositores. Esse processo já havia sido iniciado por “Nova Estação”, música com a qual concorreu ao MPB-80 e que foi a de maior execução pós-festival. Acabou sendo regravada por Elis Regina. Eles também alimentaram Emílio Santiago, que gravou “Mais uma Vez”.
Mas estancava ali, naquele sol de verão de 1981, o momento em que Lulu e Roth utilizavam terceiros como veículo de sua música costurada cuidadosamente com melodias e harmonias ricas, de letra simples na medida exata, de vocalises borjudos. Faltava à dupla gravar um disco seu, onde expusessem o terreno de ação da arte que emprestavam a outros em sua plenitude.
“Canto Matinal” foi o compacto de 1981, com arranjo de Wagner Tiso, e “Como Nunca”, que recebeu o arranjo de Cláudio Burnier. Esta havia sido gravada no álbum “Sol de Primavera”, pelo primo Beto Guedes. Mas o compacto não detonou satisfatoriamente a curiosidade do público. Lulu e Roth já eram, de fato e direito, prediletos dos intérpretes e, como tal, ressentiam-se da falta de exposição maior ao público. Por isso, chegou “Extra”, que remediou o problema. Foi um disco onde ficou bem clara a expertise da dupla para garimpar melodias tão ricas quanto suas harmonias, ao mesmo tempo fáceis de guardar e de nuances que se alteram entre o dramático, o romântico e o celebratório.
Dele, outros sonhos se passaram. E num país em que, geralmente, os compositores excepcionais costumam virar intérpretes medíocres, Luis Guedes e Thomas Roth foram gemas raras, odaras. O que, a bem da verdade, não chega a ser uma qualidade inesperada, traçados os precedentes da dupla: a teimosia e a incansabilidade sempre foram suas características.
Mas passou-se o tempo, como o tempo sempre passa. No início da década de 1990, Lulu retornou à Montes Claros. Da infância, a lembrança da ZYD-7, da qual era ouvinte assíduo. Agora, novas emissoras no ar, novas tendências, o progresso.
Lulu se acostumou à música desde cedo, fosse ela proveniente da imponente presença de Luiz Gonzaga - que o pai o levou para ver ao vivo, certa vez - das incontáveis serenatas que presenciou, vendo os regionais amadores em que tocavam o pai e o tio, ou das festas de rua, como folias de rei, quadrilhas juninas e festas de agosto. Ele adorava música de acordeon.
Porém, só bem mais tarde consideraria uma carreira em música, no momento em que conheceu Adson, garoto como ele, que dividia seus dias entre o trabalho numa mercearia e uma incurável paixão pelos Beatles. Foi o estopim de tudo. Os dois tornaram-se inseparáveis e a amizade gerou mais de 100 músicas, todas inéditas. Também foi a conta para que Lulu comprasse uma guitarra Phelpa e alistasse no grupo de baile “Os Heremitas”, especialistas em covers de sucessos do grupo inglês - quem mais? - Herman’s Hermits. Inchava o ego de Lulu, em tenros 16 anos, ver multidões ovacionando sua versão de “Listen, People”.
Pressionado pela família, viu-se obrigado a tentar o vestibular - primeiro, para Direito, depois, para Administração de Empresas - em São Paulo, cidade que essa parte da família Guedes havia adotado ao deixa Belo Horizonte para acompanhar a filha mais velha, universitária.
Distante de Adson, o único a seduzí-lo para longe das universidades e de volta à música era o primo Beto que, ainda assim, permanecera em Beagá. Foi quando, empregado a contragosto numa empresa de mudanças, Lulu conheceu Thomas Roth, filho de pais alemães, carioca transplantado ainda bebê para a terra da garoa. Mas o primeiro disco da dupla - ou mesmo uma apresentação conjunta - custou acontecer.
Thomas chegou primeiro ao estúdio, gravando uma faixa do álbum Mambembe, do qual participaram ainda os novatos Ednardo, Amelinha, Belchior e Cirino. Depois, veio “Manchetes” e “Quero”. Elis Regina ouviu esta última, gostou e a incluiu no antológico “Falso Brilhante”. Como dupla, o início foi no palco do MPB-80, com “Nova Estação”. Daí pra cá, você já sabe...
Há um ladrão na janela, onde antes estava Carolina
Ainda estou tentando desvendar o que é Montes Claros, minha terra.
Primeiro, é necessário saber que Montes Claros são muitas. Dentre uma.
Só de aniversário, comemora três no ano:
12 de Abril, quando Antônio Gonçalves Figueira obteve por Alvará a sesmaria da fazenda dos Montes Claros. Já fizemos 300 anos.
3 de Julho, quando a Vila de Montes Claros de Formigas foi elevada à categoria de Cidade. Já passamos dos 150 anos.
E 16 de Outubro, quando foi instalada a Vila de Montes Claros de Formigas, e emancipada administrativa e politicamente, ganhando vida própria. Os 175 anos ficaram para trás.
Segundo, é necessário dizer que Montes Claros é a melhor cidade do mundo. Depois, bem depois mesmo, vem Paris. E aí sim, Janaúba. Como não disse Otto Lara Rezende (mas poderia), Montes Claros está onde sempre esteve.
Nem tanto tempo assim se passou, e as coisas mudaram tanto por aqui. No Todos os Santos mesmo, tinha uma várzea. Uma não, várias várzeas, já que os santos são tantos. E o rio Pai João, onde nadei com amigos e meninos piaba, já não é mais Pai. Nem... rio!
Onde hoje é a Unimontes, quantas vezes atolei meu pé na lama... Quantas vezes nadamos naquela piscina da antiga fazenda de Dr. Santos, onde anos depois os japoneses Manoel e Joaquim fizeram, ao lado, o Categute. E a água acumulada ali, era de chuva. Tínhamos campinhos de futebol naquelas várzeas do hoje Todos os Santos. Perto da casa de José Mário de Araújo - comerciante de casos e causos vários -, ficava o campinho oficial, que só acabou porque foi construído o Orbis Clube. Por ali, além da meninada, passaram alguns mais velhos novos: Carlão, Zé Quintiliano, Carlos Curiango, Rays, Zé César Vasconcelos, Marquinho Loiro, Márcio Hiram, Jerônimo da Padaria. E os meninos de seu Mário. Todos cheiinhos, como ele. O DNH estava na cara. Quantos gols fizeram ali. Quantas peladas, quantos dedões quebrados. Quantas bicudas dadas em tantas bolas.
