Leya Bloodymary nunca usava calcinha. Era uma pureza de pessoa. Passou maus momentos quando estudava no Colégio São José, logo quando as meninas entraram no refugio dos meninos. Como gostava de escorregar no corrimão da escada, era a garota que todos queriam... Menos os irmãos maristas. Recebeu broncas de Irmão Ladislau. Também trabalhou certo tempo numa firma de tratores. Era a atração quando, após o almoço, se sentava numa mureta, com a saia curta. Os mecânicos não deixavam de passar a sua frente. E ela se divertia intimamente.
Uma vez, viajou para Londres, onde ficou quase um ano. Voltou dizendo ter conhecido um cara sensacional, que escrevia letras para Raul Seixas. Era um tal de Paulo Coelho. Disse que o namorou durante algum tempo, inclusive vivendo em sua casa. E junto com a esposa, Cissa. Todos juntos, numa cama só: ela, Paulo, Cissa e Peninha. Coisa da sua cabeça? Ninguém sabe.
Criativa, ousada e, particularmente, em paz com a vida, L.B. é assim, com aquela cor de jambo e pecado. É o personagem do meu filme de memórias que o vento levou e o tempo traz. Também gosta de magia, alquimia e astrologia. Não nesta ordem. Mas antigamente queria manipular os astrolábios, ler as estrelas, dominar a natureza, decifrar segredos.
Não sei por que, sempre a encontro pelas ruas. Ontem mesmo, passou pela Santos Dumont. Está mais alegre agora, e me conta ou relembra casos do passado. Afinal, ela é uma mulher aventureira, uma mulher do mundo.
A poucos dias, fui à casa de L.B. Naquele local, ruídos dos ônibus, a gritaria das pessoas na rua, o desacerto arquitetônico da área central, nada a faz desconcentrar. Me recebeu sorrindo, aquele sorriso travesso. Ali há um cheiro no ar, roupas usadas penduradas numa bicicleta ergométrica, latas de tinta abertas, uma tela meio que pintada, meio que borrada. Será que ela agora virou artista, penso, comigo mesmo. As portas estão escritas a caneta. Na do quarto, está a letra de “Amor, meu grande amor”. Na do banheiro, Joana Francesa e Ne me quitte pas.
Numa prateleira, livros. Muitos. Alguns títulos me chamam a atenção: “120 Dias de Sodoma”, do Marquês de Sade, “O Doce Veneno do Escorpião”, de Raquel Pacheco... tem Henry Miller, Cassandra Rios e a coleção de Carlos Zéfiro. Tem Charles Baudelaire e Paulo Coelho, Augusto José Vieira Neto e Carlos Drummond de Andrade. Me interesso por Mulheres de Charles Bukowski. Pego e abro numa página qualquer. Leya abre a janela e o sol de fim de tarde do verão montes-clarino entra, trazendo vida àquela parte da quitinete. Numa mesa, reparo uma faca e casca de laranja, já seca. Ao lado, um enorme dicionário Aurélio. Diz ser ali seu refúgio, onde conversa com as almas, medita, sonha com tempos antigos e aqueles que têm pela frente. E ama. “Tem um velho louco e safado aqui do lado”, diz, com voz carinhosa. “Ele bebe demais!”. “E você?”, ouso perguntar. “Sei lá. Uma garrafa de vinho, algumas cervejas, um uisque...” O cosmopolita passatempo etílico ainda continua, quando vai ao bar do Joaquim. Quinta no Quincas, doces lembranças. Toca música clássica. Ravel. Só podia. Revistas sobre uma poltrona vermelha. No chão, ao lado da cama, “Hustler”. “É um imã para os homens”, diz com o sorriso maroto. E olha que ela foi educada segundo as severas regras protestantes. E tinha um pai comunista.
Hoje com seus anos um pouco passados, ainda canta “não acredite em ninguém com mais de 30 anos”, enquanto toma banho. Seus olhos, quando canta, tem o olhar de um azul profundo, o rostinho de anjo. Enganador. Não me pergunte como sei. Ela continua livre, inteligente, ousada, verdadeira. E nos transfere sua paz. Seu amor.
Uma vez, L.B. resolveu usar uma cabeleira fake e falar com uma voz monótona. Neste dia, ela teria um encontro lésbico. Nunca falou o que rolou. Mas rolou, pois sua cara, no outro dia, era de traquinagens. Agora, anos depois, pergunto como foi. Responde apenas que M.T. conhecia aquela palavra que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo. Nada mais foi dito. Nada mais precisa ser. Para bom entendedor...
Leya é uma filósofa-gata. Sem tradução. Vem de uma família de esquerda. Seu pai militou no Partidão, e um tio foi preso pela ditadura. Namorou um guerrilheiro de araque, destes que se vê ainda hoje falando da luta armada contra a ditadura, sem nunca ter apanhado uma arma. Talvez apenas tenha visto, de longe, a capa do Livro Vermelho do Mao Tsé-Tung.
Não se envolveu com atividades estudantis na faculdade. Namorou um holandês seis anos mais velho, que lhe deu uma visão da vida européia. A ensinou a falar francês e inglês, a vestir, a comer, a ter certa sofisticação. Com ele descobriu sua sexualidade e seu medo da Aids.
Na nossa conversa, lembra que se esbaldou durante anos no bloco Biô e Salomé, frequentou o Bar Sibéria, na esquina da Dr. Veloso com Presidente Vargas, só para beber vodca com coca, bater papo com Virgílio de Paula e Biô Lopes. E conversar com “Seu” Luis, falando sobre a época dos picolés de groselha, vermelhos, redondos. Seria provocação? Fala sobre Vicentinho da Pavisan, de Toninho, irmão de Carlinhos e Dequinha, e das guloseimas do bar dos japoneses Manoel e Joaquim, no boteco da Dr. Veloso com Tiradentes.
Me vem à memória que Leya Bloodymary tinha uma estabilidade emocional que dependia tanto de uma relação sólida, de um homem que a ajudasse a enfrentar as tempestades da alma, como de uma cachacola na esquina. Às vezes, entrava em depressão, ficava melancólica.
Nunca lhe faltaram (nem faltam) homens, é bom acentuar. Ela suga suas energias. Às vezes trepava (trepa) muito. É quase uma mulher-vampiro para seus homens. Uma predadora erótica? Ah! Como se lembra de Lucrezia Borgia... Naquele quarto, os gemidos, os sussurros, onomatopeias... Ai! Laralarilás. Gosta de brincar de gata e rato. Uma loba no cio, uivando pra lua. De mel! Bem lembrou Jorginho Santos na canção Safari. Foi onde o leite e o deleite se encontraram.