Eu não sou um cara tão antigo assim não. Posso até parecer. Ta certo, era final dos anos de 1960. O campo dos seminaristas, na Irmã Beata, ainda era campo nosso, embora diminuindo pouco a pouco. Se as chuvas enchessem a piscina do seminário, na Coronel Prates, estávamos lá a nadar, sem importar em pegar doença ou não. Se o tempo não era de chuva, a piscina estava seca ou com água verde demais, era então hora de futebol sobre os paralelepípedos da Coronel Prates. Braço no gesso, dente partido, joelho ralado, cabeça lascada... dedão sangramdo! Êta coisa boa era ser criança naquele tempo!
Hoje, ficam enfurnados em casa, com seus playstations, nintendo, buscas na internet. Não sobem no pé de manga, não chupam a manga e deixa escorrer pelo canto da boca, nem andam de bicicleta por medo.
Já gostei muito de passear a pé pela cidade, alheio a carros, pressa ou medo de assalto. Andava a pé ou de bicicleta, andava pelo São Judas, São João, pela Malhada. Ia pro lado do parque Milton Prates. Acampava onde hoje está o parque do Sapucaia. A gente seguia uma trilha, subia pelo rio, tomava banho de cachoeira. É, existia cachoeira naquele tempo. Existia a ‘“Lajinha”, “Melo”, “Carrapatos”, onde um ou outro ainda levava uma menina da zona.
Existiam zonas naquele tempo, com donas amantes e mal amadas. Quanta gente não teve sua iniciação naquelas mulheres, algumas gordas, de peitos e quadris largos, que mexiam e até fingiam gozar. Ainda era tempo, naquele tempo, de ir para o Colégio São José passando ao lado da zona da Rua Padre Augusto. Os motores da Cemig trabalham a óleo diesel. E tinha gente que via fantasmas, ao meio-dia, andando pelo local onde antes existia um cemitério.
Como Montes Claros já teve zona. E putas!
O Wanderlino Arruda lembra, bem lembrado, que, nos anos do cassino, do Clube Minas Gerais, eram 3.000 as meninas. Fichadas. O tempo da ficha passou. Mas elas continuaram existindo. Hoje, devem ser bem mais. Só que, a maioria, vive ao nosso lado, no dia-a-dia. Poucas são aquelas que ainda ficam na zona. São as modernidades...
Quando a cidade completou seus 150 (175? 300?) anos da cidade, houve lista de homenagem. Mas faltou a lista das 150 putas. Ou donas de puteiros. Ali poderiam estar Leobina, Etelvina, Maria de Belo, Maria Cudeferro.
Também Anália, Sara Batalhão, Rosinha, Verona, Petró (Petrolina), Roxa (dona Eudóxia), Joana do Esplanada, Jésus e Maria Comodoro.
Na lista não podiam faltar Zinha, Belinha Gorda, Irene, Vera da Vila Ipiranga, Edna, Almira, Rita do Ceará, Terezinha do Manchester, Joana e Kássia Loura.
E Maria Flor de Maio, com sua ternura? E Tiana, generosa, inteligente, articulada? Abrindo caminho, ainda hoje, para a puta cidadã.
Foram esquecidas naquele ano, de tantas comemorações. Tão esquecidas que, dia destes, no gabinete do prefeito, durante a solenidade dos 175 anos da cidade, o escritor Wanderlino Arruda lembrou do entorno da praça da estação ferroviária. Lembrou de tudo, da cultura, da vivência, da sapiência das pessoas. Menos das putas que ali transitam diariamente. E ainda passam...
Tantas e tontas, frequentam os bares da região e até fazem ponto no forrozão às quintas e sábados. Os antigos hotéis ali viraram o quê? Motéis? Precisam sobreviver...
A escritora Raquel Mendonça, feminista, não deve gostar muito quando se toca nisso. Mas deve gostar quando se defende a mulher, seja qual a profissão escolhida. Sim, Raquel, a cidade continua tendo suas putas. De preferência, são poucas. Embora tantas e tontas. Reconhecidas pelo Ministério do Trabalho. No Censo do IBGE de 2010, com certeza, foram contadas. Saberemos quantas putas temos. Embora muitas, principalmente estas que andam ao nosso lado, queiram responder e vão dizer que são de outra profissão. E puta, Raquel, é uma das palavras mais sonoras, vigorosas, malditas e belas da nossa língua. O Houaiss mostra que ela é rica em sinônimos – 127 ao todo. Lembra Roberto Pompeu de Toledo, que ela reina com autoridade para expressar o que expressa.
Por que não homenageá-las nesta Montes Claros que perde o vínculo com seu passado? Nesses novos tempos que começam?
Bom lembrar que ser mulher “da vida” é bem melhor do que ser mulher “da morte”. Ainda mais hoje, que nossa cidade não se tem lugar nem para amarrar nosso burro! Montes Claros paga alto o preço de sua expansão. Inchada, virou a cidade dos desafios. Nos anos 1960, éramos pouco mais 50 mil almas. Hoje, estamos chegando aos 400 mil. Um assombro para quem, como eu, relembra a pacata cidade com bate-papos animados nas calçadas, serestas sob sacadas, gente subindo e descendo a Dr. Santos nas noites que continuam cada vez mais quentes de primavera. E nenhuma favela, é bom lembrar.
Como mostra a Gal Bernardo naquela apresentação que me mandou, a pé ou de bicicleta, íamos à casa dos nossos amigos, mesmo que morassem distantes de nossa casa. Entrávamos sem bater e íamos brincar. Faz isso hoje! A vida real é diferente nos tempos de agora. Na vida real de agora, quando muito, há um assassino triste e doente de idolatria que espera nas sombras o objeto do seu amor torto para lhe dar uma dúbia e dolorosa morte.
Há um traficante na esquina, onde deveria haver um grupo de amigos e um violão.
Há um ladrão na janela, onde antes estava Carolina, e ainda se via a banda passar.
Onde Peter Pan saía voando, ouve-se um tiro, um grito, um desabafo.
Há um choro incontido, embora poucos percebam.
Às vezes é patético o outono de uma cidade. Embora saibamos que cidades não são como nós. Não têm outonos.
Às vezes é bonito. A sobrevivência é uma arte, e temos quem amá-la.
Qualquer que seja o pesadelo que tenhamos, nele sempre representamos um papel, sempre somos protagonistas, somos alguém.
Durante a noite, o deserdado triunfa.
Se os maus sonhos fossem suprimidos, haveria revolução em série.
O mundo não é feito de novo. Pensar nisso como uma promessa é o que alimenta o espírito e faz nascer o futuro. Mas a ironia é que a gente só vê isso quando já está muito longe.
Primeiro, é necessário saber que Montes Claros são muitas. Dentre uma.
Só de aniversário, comemora três no ano:
12 de Abril, quando Antônio Gonçalves Figueira obteve por Alvará a sesmaria da fazenda dos Montes Claros. Já fizemos 300 anos.
3 de Julho, quando a Vila de Montes Claros de Formigas foi elevada à categoria de Cidade. Já passamos dos 150 anos.
E 16 de Outubro, quando foi instalada a Vila de Montes Claros de Formigas, e emancipada administrativa e politicamente, ganhando vida própria. Os 175 anos ficaram para trás.
Segundo, é necessário dizer que Montes Claros é a melhor cidade do mundo. Depois, bem depois mesmo, vem Paris. E aí sim, Janaúba. Como não disse Otto Lara Rezende (mas poderia), Montes Claros está onde sempre esteve.
Nem tanto tempo assim se passou, e as coisas mudaram tanto por aqui. No Todos os Santos mesmo, tinha uma várzea. Uma não, várias várzeas, já que os santos são tantos. E o rio Pai João, onde nadei com amigos e meninos piaba, já não é mais Pai. Nem... rio!
Onde hoje é a Unimontes, quantas vezes atolei meu pé na lama... Quantas vezes nadamos naquela piscina da antiga fazenda de Dr. Santos, onde anos depois os japoneses Manoel e Joaquim fizeram, ao lado, o Categute. E a água acumulada ali, era de chuva. Tínhamos campinhos de futebol naquelas várzeas do hoje Todos os Santos. Perto da casa de José Mário de Araújo - comerciante de casos e causos vários -, ficava o campinho oficial, que só acabou porque foi construído o Orbis Clube. Por ali, além da meninada, passaram alguns mais velhos novos: Carlão, Zé Quintiliano, Carlos Curiango, Rays, Zé César Vasconcelos, Marquinho Loiro, Márcio Hiram, Jerônimo da Padaria. E os meninos de seu Mário. Todos cheiinhos, como ele. O DNH estava na cara. Quantos gols fizeram ali. Quantas peladas, quantos dedões quebrados. Quantas bicudas dadas em tantas bolas.
Eu não sou um cara tão antigo assim não. Posso até parecer. Ta certo, era final dos anos de 1960. O campo dos seminaristas, na Irmã Beata, ainda era campo nosso, embora diminuindo pouco a pouco. Se as chuvas enchessem a piscina do seminário, na Coronel Prates, estávamos lá a nadar, sem importar em pegar doença ou não. Se o tempo não era de chuva, a piscina estava seca ou com água verde demais, era então hora de futebol sobre os paralelepípedos da Coronel Prates. Braço no gesso, dente partido, joelho ralado, cabeça lascada... dedão sangramdo! Êta coisa boa era ser criança naquele tempo!
Hoje, ficam enfurnados em casa, com seus playstations, nintendo, buscas na internet. Não sobem no pé de manga, não chupam a manga e deixa escorrer pelo canto da boca, nem andam de bicicleta por medo.
Já gostei muito de passear a pé pela cidade, alheio a carros, pressa ou medo de assalto. Andava a pé ou de bicicleta, andava pelo São Judas, São João, pela Malhada. Ia pro lado do parque Milton Prates. Acampava onde hoje está o parque do Sapucaia. A gente seguia uma trilha, subia pelo rio, tomava banho de cachoeira. É, existia cachoeira naquele tempo. Existia a ‘“Lajinha”, “Melo”, “Carrapatos”, onde um ou outro ainda levava uma menina da zona.
Existiam zonas naquele tempo, com donas amantes e mal amadas. Quanta gente não teve sua iniciação naquelas mulheres, algumas gordas, de peitos e quadris largos, que mexiam e até fingiam gozar. Ainda era tempo, naquele tempo, de ir para o Colégio São José passando ao lado da zona da Rua Padre Augusto. Os motores da Cemig trabalham a óleo diesel. E tinha gente que via fantasmas, ao meio-dia, andando pelo local onde antes existia um cemitério.
Como Montes Claros já teve zona. E putas!
O Wanderlino Arruda lembra, bem lembrado, que, nos anos do cassino, do Clube Minas Gerais, eram 3.000 as meninas. Fichadas. O tempo da ficha passou. Mas elas continuaram existindo. Hoje, devem ser bem mais. Só que, a maioria, vive ao nosso lado, no dia-a-dia. Poucas são aquelas que ainda ficam na zona. São as modernidades...
Quando a cidade completou seus 150 (175? 300?) anos da cidade, houve lista de homenagem. Mas faltou a lista das 150 putas. Ou donas de puteiros. Ali poderiam estar Leobina, Etelvina, Maria de Belo, Maria Cudeferro.
Também Anália, Sara Batalhão, Rosinha, Verona, Petró (Petrolina), Roxa (dona Eudóxia), Joana do Esplanada, Jésus e Maria Comodoro.
Na lista não podiam faltar Zinha, Belinha Gorda, Irene, Vera da Vila Ipiranga, Edna, Almira, Rita do Ceará, Terezinha do Manchester, Joana e Kássia Loura.
E Maria Flor de Maio, com sua ternura? E Tiana, generosa, inteligente, articulada? Abrindo caminho, ainda hoje, para a puta cidadã.
Foram esquecidas naquele ano, de tantas comemorações. Tão esquecidas que, dia destes, no gabinete do prefeito, durante a solenidade dos 175 anos da cidade, o escritor Wanderlino Arruda lembrou do entorno da praça da estação ferroviária. Lembrou de tudo, da cultura, da vivência, da sapiência das pessoas. Menos das putas que ali transitam diariamente. E ainda passam...
Tantas e tontas, frequentam os bares da região e até fazem ponto no forrozão às quintas e sábados. Os antigos hotéis ali viraram o quê? Motéis? Precisam sobreviver...
A escritora Raquel Mendonça, feminista, não deve gostar muito quando se toca nisso. Mas deve gostar quando se defende a mulher, seja qual a profissão escolhida. Sim, Raquel, a cidade continua tendo suas putas. De preferência, são poucas. Embora tantas e tontas. Reconhecidas pelo Ministério do Trabalho. No Censo do IBGE de 2010, com certeza, foram contadas. Saberemos quantas putas temos. Embora muitas, principalmente estas que andam ao nosso lado, queiram responder e vão dizer que são de outra profissão. E puta, Raquel, é uma das palavras mais sonoras, vigorosas, malditas e belas da nossa língua. O Houaiss mostra que ela é rica em sinônimos – 127 ao todo. Lembra Roberto Pompeu de Toledo, que ela reina com autoridade para expressar o que expressa.
Por que não homenageá-las nesta Montes Claros que perde o vínculo com seu passado? Nesses novos tempos que começam?