Na sala, ela coloca Caetano. O som de “Sozinho” enche o ambiente. Sentada no sofá ao meu lado se encosta, enrosca, parece pedir proteção. Usa minissaia, os cabelos estão molhados do banho, desgrenhados, a boca rósea e um par de pernas suculentas. Se põe a tecer a crônica sexual da vida alheia – e própria. “Já escutou Estrela Reluzente, do Zé da Gota?”, pergunta. “Não!” “Aqueles versos foram feitos para mim”, e canta “somos peças do mesmo jogo, somos amantes da mesma ilusão”. Cantarola quanto tempo leva para aprender que uma flor tem vida ao nascer. Diz estar viva, ressuscitada, há movimento em suas carnes, os sonhos esquecidos estão a sua volta e os desejos proibidos aparecem na superfície de sua pele. “Será que estas suas mãos ainda sabem abraçar e acariciar meu corpo”, interroga.
Leya Continua sem conseguir segurar um afeto. Continua um personagem dramático. Continua com pêlos tremendo ao vento ateu. “Tiau, Bodanzky!”, digo, num sussurro, saindo devagarzinho. Ela parece dormir com as mesmas pausas, reticências e silêncios.
Lá fora, olho e revejo o Cine Montes Claros. Da Praça Dr. Carlos vem o som: Será por quê? Será por quê? Será por quê? Nem o senhor porquê sabe responder.
Ah, Santoro...!
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Anarquista? Sim, graças a Deus!
Nossos escritores têm pudor do sucesso. Não topam seduzir um público grande escancarando o coração, sem culpa e vergonha, sem medo da catarse. Amelina Chaves não tem medo, nem qualquer problema para seduzir o leitor. Nem o de puxá-lo pela corda direta do coração. A doçura é uma constante em seu trabalho.
Dizem que ela é do tempo do cafona, do kitsch. Que nada! Mel, se assim posso chamá-la pela doçura de ser o que é, é de antes de existir qualquer definição. Ela já era lida desde quando as penteadeiras das putas e o jukebox existiam, embora não mostrasse tais escritos para qualquer um.
Conheci Mel quando estava no Diário de Montes Claros, no inicio da década de 1970. Um dos seus primeiros escritos saiu na Káthedra, revista de cultura daquela época. Junto com Felipe Gabrich, íamos comer peixe e beber uma cerveja em sua casa (ainda a mesma de hoje), nas tardes noites de sexta-feira, quando uma bruxa boa atormentava uma de suas filhas. De lá pra cá, cresceu ainda mais, escreveu, lançou livros e livros, e posso dizer ser a maior romancista da atualidade neste Montes Claros da vida.
Quando escreve, ora afoga as mágoas de amores nos braços de outros, sem pudor de se assumir traída - por quem? pelo personagem? -, ora é a gostosona de plantão. Escreve sobre a linguagem viciada dos centros, a saudade mal cozida dos bairros e a carência aguçada da periferia.
Pela definição de Elza Pound, Amelina, antes de ser a escritora consagrada que é para nós, seria uma espécie de inventora. Captura vertente da infância, mistura o figurino com o despudor da auto-ironia e da chacota. Escreve lindamente, amelinamente, amelindamente, sobre tudo. Lembro-me da gestação de “Diário de um Marginal”, que saiu em 1979 e do “Andarilho do São Francisco”, de 1981, dedicado à Mestra Antoninha, ao velho Antônio, a Adão, Josecé, Felipe Gabrich, João Balaio, ao poeta do céu, ao menino que escrevia na areia e aos hippies. Vez em quando os leio novamente. Como leio “Priapo de Ébano”, “O Eclético Darcy Ribeiro”, “Eterna Lembrança”, “O Rancho da Lua”, e “O Livro Proibido”, onde “libera geral”. São fases importantes, que nos mostram a realidade e a ficção. Pois ela inventa, mas não aumenta.
Mel é inventora porque também não se envergonha do que encarna, do que escreve. Assume-se. É de carne, tem seus desejos e suas tesões, e está sujeita a falhas e acertos. Teve uma escola que não foi uma escola, foi uma experiência de vida. Por isso, cria uma constelação interna e depois passa para outra coisa. Sua vida foi (e é) um paraíso, porque tudo de criativo captou, mas era (e é) um inferno também. Criou seu ambiente, com certa obsessividade até chegar às portas da dominação. Vive no limiar entre a vida cotidiana e a arte. Transmite, por trás de uma certa aparência de frieza, uma noção de ameaça sexual iminente. Como um vulcão prestes a entrar em erupção.
Mel não foi feita para parar. Mel não foi feita para manter ligações essenciais com coisas essenciais, pessoas essenciais e lugares essenciais. Foi feita para avançar sempre. E é o que faz de melhor.
Em cada escrita aparecem seus mundos, que não são os mesmos, mas se encontram muito mais do que imaginam. Em outros carnavais, já foi bem mais que a mulher fatal. Hoje é a femme fatale. Afinal, sexo nos tempos da ditadura era visto como coisa dos comuns, comunistas, subversivos. Mas era praticado por subservivos. Hoje, o que é? Uma propaganda no jornal?
Por dentro de Mel bate um generoso coração. Continua uma anarquista, graças a Deus! E deliciosamente verdadeira, fala o que tem que falar, escreve o que a vida ensinou/a e lhe deu/a. É sincera, direta. Não esconde o que pensa.
Encontro pouco atualmente com Amelina, mas quando encontramos caímos na gandaia de boca, caímos de cabeça na dança. Ela é toda poderosa e cheia de luz, e é tão bom ver como nos ilumina e faz nossa vida valer... São todos os tons colorindo a nossa escuridão, clareando o som dos corações nos quatro cantos da vida, sustentando-nos na alegria e na dor.
Conversamos sobre as namoradas de antigamente, sobre as peladas de futebol e as histórias que a vida nos leva e nos traz, sobre a perda dos amigos e o sempre encontrar de amigos novos. A gente expulsa do coração emoções para se concentrar no futuro e vai deixando a vida antiga para trás. Quando você acredita em coisas que não entende, então você sofre: a superstição não é o caminho, lembra-nos, como ensinou Stevie Wonder.
Não tem hora para receber amigos. Em sua casa tem biscoito farinha, biscoito fofão, biscoito nata, que derrete na boca com aquele café de rapadura. Não é a toa que lançou o livro “Folclore, Quitute e Amor”.
Anelina prega em nosso corpo, é um caso de amor com a literatura, vento que embala o cheiro da flor sem querer parar.
Amelinda nos traz juventude, é trecho de uma vida de um sonhador plantando esperança no coração pra depois aflorar.
Amelina Chaves é canto de roda e rua, contradança e congado, coisa de encabular.
A doçura de Mel é sabiá a cantar, fogueira a lumiar, liberdade a brilhar
Anelina, Amelinda, Amelina Chaves, a doçura de Mel é, pra nós, lembranças do que virá.
Dizem que ela é do tempo do cafona, do kitsch. Que nada! Mel, se assim posso chamá-la pela doçura de ser o que é, é de antes de existir qualquer definição. Ela já era lida desde quando as penteadeiras das putas e o jukebox existiam, embora não mostrasse tais escritos para qualquer um.