Bom lembrar que ser mulher “da vida” é bem melhor do que ser mulher “da morte”. Ainda mais hoje, que nossa cidade não se tem lugar nem para amarrar nosso burro! Montes Claros paga alto o preço de sua expansão. Inchada, virou a cidade dos desafios. Nos anos 1960, éramos pouco mais 50 mil almas. Hoje, estamos chegando aos 400 mil. Um assombro para quem, como eu, relembra a pacata cidade com bate-papos animados nas calçadas, serestas sob sacadas, gente subindo e descendo a Dr. Santos nas noites que continuam cada vez mais quentes de primavera. E nenhuma favela, é bom lembrar.
Como mostra a Gal Bernardo naquela apresentação que me mandou, a pé ou de bicicleta, íamos à casa dos nossos amigos, mesmo que morassem distantes de nossa casa. Entrávamos sem bater e íamos brincar. Faz isso hoje! A vida real é diferente nos tempos de agora. Na vida real de agora, quando muito, há um assassino triste e doente de idolatria que espera nas sombras o objeto do seu amor torto para lhe dar uma dúbia e dolorosa morte.
Há um traficante na esquina, onde deveria haver um grupo de amigos e um violão.
Há um ladrão na janela, onde antes estava Carolina, e ainda se via a banda passar.
Onde Peter Pan saía voando, ouve-se um tiro, um grito, um desabafo.
Há um choro incontido, embora poucos percebam.
Às vezes é patético o outono de uma cidade. Embora saibamos que cidades não são como nós. Não têm outonos.
Às vezes é bonito. A sobrevivência é uma arte, e temos quem amá-la.
Qualquer que seja o pesadelo que tenhamos, nele sempre representamos um papel, sempre somos protagonistas, somos alguém.
Durante a noite, o deserdado triunfa.
Se os maus sonhos fossem suprimidos, haveria revolução em série.
O mundo não é feito de novo. Pensar nisso como uma promessa é o que alimenta o espírito e faz nascer o futuro. Mas a ironia é que a gente só vê isso quando já está muito longe.
Lendas (lendas?) urbanas ou não
Meu filho Junior é que conta a história. Nos banheiros das escolas por onde passou – agora está na Escola Estadual Gonçalves Chaves -, mora uma fantasma. É conhecida pelos alunos de “loira do banheiro”.
Para chamá-la, existem várias maneiras. Uma delas é levar para o banheiro um fio de cabelo loiro, jogá-lo no vaso e dar três descargas.
Outra é dar três descargas, três chutes no vaso, e falar três palavrões. Mas tem que ser palavrão daqueles grandes. Ai ela aparece.
Às vezes mata as crianças. Às vezes não aparece. E outras vezes, ainda, os meninos mentem que a viram e saíram correndo.
Uma vez, sua turma do Gonça queria ver se existia mesmo a loira do banheiro. Fizeram o ritual, mas seu amigo Darley foi primeiro e saiu correndo, antes de terminar. Ninguém – e eram sete – ficou pra ver a moça. Se é que ela apareceu...
Isto, em pleno centro de Montes Claros.
Pior é a loira da internet. Conta-se que após um jovem baixar um arquivo e começar a conversar com a tal loira, ela manifestou todo o seu mal e ele não conseguiu parar de conversar com a tal moça. Acredito que muitas crianças e adolescente que conhecem a lenda ficaram com medo, e pensam aionda hoje duas vezes antes de começar a conversar com qualquer garota na internet. Principalmente se ela for loira…
Este é um dos delírios urbanos que acometem, vez por outra, a nossa imaginação.
Parece não ter sido à toa o porque de Franz Kafka se basear em parábolas, lendas e mitos para escrever narrativas em que aparecia o absurdo e as armadilhas do poder. As lendas, urbanas ou não, por mais simples que pareçam, contém uma carga de contundência e denúncia, que a reflexão crítica às vezes mal consegue roçar.
Ruth Tupinambá conta, no livro “Montes Claros Era Assim”, que as crianças pintavam e faziam traquinagens durante o dia e a mãe sempre dizia que, à noite, elas veriam o lobisomem. “Ele sempre aparece aos meninos mal criados e desobedientes, vocês vão ver!” Na hora de dormir, o arrependimento e o remorso vinham quando se lembravam da “profecia”. Para dormir, o melhor era cobrir até a cabeça com o cobertor, e ficar suando as bicas. O coração apressado, o silêncio da noite... Qualquer barulho era assombração: alma de outro mundo, lobisomem, mula-sem-cabeça. Será Ventura - aquele mendigo de dentes amarelos e grandes -, que virava lobisomem?
De tempos em tempos, uma lenda urbana aparece. Como uma cobra escondida numa inocente piscina de bolinhas que mordeu uma criança, que ninguém sabe quem é e nenhum hospital recebeu. O fantasma do guarda noturno que aparece, ainda hoje, no Colégio São José, olhando se as portas estão trancadas. As balinhas com drogas distribuídas para as crianças nas escolas. Ou aquela do amigo da minha sobrinha que falou que tinha um carro preto no bairro roubando crianças. Pior, ele garantiu que isso tinha acontecido com o filho de um vizinho dele...
A internet e até mesmo a imprensa ajudam a disseminar estas lendas. Por aqui, tivemos a mulher de sete metros, que assustava os moradores no final da linha de lotação do Morada do Parque. A estória de João Carlos Queiroz é até hoje vivida no “Festival Folclórico”, durante as festas de agosto.
Em Janaúba, eu e o jornalista Benjamin Oliveira Junior descobrimos a história de uma serpente que passou perto de uma casa, no distante ano da grande seca, 1939. Com depoimentos de moradores, histórias de pescadores e fatos reais, foi criado o monstro do Bico da Pedra, uma espécie de primo distante do monstro do Lago Ness, da Escócia. Pois depois que a história foi publicada no jornal Estado de Minas, muita gente jura que viu o danado. Tem gente que faz campana no lago até hoje.
Na subida da serra de Francisco Sá existia a moça de branco, que deve ter migrado da subida da serra de Montes Claros para Bocaiuva.
Em 1938, os Estados Unidos entraram em pânico ao ouvir no rádio que a Terra estava sendo invadida por aliens. Mas era só o cineasta Orson Welles lendo um trecho do romance “A Guerra dos Mundos”, de H.G.Wells.
Discos prateados rodopiando pelo cosmo, luzes alucinadas, texturas estranhas. É perfeitamente racional supor que há vida inteligente fora da Terra. Ainda não há provas. Erich Von D’aniken, autor do “Eram os Deuses Astronautas?”, afirmou que os extraterrestres já estiveram no nosso mundo. E há evidências. Uma delas seriam as pirâmides do Egito.