Conheci Mel quando estava no Diário de Montes Claros, no inicio da década de 1970. Um dos seus primeiros escritos saiu na Káthedra, revista de cultura daquela época. Junto com Felipe Gabrich, íamos comer peixe e beber uma cerveja em sua casa (ainda a mesma de hoje), nas tardes noites de sexta-feira, quando uma bruxa boa atormentava uma de suas filhas. De lá pra cá, cresceu ainda mais, escreveu, lançou livros e livros, e posso dizer ser a maior romancista da atualidade neste Montes Claros da vida.
Quando escreve, ora afoga as mágoas de amores nos braços de outros, sem pudor de se assumir traída - por quem? pelo personagem? -, ora é a gostosona de plantão. Escreve sobre a linguagem viciada dos centros, a saudade mal cozida dos bairros e a carência aguçada da periferia.
Pela definição de Elza Pound, Amelina, antes de ser a escritora consagrada que é para nós, seria uma espécie de inventora. Captura vertente da infância, mistura o figurino com o despudor da auto-ironia e da chacota. Escreve lindamente, amelinamente, amelindamente, sobre tudo. Lembro-me da gestação de “Diário de um Marginal”, que saiu em 1979 e do “Andarilho do São Francisco”, de 1981, dedicado à Mestra Antoninha, ao velho Antônio, a Adão, Josecé, Felipe Gabrich, João Balaio, ao poeta do céu, ao menino que escrevia na areia e aos hippies. Vez em quando os leio novamente. Como leio “Priapo de Ébano”, “O Eclético Darcy Ribeiro”, “Eterna Lembrança”, “O Rancho da Lua”, e “O Livro Proibido”, onde “libera geral”. São fases importantes, que nos mostram a realidade e a ficção. Pois ela inventa, mas não aumenta.
Mel é inventora porque também não se envergonha do que encarna, do que escreve. Assume-se. É de carne, tem seus desejos e suas tesões, e está sujeita a falhas e acertos. Teve uma escola que não foi uma escola, foi uma experiência de vida. Por isso, cria uma constelação interna e depois passa para outra coisa. Sua vida foi (e é) um paraíso, porque tudo de criativo captou, mas era (e é) um inferno também. Criou seu ambiente, com certa obsessividade até chegar às portas da dominação. Vive no limiar entre a vida cotidiana e a arte. Transmite, por trás de uma certa aparência de frieza, uma noção de ameaça sexual iminente. Como um vulcão prestes a entrar em erupção.
Mel não foi feita para parar. Mel não foi feita para manter ligações essenciais com coisas essenciais, pessoas essenciais e lugares essenciais. Foi feita para avançar sempre. E é o que faz de melhor.
Em cada escrita aparecem seus mundos, que não são os mesmos, mas se encontram muito mais do que imaginam. Em outros carnavais, já foi bem mais que a mulher fatal. Hoje é a femme fatale. Afinal, sexo nos tempos da ditadura era visto como coisa dos comuns, comunistas, subversivos. Mas era praticado por subservivos. Hoje, o que é? Uma propaganda no jornal?
Por dentro de Mel bate um generoso coração. Continua uma anarquista, graças a Deus! E deliciosamente verdadeira, fala o que tem que falar, escreve o que a vida ensinou/a e lhe deu/a. É sincera, direta. Não esconde o que pensa.
Encontro pouco atualmente com Amelina, mas quando encontramos caímos na gandaia de boca, caímos de cabeça na dança. Ela é toda poderosa e cheia de luz, e é tão bom ver como nos ilumina e faz nossa vida valer... São todos os tons colorindo a nossa escuridão, clareando o som dos corações nos quatro cantos da vida, sustentando-nos na alegria e na dor.
Conversamos sobre as namoradas de antigamente, sobre as peladas de futebol e as histórias que a vida nos leva e nos traz, sobre a perda dos amigos e o sempre encontrar de amigos novos. A gente expulsa do coração emoções para se concentrar no futuro e vai deixando a vida antiga para trás. Quando você acredita em coisas que não entende, então você sofre: a superstição não é o caminho, lembra-nos, como ensinou Stevie Wonder.
Não tem hora para receber amigos. Em sua casa tem biscoito farinha, biscoito fofão, biscoito nata, que derrete na boca com aquele café de rapadura. Não é a toa que lançou o livro “Folclore, Quitute e Amor”.
Anelina prega em nosso corpo, é um caso de amor com a literatura, vento que embala o cheiro da flor sem querer parar.
Amelinda nos traz juventude, é trecho de uma vida de um sonhador plantando esperança no coração pra depois aflorar.
Amelina Chaves é canto de roda e rua, contradança e congado, coisa de encabular.
A doçura de Mel é sabiá a cantar, fogueira a lumiar, liberdade a brilhar
Anelina, Amelinda, Amelina Chaves, a doçura de Mel é, pra nós, lembranças do que virá.
Sou louco, o que posso fazer? Escutar Billie Holyday?
Assisti “As Aventuras de Antonie Doinel”, do François Trauffaut, emprestado pelo amigo Rafael Gontijo. São filmes que me trazem boas lembranças - ou são lembranças que me vem à tona? Não sei ao certo. Nem ao errado...
O episódio “Antoine e Colette”, por exemplo, nos leva ao amor adolescente. Até a cor da vitrolinha dada de coração para a menina que morava no final da Rua João Pinheiro é igual à utilizada no quartinho de hotel em que ele fica. Só as músicas são outras. Ela gostava de Roberto, Caetano, Carpenters, Carole King. Ele, das francesas.
Alguns amores duram um tempo maior que outros. Isto acontece porque a gente vai crescendo e vendo o que é bom e o que vem do (a)mar... Nesta época, por exemplo, estava todo um amor adolescente, oculto, que cresceu e hoje se tornou vulto. Mas que bate no peito e, vez por outra, nos leva ao passado. Como outras coisas. Aquele era tempo de sorriso nos lábios, sanduíche de mortadela e guaraná. Eta, saudade! Mas saudade é para isso mesmo, sentir.
É preciso olhar essa vida antes e depois de assistir Butch Cassid e Sundance Kid no Cine Fátima. Época quando o amor salvava o tédio do dia a dia. Quem sabe um dia a gente se encontra no velho lugar!? Quem sabe um dia a gente ande de trem de ferro, coma salsichão num bar do bairro Barro Preto em Beagá, ou até torça para o mesmo time, assista novamente filmes que nos marcaram e ouça canções que nos perseguem.
Eu cresci assistindo filmes nos cinemas Fátima, São Luiz, Coronel Ribeiro, Ypiranga, Lafetá e Montes Claros. Velhas e boas tardes de domingo. Hoje, o DVD e a pirataria nos levam tudo em casa. Cresci lendo quadrinhos, que agora viraram graphic novels. Cresci brincando de finca na esplanada do Bom Jesus, na Malhada das Almas, e jogando bolinha de gude com João Véio, correndo as ruas no carrinho de rolimã com Márcio Hiram, subindo a serra do Mel com Agnaldo, João Ripão, Tino e Bodão. Hoje, não se vê mais estas brincadeiras, não existe serra, embora ela esteja lá e tentem colocar outros nomes nela.