Nossa história é cheia de lendas, urbanas ou não. Tem o Caipora (ou Curupira, Pai do Mato, Mãe do Mato, Caiçara, Caapora, Anhanga). Trata-se de um anão de cabelos vermelhos com pelo e dentes verdes. Como protetor das árvores e dos animais, costuma punir o os agressores da natureza e o caçador que mate por prazer. Está na hora da turma do S.O.S. Sapucaia (Serra do Mel) chamá-lo.
O Boi Tatá é um monstro com olhos de fogo, enormes. De dia é quase cego, à noite vê tudo. Diz a lenda que o Boitatá era uma espécie de cobra e foi o único sobrevivente de um grande dilúvio que cobriu a terra.
A Mula sem cabeça já apareceu diversas vezes. Está presente até na história de Janaúba. Nos pequenos povoados ou cidades, onde existam casas rodeando uma igreja, em noites escuras, pode haver aparições da Mula-Sem-Cabeça. Também se alguém passar correndo diante de uma cruz à meia-noite, ela aparece. Dizem que é uma mulher que namorou um padre e foi amaldiçoada. Toda passagem de quinta para sexta feira ela vai numa encruzilhada e ali se transforma na besta.
A Iara, que acabou comendo Macunaíma, foi registrada na história pelos cronistas dos séculos XVI e XVII. No princípio, o personagem era masculino e chamava-se Ipupiara, homem peixe que devorava pescadores e os levava para o fundo do rio. No século XVIII, Ipupiara vira a sedutora sereia Uiara ou Iara. Todo pescador brasileiro, de água doce ou salgada, conta histórias de moços que cederam aos encantos da bela Uiara e terminaram afogados de paixão. Diz o secretário de Cultura de Montes Claros, Ildeu Braúna, estudioso do Rio São Francisco, que quando a mãe das águas canta, hipnotiza os pescadores.
A cobra grande é uma das mais conhecidas lendas do folclore amazônico. Numa tribo indígena uma índia, grávida da Boiúna (Cobra-grande, Sucuri), deu à luz a duas crianças gêmeas que na verdade eram cobras. Para ficar livre dos filhos, a mãe jogou as duas crianças no rio. E lá no rio eles, como cobras, se criaram.
A lenda da Vitória Régia era contada pelos pajés tupis-guaranis, Dizem que no começo do mundo, toda vez que a Lua se escondia no horizonte, parecendo descer por trás das serras, ia viver com suas virgens prediletas. Diziam ainda que se a Lua gostava de uma jovem, a transformava em estrela do Céu.
Já o Papa Figo, ao contrário dos outros mitos, não tem aparência extraordinária. Parece mais com uma pessoa comum. Outras vezes, pode parecer como um velho esquisito que carrega um grande saco às costas. Na verdade, ele mesmo pouco aparece. Prefere mandar seus ajudantes em busca de suas vítimas. Os ajudantes por sua vez, usam de todos os artifícios para atrair as vítimas, todas as crianças. Eles agem em qualquer lugar público ou em portas de escolas, parques, ou mesmo locais desertos. Depois de atrair as vítimas, estas são levadas para o verdadeiro Papa-Figo, um sujeito estranho, que sofre de uma doença rara e sem cura. Diz que para aliviar os sintomas dessa terrível doença ou maldição, o Papa-Figo, precisa se alimentar do fígado de uma criança.
Lendas existem aos montões: a do ladrão de órgãos, a boneca enfeitiçada, a fada dos dentes, carona do além, a menina das flores, a loira da garagem (que deve ser parente da loira do banheiro e da internet).
No cemitério Bonfim, muita gente ainda tem medo de certa quadra, onde guarda noturno, hoje aposentado, dizia ouvir vozes. Mas nunca via pessoas conversando. Ele não sabe explicar o fato. Lembra que da última vez que ouviu vozes, ao invés de fazer uma oração, preferiu sair correndo de lá.
Cemitério tem obras de artes, é um lugar para se andar e pensar em paz, mas também pode trazer medo e lembranças assustadoras.
Como os seres humanos, as lendas urbanas nascem, crescem, sofrem mutações, se reproduzem e morrem. Mas muitas vezes ressuscitam.
Final, o misticismo está em tudo. A vida é um milagre. E nós estamos cercados por milagres...
Para chamá-la, existem várias maneiras. Uma delas é levar para o banheiro um fio de cabelo loiro, jogá-lo no vaso e dar três descargas.
Outra é dar três descargas, três chutes no vaso, e falar três palavrões. Mas tem que ser palavrão daqueles grandes. Ai ela aparece.
Às vezes mata as crianças. Às vezes não aparece. E outras vezes, ainda, os meninos mentem que a viram e saíram correndo.
Uma vez, sua turma do Gonça queria ver se existia mesmo a loira do banheiro. Fizeram o ritual, mas seu amigo Darley foi primeiro e saiu correndo, antes de terminar. Ninguém – e eram sete – ficou pra ver a moça. Se é que ela apareceu...
Isto, em pleno centro de Montes Claros.
Pior é a loira da internet. Conta-se que após um jovem baixar um arquivo e começar a conversar com a tal loira, ela manifestou todo o seu mal e ele não conseguiu parar de conversar com a tal moça. Acredito que muitas crianças e adolescente que conhecem a lenda ficaram com medo, e pensam aionda hoje duas vezes antes de começar a conversar com qualquer garota na internet. Principalmente se ela for loira…
Este é um dos delírios urbanos que acometem, vez por outra, a nossa imaginação.
Parece não ter sido à toa o porque de Franz Kafka se basear em parábolas, lendas e mitos para escrever narrativas em que aparecia o absurdo e as armadilhas do poder. As lendas, urbanas ou não, por mais simples que pareçam, contém uma carga de contundência e denúncia, que a reflexão crítica às vezes mal consegue roçar.
Ruth Tupinambá conta, no livro “Montes Claros Era Assim”, que as crianças pintavam e faziam traquinagens durante o dia e a mãe sempre dizia que, à noite, elas veriam o lobisomem. “Ele sempre aparece aos meninos mal criados e desobedientes, vocês vão ver!” Na hora de dormir, o arrependimento e o remorso vinham quando se lembravam da “profecia”. Para dormir, o melhor era cobrir até a cabeça com o cobertor, e ficar suando as bicas. O coração apressado, o silêncio da noite... Qualquer barulho era assombração: alma de outro mundo, lobisomem, mula-sem-cabeça. Será Ventura - aquele mendigo de dentes amarelos e grandes -, que virava lobisomem?
De tempos em tempos, uma lenda urbana aparece. Como uma cobra escondida numa inocente piscina de bolinhas que mordeu uma criança, que ninguém sabe quem é e nenhum hospital recebeu. O fantasma do guarda noturno que aparece, ainda hoje, no Colégio São José, olhando se as portas estão trancadas. As balinhas com drogas distribuídas para as crianças nas escolas. Ou aquela do amigo da minha sobrinha que falou que tinha um carro preto no bairro roubando crianças. Pior, ele garantiu que isso tinha acontecido com o filho de um vizinho dele...
A internet e até mesmo a imprensa ajudam a disseminar estas lendas. Por aqui, tivemos a mulher de sete metros, que assustava os moradores no final da linha de lotação do Morada do Parque. A estória de João Carlos Queiroz é até hoje vivida no “Festival Folclórico”, durante as festas de agosto.
Em Janaúba, eu e o jornalista Benjamin Oliveira Junior descobrimos a história de uma serpente que passou perto de uma casa, no distante ano da grande seca, 1939. Com depoimentos de moradores, histórias de pescadores e fatos reais, foi criado o monstro do Bico da Pedra, uma espécie de primo distante do monstro do Lago Ness, da Escócia. Pois depois que a história foi publicada no jornal Estado de Minas, muita gente jura que viu o danado. Tem gente que faz campana no lago até hoje.
Na subida da serra de Francisco Sá existia a moça de branco, que deve ter migrado da subida da serra de Montes Claros para Bocaiuva.
Em 1938, os Estados Unidos entraram em pânico ao ouvir no rádio que a Terra estava sendo invadida por aliens. Mas era só o cineasta Orson Welles lendo um trecho do romance “A Guerra dos Mundos”, de H.G.Wells.
Discos prateados rodopiando pelo cosmo, luzes alucinadas, texturas estranhas. É perfeitamente racional supor que há vida inteligente fora da Terra. Ainda não há provas. Erich Von D’aniken, autor do “Eram os Deuses Astronautas?”, afirmou que os extraterrestres já estiveram no nosso mundo. E há evidências. Uma delas seriam as pirâmides do Egito.
Nossa história é cheia de lendas, urbanas ou não. Tem o Caipora (ou Curupira, Pai do Mato, Mãe do Mato, Caiçara, Caapora, Anhanga). Trata-se de um anão de cabelos vermelhos com pelo e dentes verdes. Como protetor das árvores e dos animais, costuma punir o os agressores da natureza e o caçador que mate por prazer. Está na hora da turma do S.O.S. Sapucaia (Serra do Mel) chamá-lo.
O Boi Tatá é um monstro com olhos de fogo, enormes. De dia é quase cego, à noite vê tudo. Diz a lenda que o Boitatá era uma espécie de cobra e foi o único sobrevivente de um grande dilúvio que cobriu a terra.
A Mula sem cabeça já apareceu diversas vezes. Está presente até na história de Janaúba. Nos pequenos povoados ou cidades, onde existam casas rodeando uma igreja, em noites escuras, pode haver aparições da Mula-Sem-Cabeça. Também se alguém passar correndo diante de uma cruz à meia-noite, ela aparece. Dizem que é uma mulher que namorou um padre e foi amaldiçoada. Toda passagem de quinta para sexta feira ela vai numa encruzilhada e ali se transforma na besta.
A Iara, que acabou comendo Macunaíma, foi registrada na história pelos cronistas dos séculos XVI e XVII. No princípio, o personagem era masculino e chamava-se Ipupiara, homem peixe que devorava pescadores e os levava para o fundo do rio. No século XVIII, Ipupiara vira a sedutora sereia Uiara ou Iara. Todo pescador brasileiro, de água doce ou salgada, conta histórias de moços que cederam aos encantos da bela Uiara e terminaram afogados de paixão. Diz o secretário de Cultura de Montes Claros, Ildeu Braúna, estudioso do Rio São Francisco, que quando a mãe das águas canta, hipnotiza os pescadores.
A cobra grande é uma das mais conhecidas lendas do folclore amazônico. Numa tribo indígena uma índia, grávida da Boiúna (Cobra-grande, Sucuri), deu à luz a duas crianças gêmeas que na verdade eram cobras. Para ficar livre dos filhos, a mãe jogou as duas crianças no rio. E lá no rio eles, como cobras, se criaram.
A lenda da Vitória Régia era contada pelos pajés tupis-guaranis, Dizem que no começo do mundo, toda vez que a Lua se escondia no horizonte, parecendo descer por trás das serras, ia viver com suas virgens prediletas. Diziam ainda que se a Lua gostava de uma jovem, a transformava em estrela do Céu.
Já o Papa Figo, ao contrário dos outros mitos, não tem aparência extraordinária. Parece mais com uma pessoa comum. Outras vezes, pode parecer como um velho esquisito que carrega um grande saco às costas. Na verdade, ele mesmo pouco aparece. Prefere mandar seus ajudantes em busca de suas vítimas. Os ajudantes por sua vez, usam de todos os artifícios para atrair as vítimas, todas as crianças. Eles agem em qualquer lugar público ou em portas de escolas, parques, ou mesmo locais desertos. Depois de atrair as vítimas, estas são levadas para o verdadeiro Papa-Figo, um sujeito estranho, que sofre de uma doença rara e sem cura. Diz que para aliviar os sintomas dessa terrível doença ou maldição, o Papa-Figo, precisa se alimentar do fígado de uma criança.
Lendas existem aos montões: a do ladrão de órgãos, a boneca enfeitiçada, a fada dos dentes, carona do além, a menina das flores, a loira da garagem (que deve ser parente da loira do banheiro e da internet).
No cemitério Bonfim, muita gente ainda tem medo de certa quadra, onde guarda noturno, hoje aposentado, dizia ouvir vozes. Mas nunca via pessoas conversando. Ele não sabe explicar o fato. Lembra que da última vez que ouviu vozes, ao invés de fazer uma oração, preferiu sair correndo de lá.
Cemitério tem obras de artes, é um lugar para se andar e pensar em paz, mas também pode trazer medo e lembranças assustadoras.
Como os seres humanos, as lendas urbanas nascem, crescem, sofrem mutações, se reproduzem e morrem. Mas muitas vezes ressuscitam.
Final, o misticismo está em tudo. A vida é um milagre. E nós estamos cercados por milagres...
Respeitável público, o palhaço Frajolla (e Mariola)
A fábrica de inspiração do palhaço Frajolla (e Mariola) não para. Ontem mesmo, estava gravando um DVD, pelas ruas de Grão-Mogol. Hoje, se apresenta na festa de uma cidade ribeirinha do Jequitinhonha, ou ali mesmo, perto de Curvelo, onde mora atualmente. Amanhã, (quem sabe?) nos dá a graça e a honra de vê-lo pelas ruas montesclalindas, acompanhado pelo homem da perna de pau, com aquele mundaréu de crianças atrás, um verdadeiro mar de alegria. Este é Frajolla, um palhaço que doença alguma consegue deixar na cama.