No lugar em que a gente se acampava, bem na beirada do barranco, embaixo do pé de Jenipapo em que Charles, um dia, escreveu o nome de sua amada, não existe mais cachoeira. A serra virou ‘da Sapucaia’, ou ‘do Ibituruna’ engolindo o Mel e deixando a história em um canto qualquer. Acho que nem o pé de Jenipapo sobreviveu. Talvez o pé de goiaba branca da canção de Bodão ainda exista...
A Lapa Grande, a Pintada, a da Nascente e a Lapa D’Água, onde meu pai e Zé Manaíba me levavam aos domingos, virou parque que engoliu a fazenda de “Sêo” Pedro Veloso e dona Arinha. Ali os finais de semana eram de uma delícia só. Nunca mais andei a cavalo, nunca mais comi beiju com requeijão quente, nunca mais vi Arinha... Toda mata era boa, pois não tinha nem alçapão. Hoje, o perigo anda ao lado.
Aqui existia Montes Claros e a Montes Claros de baixo. Que não ficava na parte baixa da cidade, não era a divisão política. Era a zona do ‘meretríssimo’, como ensinou um irmão marista. Atualmente, as meninas estão em todo lugar. Fazem até anúncio em jornal. Daqui a pouco, chegam à televisão, já que na internet se espalharam. Acabou-se aquela fantasia de tomar uma cerveja na zona, de acompanhar Carlão, Curiango e Rays no domingo à tarde para “ver” as mulheres de Leobina ou Edna. Quiçá, uma rapidinha, a bacia no pé da cama para deixar tudo novo de novo, o rolo de papel higiênico pendurado no gradil da cama.
Não sobrou nem o ‘Café Columbia’ de “Seu Ciço”, onde estava a gemada mais gostosa de antes de dormir. Ou o ‘Rei do Sandwiche’, pregado em Cícero, como chamávamos Ciço. O ‘Bar Sibéria’, na esquina, com seu espetinho que Tião guardou a fórmula, a ‘Leiteria Celeste’ do Zé Priquitim. O tempo passou, a cidade se modernizou, montesclareou, montesqueceu. Não sobrou nem o café do ‘Zim Bolão’ nem a ‘Loteria Mineira’ de seu Donato, na esquina da Rua 15 com Simeão Ribeiro, e onde experimentei meus primeiros sorvetes da Kibon.
Os dias, as tardes, as noites montes-clarinas eram mais gostosas, diferentes, simples e tinha um quê de sensual. Tinham um quê dos quadros de Van Gogh. A gente podia ver até o café à noite, a enorme lanterna amarela que ilumina a esplanada e lança luz até as pedras da rua. As fachadas das casas que se prolonga sob um céu estrelado, de azul-escuro ou violeta.
Nos poços do rio Vieira até a Iara aparecia em noites de lua. Hoje os tempos são outros. O perigo ronda ao lado, o choro é mudo. Já nem faço mais a indagação em torno dessas diferenças. Muitos dos meus amigos se perderam na noite. Alguns, se mudaram de cidade, bairro, rua, quarteirão. Uns surgem de repente, na virada da esquina. Outros, vem em ondas telefônicas. Alguns mais, interneteiam-se e aparecem na tela, num baita susto.
Tem nada não, já ensinou Charles. Caminho é por onde se passa...
A saudade que sinto não é de tristeza, nem queima o peito. É apenas saudade que neste futuro a gente sente do passado, sem mudanças ou concessões, pois a gente é tão diferente da gente.
Os dias passam e não passam, enquanto aquelas velhas senhoras observam borboletas e pererecas, sentadas em tocos de pau no parque. Um pouco distante deitados na relva, um casal de namorados toma consciência de certas coisas, naquele vira e mexe. É o amor, diria o poeta - quiçá ele ainda nos salve. Pode-se observar que o verde do lugar é mais verde, embora a grama tenha verdes diferentes, desbotados aqui e ali. Psicologicamente, curto o encantamento simbiótico. Assim são estas coisas
Tenho muito ainda que andar, viver, aprender e aprontar por aí. Enquanto isso, assisto com meu filho, na televisão, o Pica-Pau, na Rede Record.
Everybody thinks I’m crazy/
Yeah! That’s me that’s me that’s me/
A couple of holes in everything/
“na-fa-got!” “I way ah-na-ha-ha”/
Crazy is me, and waht more can I do?
De fato, “todo mundo pensa que sou louco/ (...) sou louco, o que posso fazer”? Talvez escutar Billie Holliday...
O episódio “Antoine e Colette”, por exemplo, nos leva ao amor adolescente. Até a cor da vitrolinha dada de coração para a menina que morava no final da Rua João Pinheiro é igual à utilizada no quartinho de hotel em que ele fica. Só as músicas são outras. Ela gostava de Roberto, Caetano, Carpenters, Carole King. Ele, das francesas.
Alguns amores duram um tempo maior que outros. Isto acontece porque a gente vai crescendo e vendo o que é bom e o que vem do (a)mar... Nesta época, por exemplo, estava todo um amor adolescente, oculto, que cresceu e hoje se tornou vulto. Mas que bate no peito e, vez por outra, nos leva ao passado. Como outras coisas. Aquele era tempo de sorriso nos lábios, sanduíche de mortadela e guaraná. Eta, saudade! Mas saudade é para isso mesmo, sentir.
É preciso olhar essa vida antes e depois de assistir Butch Cassid e Sundance Kid no Cine Fátima. Época quando o amor salvava o tédio do dia a dia. Quem sabe um dia a gente se encontra no velho lugar!? Quem sabe um dia a gente ande de trem de ferro, coma salsichão num bar do bairro Barro Preto em Beagá, ou até torça para o mesmo time, assista novamente filmes que nos marcaram e ouça canções que nos perseguem.
Eu cresci assistindo filmes nos cinemas Fátima, São Luiz, Coronel Ribeiro, Ypiranga, Lafetá e Montes Claros. Velhas e boas tardes de domingo. Hoje, o DVD e a pirataria nos levam tudo em casa. Cresci lendo quadrinhos, que agora viraram graphic novels. Cresci brincando de finca na esplanada do Bom Jesus, na Malhada das Almas, e jogando bolinha de gude com João Véio, correndo as ruas no carrinho de rolimã com Márcio Hiram, subindo a serra do Mel com Agnaldo, João Ripão, Tino e Bodão. Hoje, não se vê mais estas brincadeiras, não existe serra, embora ela esteja lá e tentem colocar outros nomes nela.