Há algum tempo nosso papo é virtual, através do MSN ou do Facebook. Frajolla e Mariola estão morando em Curvelo, ali no centro de Minas. Talvez para ficar perto de tudo. Ou longe. Sei lá.
Me lembro bem dos lançamentos do seus discos por aqui, de suas viagens e shows nas cidades deste Grande Norte. Escuto sempre suas músicas. São tantos os CDs, mas guardo bem guardado um LP, que escuto no velho som. Seus discos sempre são lançados com algo diferente. "Cartilha Encantada", por exemplo, foi apresentado ao respeitável público junto com gincanas. Tratava-se de um projeto de parceria entre alunos de educação física da Funorte, Frajolla e as escolas da cidade e da região.
O disco, que vinha dentro de uma cartilha, trazia, além das letras das canções, jogos de palavras cruzadas, adivinhações e desenhos "para a criançada brincar, colorir e se divertir". Coisa mais do que certa para este professor que tanto gosta de crianças.
Como não se maravilhar com ‘Quintal da Fantasia’, ‘Maria Tigela’, ‘A Arainha’, ‘No Caminho da Roça’, ‘Cadê’, ‘Samba Mais Eu’, ‘A Velha Debaixo da Cama’, ‘Monjolo’ (parceria com Tom Andrade), ‘Água de Beber’ (Pedro Boi). Mas isto foi em 2004/2005.
Seu ultimo trabalho (além de um lindo DVD) que conhecia era “Bom Dia, Escola”. Frajolla fez este CD pensando nos adultos, mas nunca produziu algo tão bom para a meninada. Encaixa direitinho em qualquer coração, tanto por músicas como ‘Casinha de Bambuê’ ou ‘O Sapo Não lava o Pé’ – minha predileta. Só podia! – mas pelo formato diferente que ele dá a todas elas.
No CD existem ainda coisas lindas, ‘A do lê ta’, ‘Dona Coruja’, ‘Rebola Bola’, ‘Engenho Novo’, ‘Como vai amiguinho’, ‘Dedinhos’, ‘A formiguinha’ e até ‘ Prenda Minha’ e ‘Onde está a Margarida’. Totóia e Juca não paravam de dançar, ao colocar o disco para rodar. Às vezes, até enche, pois não querem que eu ouça outra coisa. Coisas de criança, quando ainda eram crianças. Hoje, Totóia está pra lá dos 15, Juca com seus 10. Nem deveriam interessar tanto.
Qual o que.
Muito tempo já se passou depois de ”Cartilha Encantada” e “Bom Dia, Escola”.
Dia destes recebo telefonema do compadre Luis Carlos Nunes. Trouxe um presente pra mim de Curvelo. Vou buscar, e nem abro em sua casa. Ele não disse o que se tratava aquela caixa de papelão.
Em casa, a surpresa: numa caixa/estojo, “Brincar de Quê?”, com os discos mais recentes de Frajolla e Mariola.
“Brincar de Quê?” traz seis discos, quatro CDs e dois DVDs. Seis de uma vez só!
Curvelo fez bem à dupla, que continua fazendo shows todos os finais de semana em cidades tão dispares como Entre Rios, Abaeté, Pompéu e Salinas.
A música de Frajolla e Mariola é sempre cheia de humor. Além de trazer todo um folclore, pois eles, antes de serem músicos de crianças, são pesquisadores. E que coisa mais linda é ver estas figuras avançando contra a corrente, resgatando cantigas de roda com aquele toque especial. É, também, a oportunidade dos pais se divertirem a valer numa demonstração de que nunca deixaram morrer a criança que existe em cada um de nós. “Um autêntico show musical com brincadeiras que revive a matinê nos picadeiros debaixo da lona circense”.
Por onde passa, Frajolla e Mariola deixam marcas do que é bom como diversão sadia, levando a todos os cantos a alegria de viver que pode ser vista nos olhos de cada menino ou menina de todas as idades. Apresentam em seus show músicas e brincadeiras com a total participação da platéia, levando a alegria e ao delírio aos que buscam uma diversão pura como descanso e descontração.
Resgatam o universo das cantigas de roda do interior do Brasil, recriam aquele espírito circense que fez a alegria das gerações que antecederam o advento da televisão, tentando justamente ressuscitar essa magia; existem mais tesouros para as nossas crianças que a hipnose da “telinha”. Nestes tesouros pulsa a alma do verdadeiro Brasil, tão esquecido em nossas imensas cidades.
Me rendi as travessuras do palhaço Frajolla outra vez.
Ainda mais no formato DVD, em que recria suas cantigas de hoje e sempre.
E indico para crianças, mas como mora sempre uma dentro de nós, o bom mesmo é a gente sentar na sala, ligar a TV, comer pipoca, tomar guaraná e curtir, na maior inocência e cara séria, junto com os baixinhos, faixa por faixa.
Tudo que ele mostra neste estojo, surpreende.
Pelas imagens, pelas músicas e pela cara dos baixinhos quando acaba: querem repetir tudo de novo.
Frajola é um palhaço diferente.
Interessado em levar cultura para baixinhos e altinhos, entrou de vez na linha folclórica, trazendo o melhor a tona.
Garimpa minas virgens do Norte e Jequitinhonha, e é a fonte, cabeceira e nascente de suas criações.
Não se poupa.
“Hoje Tem Espetáculo” está aí, para não me deixar mentir. “Brincar de Quê?”, também.
O restante é fruto da busca, do garimpo, sozinho, na labuta dos anos.
As belas – e bota belas aí – imagens mostram como o palhaço é sensível. Como o palhaço é espiritual. Como Deus é grande!
Todos chutando a bola da vida no gol da imaginação, seja dono da rua, capitão do mato, que invente o brinquedo, o arco-íris e coisa e tal.
Tinha até esquecido de como cria este Frajolla.
Espero, agora, que ele, novamente, volte a nossa montesclalinda cidade e grave, em nossas ruas - que tal a praça da Matriz ou a parte velha da cidade? - uma das canções do seu próximo DVD.
Afinal, a gente fica com orgulho quando vê produções tão boas, tão largadamente bem feitas, tão cheias de curiosidade, tão bonitas e gostosas, tão... Nem tenho mais nome para tal coisa, tão bem feita que é! A vontade é de não parar de escutar nunca. Não parar de assistir, nunca.
E que venha mais, pois o que é bom, é para vir de montão. Frajolla com Mariola sabem o que é tão bom para o coração deste velho montes-clarense.
Vão, Frajolla e Mariola (e Maria Bulaxa). Continuem a percorrer as ruas das cidades lá de fora.