No lugar em que a gente se acampava, bem na beirada do barranco, embaixo do pé de Jenipapo em que Charles, um dia, escreveu o nome de sua amada, não existe mais cachoeira. A serra virou ‘da Sapucaia’, ou ‘do Ibituruna’ engolindo o Mel e deixando a história em um canto qualquer. Acho que nem o pé de Jenipapo sobreviveu. Talvez o pé de goiaba branca da canção de Bodão ainda exista...
A Lapa Grande, a Pintada, a da Nascente e a Lapa D’Água, onde meu pai e Zé Manaíba me levavam aos domingos, virou parque que engoliu a fazenda de “Sêo” Pedro Veloso e dona Arinha. Ali os finais de semana eram de uma delícia só. Nunca mais andei a cavalo, nunca mais comi beiju com requeijão quente, nunca mais vi Arinha... Toda mata era boa, pois não tinha nem alçapão. Hoje, o perigo anda ao lado.
Aqui existia Montes Claros e a Montes Claros de baixo. Que não ficava na parte baixa da cidade, não era a divisão política. Era a zona do ‘meretríssimo’, como ensinou um irmão marista. Atualmente, as meninas estão em todo lugar. Fazem até anúncio em jornal. Daqui a pouco, chegam à televisão, já que na internet se espalharam. Acabou-se aquela fantasia de tomar uma cerveja na zona, de acompanhar Carlão, Curiango e Rays no domingo à tarde para “ver” as mulheres de Leobina ou Edna. Quiçá, uma rapidinha, a bacia no pé da cama para deixar tudo novo de novo, o rolo de papel higiênico pendurado no gradil da cama.
Não sobrou nem o ‘Café Columbia’ de “Seu Ciço”, onde estava a gemada mais gostosa de antes de dormir. Ou o ‘Rei do Sandwiche’, pregado em Cícero, como chamávamos Ciço. O ‘Bar Sibéria’, na esquina, com seu espetinho que Tião guardou a fórmula, a ‘Leiteria Celeste’ do Zé Priquitim. O tempo passou, a cidade se modernizou, montesclareou, montesqueceu. Não sobrou nem o café do ‘Zim Bolão’ nem a ‘Loteria Mineira’ de seu Donato, na esquina da Rua 15 com Simeão Ribeiro, e onde experimentei meus primeiros sorvetes da Kibon.
Os dias, as tardes, as noites montes-clarinas eram mais gostosas, diferentes, simples e tinha um quê de sensual. Tinham um quê dos quadros de Van Gogh. A gente podia ver até o café à noite, a enorme lanterna amarela que ilumina a esplanada e lança luz até as pedras da rua. As fachadas das casas que se prolonga sob um céu estrelado, de azul-escuro ou violeta.
Nos poços do rio Vieira até a Iara aparecia em noites de lua. Hoje os tempos são outros. O perigo ronda ao lado, o choro é mudo. Já nem faço mais a indagação em torno dessas diferenças. Muitos dos meus amigos se perderam na noite. Alguns, se mudaram de cidade, bairro, rua, quarteirão. Uns surgem de repente, na virada da esquina. Outros, vem em ondas telefônicas. Alguns mais, interneteiam-se e aparecem na tela, num baita susto.
Tem nada não, já ensinou Charles. Caminho é por onde se passa...
A saudade que sinto não é de tristeza, nem queima o peito. É apenas saudade que neste futuro a gente sente do passado, sem mudanças ou concessões, pois a gente é tão diferente da gente.
Os dias passam e não passam, enquanto aquelas velhas senhoras observam borboletas e pererecas, sentadas em tocos de pau no parque. Um pouco distante deitados na relva, um casal de namorados toma consciência de certas coisas, naquele vira e mexe. É o amor, diria o poeta - quiçá ele ainda nos salve. Pode-se observar que o verde do lugar é mais verde, embora a grama tenha verdes diferentes, desbotados aqui e ali. Psicologicamente, curto o encantamento simbiótico. Assim são estas coisas
Tenho muito ainda que andar, viver, aprender e aprontar por aí. Enquanto isso, assisto com meu filho, na televisão, o Pica-Pau, na Rede Record.
Everybody thinks I’m crazy/
Yeah! That’s me that’s me that’s me/
A couple of holes in everything/
“na-fa-got!” “I way ah-na-ha-ha”/
Crazy is me, and waht more can I do?
De fato, “todo mundo pensa que sou louco/ (...) sou louco, o que posso fazer”? Talvez escutar Billie Holliday...
Desatanto queixumes e idéias
No bar do Zim (ou Zinho, como o chama Haroldo Lívio) Bolão tinha uma boa Viriatinha, que a gente tomava e tirava o gosto com um pá de farofa, que o Ernesto nos servia numa colher. Era sempre pela manhã, nada pra fazer além de andar por aquele centro.
E no centro, o espaço mítico-sagrado com maior poder de sedução e encanto era, justamente, naquela época, as proximidades de Zim Bolão, ao lado do Cine São Luiz e em frente a Discobrasa do Severino, Dequinha e Toninho.
Dequinha aparecia, vez por outra, montado num tamanco de madeira, bem alto, que lhe aumentava o tamanho pequenininho. Vinha com aquele jeitão todo seu de ser, que traz até hoje.
Sempre que chegava um disco diferente, novo, me dava o toque. Uma vez passei por lá com a Marta e ele veio cheio de dedos, cheio de nãometoques, com o LP do John Lennon, Some Time in New York City. Tinha pedido um só. Pra mim! O mesmo ela havia feito com o álbum Tommy, do The Who, o Exile On Main Street, dos Stones. Dequinha gostava tanto de me vender que chegava a brigar com Toninho, indiscutivelmente o homem que dizia conhecer a musica que fazia a cabeça. Mas era com Dequinha que eu tinha maior carinho. Quando pequenos, defendíamos o mesmo time no campinho Beira Rio, na baixada, ou na Praça de Esportes. Quando mais velhos, depois desta fase, fomos compadres, com ele batizando minha filha Bianca. E eu gostava pois sempre fazia Zeferino pedir os meus gostos. Pelo menos um só. Pra mim!
Na área dos brasileiros era Caetano, Jard’s Macalé, Luiz Melodia. Sempre pedia um só. Para atender meu gosto. Um companheirão o Geraldo Dequinha, tão companheiro que mesmo longe, mesmo sem a gente se encontrar como deveria, estamos perto. Hoje, mora em Lagoa dos Patos, onde descansa dos perigos desta vida, pesca e anda por aqueles matos recheados de codorna, o que sabe preparar muito bem.
Toninho da Discobrasa era diferente. Não atendia a ninguém que vinha lhe pedir um disco mais brega. Tinha seu jeito peculiar de conversar, passando a mão na frente da boca, imitado pelo Jorginho Santos ou Tico Lopes, de quem ficou inimigo durante vários anos por causa disso.