Mas não se esqueçam da gente!
Há algum tempo nosso papo é virtual, através do MSN ou do Facebook. Frajolla e Mariola estão morando em Curvelo, ali no centro de Minas. Talvez para ficar perto de tudo. Ou longe. Sei lá.
Me lembro bem dos lançamentos do seus discos por aqui, de suas viagens e shows nas cidades deste Grande Norte. Escuto sempre suas músicas. São tantos os CDs, mas guardo bem guardado um LP, que escuto no velho som. Seus discos sempre são lançados com algo diferente. "Cartilha Encantada", por exemplo, foi apresentado ao respeitável público junto com gincanas. Tratava-se de um projeto de parceria entre alunos de educação física da Funorte, Frajolla e as escolas da cidade e da região.
O disco, que vinha dentro de uma cartilha, trazia, além das letras das canções, jogos de palavras cruzadas, adivinhações e desenhos "para a criançada brincar, colorir e se divertir". Coisa mais do que certa para este professor que tanto gosta de crianças.
Como não se maravilhar com ‘Quintal da Fantasia’, ‘Maria Tigela’, ‘A Arainha’, ‘No Caminho da Roça’, ‘Cadê’, ‘Samba Mais Eu’, ‘A Velha Debaixo da Cama’, ‘Monjolo’ (parceria com Tom Andrade), ‘Água de Beber’ (Pedro Boi). Mas isto foi em 2004/2005.
Seu ultimo trabalho (além de um lindo DVD) que conhecia era “Bom Dia, Escola”. Frajolla fez este CD pensando nos adultos, mas nunca produziu algo tão bom para a meninada. Encaixa direitinho em qualquer coração, tanto por músicas como ‘Casinha de Bambuê’ ou ‘O Sapo Não lava o Pé’ – minha predileta. Só podia! – mas pelo formato diferente que ele dá a todas elas.
No CD existem ainda coisas lindas, ‘A do lê ta’, ‘Dona Coruja’, ‘Rebola Bola’, ‘Engenho Novo’, ‘Como vai amiguinho’, ‘Dedinhos’, ‘A formiguinha’ e até ‘ Prenda Minha’ e ‘Onde está a Margarida’. Totóia e Juca não paravam de dançar, ao colocar o disco para rodar. Às vezes, até enche, pois não querem que eu ouça outra coisa. Coisas de criança, quando ainda eram crianças. Hoje, Totóia está pra lá dos 15, Juca com seus 10. Nem deveriam interessar tanto.
Qual o que.
Muito tempo já se passou depois de ”Cartilha Encantada” e “Bom Dia, Escola”.
Dia destes recebo telefonema do compadre Luis Carlos Nunes. Trouxe um presente pra mim de Curvelo. Vou buscar, e nem abro em sua casa. Ele não disse o que se tratava aquela caixa de papelão.
Em casa, a surpresa: numa caixa/estojo, “Brincar de Quê?”, com os discos mais recentes de Frajolla e Mariola.
“Brincar de Quê?” traz seis discos, quatro CDs e dois DVDs. Seis de uma vez só!
Curvelo fez bem à dupla, que continua fazendo shows todos os finais de semana em cidades tão dispares como Entre Rios, Abaeté, Pompéu e Salinas.
A música de Frajolla e Mariola é sempre cheia de humor. Além de trazer todo um folclore, pois eles, antes de serem músicos de crianças, são pesquisadores. E que coisa mais linda é ver estas figuras avançando contra a corrente, resgatando cantigas de roda com aquele toque especial. É, também, a oportunidade dos pais se divertirem a valer numa demonstração de que nunca deixaram morrer a criança que existe em cada um de nós. “Um autêntico show musical com brincadeiras que revive a matinê nos picadeiros debaixo da lona circense”.
Por onde passa, Frajolla e Mariola deixam marcas do que é bom como diversão sadia, levando a todos os cantos a alegria de viver que pode ser vista nos olhos de cada menino ou menina de todas as idades. Apresentam em seus show músicas e brincadeiras com a total participação da platéia, levando a alegria e ao delírio aos que buscam uma diversão pura como descanso e descontração.
Resgatam o universo das cantigas de roda do interior do Brasil, recriam aquele espírito circense que fez a alegria das gerações que antecederam o advento da televisão, tentando justamente ressuscitar essa magia; existem mais tesouros para as nossas crianças que a hipnose da “telinha”. Nestes tesouros pulsa a alma do verdadeiro Brasil, tão esquecido em nossas imensas cidades.
Me rendi as travessuras do palhaço Frajolla outra vez.
Ainda mais no formato DVD, em que recria suas cantigas de hoje e sempre.
E indico para crianças, mas como mora sempre uma dentro de nós, o bom mesmo é a gente sentar na sala, ligar a TV, comer pipoca, tomar guaraná e curtir, na maior inocência e cara séria, junto com os baixinhos, faixa por faixa.
Tudo que ele mostra neste estojo, surpreende.
Pelas imagens, pelas músicas e pela cara dos baixinhos quando acaba: querem repetir tudo de novo.
Frajola é um palhaço diferente.
Interessado em levar cultura para baixinhos e altinhos, entrou de vez na linha folclórica, trazendo o melhor a tona.
Garimpa minas virgens do Norte e Jequitinhonha, e é a fonte, cabeceira e nascente de suas criações.
Não se poupa.
“Hoje Tem Espetáculo” está aí, para não me deixar mentir. “Brincar de Quê?”, também.
O restante é fruto da busca, do garimpo, sozinho, na labuta dos anos.
As belas – e bota belas aí – imagens mostram como o palhaço é sensível. Como o palhaço é espiritual. Como Deus é grande!
Todos chutando a bola da vida no gol da imaginação, seja dono da rua, capitão do mato, que invente o brinquedo, o arco-íris e coisa e tal.
Tinha até esquecido de como cria este Frajolla.
Espero, agora, que ele, novamente, volte a nossa montesclalinda cidade e grave, em nossas ruas - que tal a praça da Matriz ou a parte velha da cidade? - uma das canções do seu próximo DVD.
Afinal, a gente fica com orgulho quando vê produções tão boas, tão largadamente bem feitas, tão cheias de curiosidade, tão bonitas e gostosas, tão... Nem tenho mais nome para tal coisa, tão bem feita que é! A vontade é de não parar de escutar nunca. Não parar de assistir, nunca.
E que venha mais, pois o que é bom, é para vir de montão. Frajolla com Mariola sabem o que é tão bom para o coração deste velho montes-clarense.
Vão, Frajolla e Mariola (e Maria Bulaxa). Continuem a percorrer as ruas das cidades lá de fora.
Mas não se esqueçam da gente!
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