Se alguém entrasse pedindo um disco do Odair José, ele não vendia. E ainda tentava convencer o comprador de que o cantor não prestava. Logo Odair que se transformou no maior ídolo da música brega, vendeu milhões de discos e emplacou hits como “Pare de Tomar a Pílula”, “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”. Nem quando aconteceu o Phono 73, quando Caetano cantou esta segunda música com o Odair, nada disto servia para mexer com os brios de Toninho. “Caetano está virando brega”, dizia a época. Toninho hoje trabalha como frentista, em um posto de gasolina. A vida para ele foi mais dura do que para Dequinha.
Some Time in New York City ficou na casa de alguém, nessa minha vida andante. Como Exile On Main Street e Tommy. Some Time era um dos meus álbuns prediletos.
Lembro de ouvir e curtir muito “Cold Turkey”, “New York City”, “Woman Is the Nigger of the World” e, principalmente, “Sunday Bloody Sunday”. Quem me chamou a atenção para essa canção foi o Geraldão Ferreira, da Rádio Cultura de Beagá. Ela fazia referência a Irlanda do Norte. No dia 30 de janeiro de 1972, a polícia matou treze pessoas que participavam de uma passeata católica contra o governo do país, e o fato ficou conhecido como Domingo Sangrento (Bloody Sunday). Anos mais tarde o grupo U2 faria também uma música com mesmo nome em referência ao fato.
Geraldão me conduzia pelo fio musical desde que estava em Montes Claros, na ZYD7 do Elias Siufi, nos anos sessenta do século XX. Ele namorava minha irmã, Zelita, o que era um escândalo naquela época. Ele negro, morador do Morrinho, na década de 1960. Ela, uma branca da Dr. Veloso. Imagina!
Pois eu não estava nem aí. Fiquei amigo do Geraldão, que tanto aprontou com o José Maria Peito de Aço na escola. Devo a Geraldão muitos dos meus passos na área musical. Depois ele foi pra capital, trabalhou na Itatiaia, mexeu na TV Vila Rica, colocou a Cultura e a Extra FM no ar, deu uma chegada a Porto Seguro passou pela TV Minas, pela Rádio Inconfidência e hoje está estacionado ao lado da Zelita, numa casinha gostosa na rua Major Barbosa, lá na Santa Efigênia. Na verdade, moderadamente estacionado. Foi responsável pela ida de diversos locutores montes-clarenses para Beagá. Padrinho da 98,9 FM, lembro dele dando dicas no seu programa “Ritmos da Noite” da Cultura, batendo papo ao vivo com Bob Marley ou Elthon John. É formado em Engenharia, quem diria. E fez a vida na rádio...
O Quarteirão do Povo, naquela época, ainda tinha calçamento de paralelepípedo, nem se sonhava com aqueles jardins da Babilônia. Cobertura (que ainda não veio), então, nem se falava... Mas o bar do Zim Bolão estava lá, para o cafezinho, o bate-papo, uma cerveja gelada no fim de tarde, no inicio da manhã, na hora do almoço. Parecia uma daquelas grutas da capital, comprida igual a elas, mas mais fina, não acompanhando o dono. E cada gole da pura e santa Viriatinha no ritualístico estalado da língua ia, aos poucos, desatando queixumes e idéias.
Em frente a Discobrasa, do lado do São Luiz, fica o Tone Nascimento, com um cubiculozinho deste tamainho (continua lá ainda hoje o espaço, transformado numa relojoaria). Era a loja do Tone K7, onde eu curtia boas músicas quando Severino não deixava a gente ficar na Discobrasa. Alik Poppof, Washington, Wellington Vieira, Eduardo Brasil, Ernani Camisasca, todos passavam por ali, queria Severino ou não queria.
Às vezes, de sacanagem, eu colocava um Beatles para tocar no Tone, bem mais alto que o normal, só para atentar Severino, a quem cheguei a emprestar meus gravadores - vez por outra -, quando a atividade pirata dele, de gravar fitas K7 - como em Tone -, falhava. Quem acordava feliz era o Farley Alcântara, que morava ao lado e em cima. Ele e Marcelo desciam, aí o papo rolava, a música não trocava e a venda não saia.
Quando o Tone pedia, gentilmente, para darmos um tempo, voltávamos pro Zim pra mais uma rodada de Viriatinha. E a alma, livre e leva no azalão dos sonhos, cavalgava por montes nunca dantes ultrapassados, no aboio e na lembrança de amores que se foram.
Deus seja louvado!
E no centro, o espaço mítico-sagrado com maior poder de sedução e encanto era, justamente, naquela época, as proximidades de Zim Bolão, ao lado do Cine São Luiz e em frente a Discobrasa do Severino, Dequinha e Toninho.
Dequinha aparecia, vez por outra, montado num tamanco de madeira, bem alto, que lhe aumentava o tamanho pequenininho. Vinha com aquele jeitão todo seu de ser, que traz até hoje.
Sempre que chegava um disco diferente, novo, me dava o toque. Uma vez passei por lá com a Marta e ele veio cheio de dedos, cheio de nãometoques, com o LP do John Lennon, Some Time in New York City. Tinha pedido um só. Pra mim! O mesmo ela havia feito com o álbum Tommy, do The Who, o Exile On Main Street, dos Stones. Dequinha gostava tanto de me vender que chegava a brigar com Toninho, indiscutivelmente o homem que dizia conhecer a musica que fazia a cabeça. Mas era com Dequinha que eu tinha maior carinho. Quando pequenos, defendíamos o mesmo time no campinho Beira Rio, na baixada, ou na Praça de Esportes. Quando mais velhos, depois desta fase, fomos compadres, com ele batizando minha filha Bianca. E eu gostava pois sempre fazia Zeferino pedir os meus gostos. Pelo menos um só. Pra mim!
Na área dos brasileiros era Caetano, Jard’s Macalé, Luiz Melodia. Sempre pedia um só. Para atender meu gosto. Um companheirão o Geraldo Dequinha, tão companheiro que mesmo longe, mesmo sem a gente se encontrar como deveria, estamos perto. Hoje, mora em Lagoa dos Patos, onde descansa dos perigos desta vida, pesca e anda por aqueles matos recheados de codorna, o que sabe preparar muito bem.
Toninho da Discobrasa era diferente. Não atendia a ninguém que vinha lhe pedir um disco mais brega. Tinha seu jeito peculiar de conversar, passando a mão na frente da boca, imitado pelo Jorginho Santos ou Tico Lopes, de quem ficou inimigo durante vários anos por causa disso.
Se alguém entrasse pedindo um disco do Odair José, ele não vendia. E ainda tentava convencer o comprador de que o cantor não prestava. Logo Odair que se transformou no maior ídolo da música brega, vendeu milhões de discos e emplacou hits como “Pare de Tomar a Pílula”, “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”. Nem quando aconteceu o Phono 73, quando Caetano cantou esta segunda música com o Odair, nada disto servia para mexer com os brios de Toninho. “Caetano está virando brega”, dizia a época. Toninho hoje trabalha como frentista, em um posto de gasolina. A vida para ele foi mais dura do que para Dequinha.
Some Time in New York City ficou na casa de alguém, nessa minha vida andante. Como Exile On Main Street e Tommy. Some Time era um dos meus álbuns prediletos.
Lembro de ouvir e curtir muito “Cold Turkey”, “New York City”, “Woman Is the Nigger of the World” e, principalmente, “Sunday Bloody Sunday”. Quem me chamou a atenção para essa canção foi o Geraldão Ferreira, da Rádio Cultura de Beagá. Ela fazia referência a Irlanda do Norte. No dia 30 de janeiro de 1972, a polícia matou treze pessoas que participavam de uma passeata católica contra o governo do país, e o fato ficou conhecido como Domingo Sangrento (Bloody Sunday). Anos mais tarde o grupo U2 faria também uma música com mesmo nome em referência ao fato.
Geraldão me conduzia pelo fio musical desde que estava em Montes Claros, na ZYD7 do Elias Siufi, nos anos sessenta do século XX. Ele namorava minha irmã, Zelita, o que era um escândalo naquela época. Ele negro, morador do Morrinho, na década de 1960. Ela, uma branca da Dr. Veloso. Imagina!
Pois eu não estava nem aí. Fiquei amigo do Geraldão, que tanto aprontou com o José Maria Peito de Aço na escola. Devo a Geraldão muitos dos meus passos na área musical. Depois ele foi pra capital, trabalhou na Itatiaia, mexeu na TV Vila Rica, colocou a Cultura e a Extra FM no ar, deu uma chegada a Porto Seguro passou pela TV Minas, pela Rádio Inconfidência e hoje está estacionado ao lado da Zelita, numa casinha gostosa na rua Major Barbosa, lá na Santa Efigênia. Na verdade, moderadamente estacionado. Foi responsável pela ida de diversos locutores montes-clarenses para Beagá. Padrinho da 98,9 FM, lembro dele dando dicas no seu programa “Ritmos da Noite” da Cultura, batendo papo ao vivo com Bob Marley ou Elthon John. É formado em Engenharia, quem diria. E fez a vida na rádio...
O Quarteirão do Povo, naquela época, ainda tinha calçamento de paralelepípedo, nem se sonhava com aqueles jardins da Babilônia. Cobertura (que ainda não veio), então, nem se falava... Mas o bar do Zim Bolão estava lá, para o cafezinho, o bate-papo, uma cerveja gelada no fim de tarde, no inicio da manhã, na hora do almoço. Parecia uma daquelas grutas da capital, comprida igual a elas, mas mais fina, não acompanhando o dono. E cada gole da pura e santa Viriatinha no ritualístico estalado da língua ia, aos poucos, desatando queixumes e idéias.
Em frente a Discobrasa, do lado do São Luiz, fica o Tone Nascimento, com um cubiculozinho deste tamainho (continua lá ainda hoje o espaço, transformado numa relojoaria). Era a loja do Tone K7, onde eu curtia boas músicas quando Severino não deixava a gente ficar na Discobrasa. Alik Poppof, Washington, Wellington Vieira, Eduardo Brasil, Ernani Camisasca, todos passavam por ali, queria Severino ou não queria.
Às vezes, de sacanagem, eu colocava um Beatles para tocar no Tone, bem mais alto que o normal, só para atentar Severino, a quem cheguei a emprestar meus gravadores - vez por outra -, quando a atividade pirata dele, de gravar fitas K7 - como em Tone -, falhava. Quem acordava feliz era o Farley Alcântara, que morava ao lado e em cima. Ele e Marcelo desciam, aí o papo rolava, a música não trocava e a venda não saia.
Quando o Tone pedia, gentilmente, para darmos um tempo, voltávamos pro Zim pra mais uma rodada de Viriatinha. E a alma, livre e leva no azalão dos sonhos, cavalgava por montes nunca dantes ultrapassados, no aboio e na lembrança de amores que se foram.
Deus seja louvado!
sábado, 29 de janeiro de 2011
São demais os perigos desta vida
Estava para atravessar a Avenida Deputado Esteves Rodrigues, sábado a noite, perto do Papaula, quando fui abraçado por trás. O perfume denunciava. Era Leya Bloodymary. Linda, como sempre, nos seus anos já passados. Leve, solta, com aquela voz de ternura.
Usava um vestido preto básico, leve e curto, sandálias altas. Uma mulher intrigante. Sabe que a distância entre o vício e a virtude é apenas uma dose a mais de uísque.
Me abraça forte, me beija como louca de ternura e me entrega um bilhetinho. Fala rápido de coisas e cousas, parece ter pressa. Difícil conversar com ela por causa das pausas, das reticências, dos silêncios. Desta vez, fala de dentro do coração. Que animação. É o clichê da vida.
“Leia depois... Dê uma bicota na Bianca”- e sumiu no meio daquela juventude, com toda sua juventura. Uma graça. A lua parecia lhe dizer: te amo!
Vou te contar, nem dá pra crer o que estava ali, naquelas mal traçadas linhas: “Lu, obrigado por me lembrar. E muito obrigado por não me revelar. M”.
Agora, fico encantado olhando distante no fundo do pomar a mangueira carregada de frutos rosados. Fico encantado olhando distante o infinito com o bilhete na mão. Descubro que somos amorosos, somos seresteiros, somos trabalhadores, somos amigos da vida.
Leya me lembra isso com tanta facilidade, com aquele corpinho frágil. Magra, parece Mirinha Maciel, tinha os mesmos sonhos de Mirinha, de se tornar juíza, mas de crimes contra a humanidade. Quais seriam estes crimes? Nem ela saberia relatar.
A vaca sagrada da terra de Gandhi me aparece por toda a semana, como um fantasma rondando a casa, o trabalho, os bares, as ruas.
Olha, não é nada disso embora eu não saiba dizer mais nada, mais nada além das coisas que sempre ficaram caladas. É até fácil de se entender. Acredito que ela só apareceu para dizer adeus, mas disse também “estou aí, a gente podia até fazer umas molecagens, sair por aí, fazer um álbum de fotografias” - já que ela gosta tanto. Só pra depois queimar e depois lembrar. Coisas que Leya me ensina. Ensinou-me. Me ensinará mais a frente.
Me veem lembranças, de quando um dia, no bar do João, na rua Dr. Santos, notei toda sua sensibilidade de tratar temas que, mais do que adolescentes, falavam do que sobra da adolescência pelo resto da vida. Como a vocação para amar errado ou a certeza de que não encaixa neste mundo. Hoje está tão raro encontrar alguém com a opinião pessoal formada – mesmo que esteja errada – sobre seja lá o que for. Leya Bloodymary sempre as teve. Sempre as tem.
Às vezes, a gente deixa de ser interessante. Passa a não ser convidado para encontros com amigos. Ai encontramos com um destes amigos na rua e ele diz “você está sumido”. Como se fôssemos o culpado.
Será que é isso que aconteceu naquele encontro perto do Papaula, com ela e eu?
A partir de um tempo na vida, a gente não tem mais preocupação com a forma física. Como Leya Bloodymary, também já fui considerado bonitinho, o que já não era tanto assim, mas foda-se se eu não for mais. To mais gordo, relaxado, já estive doente. Estou. Mas trato. A gente vai ficando mais velho e passa a entender que você não é porra nenhuma. E é tudo! Sou um projeto de escritor. Finito. Como tantos outros. Que lembra uma amiga distante num artigo e a encontra na avenida...
E Leya era feliz? Não sei. Eu era feliz? Não sei. Fui-o outrora agora, como ensina Ana Luisa Escorel... Quem era o mestre na delicadeza e fazia fábulas literárias sobre o vazio da existência a dois era François Truffaut, não eu.
Ultimamente baguncei meu coreto e pendi para o realismo – no que mantive uma única atitude firme: a de não ser mais tão otimista.
Leya pelo menos não é como meu amigo Edivaldo. Edivaldo ficava pensando na vida. Assim como ontem, na semana passada, no ano passado. Sempre pensando na vida. A esta altura ele já devia ter chegado a uma conclusão.
Leya me ensinou os ossos do ofício, o caminho do ofídio. Ela é pedra que não se consome. Leya apareceu na noite, numa avenida que gosta, sensual. Acredito que essa sensualidade faça parte de sua vida desde a infância, embora com os cabelos desgrenhados. Isto, apesar de eu a ter conhecido só quando fez seus 19 anos. E hoje, tantos anos depois, continua viva. Respirando, provocando todo mundo. Vive com prazer. Com ternura.
Leya, sei, ainda é bela e sedutora. Não sei como vive hoje, mas nos anos 1980 chegou a viver de empregos modestos, quase bicos. Morou em lugares insalubres, que enfeitava com desenhos que produzia e com os feitos pelos amigos nas mesas de bar. Com do Georgino Junior, Roberto Marques, meus. É, ela ainda tem alguns desenhos meus... Só ela e Tino.
Uma vez, descobri com meus bilongues o que Leya comia. Ai, ai, ai, mas deu uma melancolia...
Teve época que comeu sanduíche no almoço e jantar. Passou por um pequeno inferno. Era uma sonhadora. Sem dinheiro para comprar um remédio qualquer para dor de cabeça – ou ressaca -, fazia planos para conhecer Roberto Carlos. O que fez, quando ele esteve aqui, numa apresentação histórica no ginásio poliesportivo Tancredo Neves. Tirou fotos com ele e Paulo César Santiago no avião que os trouxe e os levou.
Lembro dela me contando que tinha uma amizade com um alien que viveu na casa vizinha a sua, na Pires e Albuquerque. Existia um barzinho na esquina, que o Sidney cruz adorava e não me deixa mentir. Às vezes nos dois, eu e Leya, e mais Elthomar Santoro Junior, sentávamos num murinho que tinha em frente à casa, fumávamos umzinho, dava uns tapas. Não chegava a ver a lua e o céu caindo como o Junior, mas passávamos perto. Elthomar pegava o violão e tocava suas canções, lindas como o tempo. Acredito que foi ela quem o inspirou na canção “Maria Aparecida”. Sei não, sei não... Houve só uma troca de nomes e lugares...
Leya quer escrever um livro sobre sua história de amor, mas tem medo de magoar as pessoas. Traz em si aquele não sei o que de promíscuo que desequilibra os homens. Ela que morou na Montes Claros idílica, distante, tem medo de acordar um dia e descobrir que não amou ninguém. Uma coisa eu sei: não tem aquela preguiça intelectual, típica da maioria das pessoas do mundo da cultura. O livro já deve estar pronto.
Tem alguma coisa melhor do que realizar um sonho sonhado durante muito tempo?
Usava um vestido preto básico, leve e curto, sandálias altas. Uma mulher intrigante. Sabe que a distância entre o vício e a virtude é apenas uma dose a mais de uísque.
Me abraça forte, me beija como louca de ternura e me entrega um bilhetinho. Fala rápido de coisas e cousas, parece ter pressa. Difícil conversar com ela por causa das pausas, das reticências, dos silêncios. Desta vez, fala de dentro do coração. Que animação. É o clichê da vida.
“Leia depois... Dê uma bicota na Bianca”- e sumiu no meio daquela juventude, com toda sua juventura. Uma graça. A lua parecia lhe dizer: te amo!
Vou te contar, nem dá pra crer o que estava ali, naquelas mal traçadas linhas: “Lu, obrigado por me lembrar. E muito obrigado por não me revelar. M”.
Agora, fico encantado olhando distante no fundo do pomar a mangueira carregada de frutos rosados. Fico encantado olhando distante o infinito com o bilhete na mão. Descubro que somos amorosos, somos seresteiros, somos trabalhadores, somos amigos da vida.
Leya me lembra isso com tanta facilidade, com aquele corpinho frágil. Magra, parece Mirinha Maciel, tinha os mesmos sonhos de Mirinha, de se tornar juíza, mas de crimes contra a humanidade. Quais seriam estes crimes? Nem ela saberia relatar.
A vaca sagrada da terra de Gandhi me aparece por toda a semana, como um fantasma rondando a casa, o trabalho, os bares, as ruas.
Olha, não é nada disso embora eu não saiba dizer mais nada, mais nada além das coisas que sempre ficaram caladas. É até fácil de se entender. Acredito que ela só apareceu para dizer adeus, mas disse também “estou aí, a gente podia até fazer umas molecagens, sair por aí, fazer um álbum de fotografias” - já que ela gosta tanto. Só pra depois queimar e depois lembrar. Coisas que Leya me ensina. Ensinou-me. Me ensinará mais a frente.
Me veem lembranças, de quando um dia, no bar do João, na rua Dr. Santos, notei toda sua sensibilidade de tratar temas que, mais do que adolescentes, falavam do que sobra da adolescência pelo resto da vida. Como a vocação para amar errado ou a certeza de que não encaixa neste mundo. Hoje está tão raro encontrar alguém com a opinião pessoal formada – mesmo que esteja errada – sobre seja lá o que for. Leya Bloodymary sempre as teve. Sempre as tem.
Às vezes, a gente deixa de ser interessante. Passa a não ser convidado para encontros com amigos. Ai encontramos com um destes amigos na rua e ele diz “você está sumido”. Como se fôssemos o culpado.
Será que é isso que aconteceu naquele encontro perto do Papaula, com ela e eu?
A partir de um tempo na vida, a gente não tem mais preocupação com a forma física. Como Leya Bloodymary, também já fui considerado bonitinho, o que já não era tanto assim, mas foda-se se eu não for mais. To mais gordo, relaxado, já estive doente. Estou. Mas trato. A gente vai ficando mais velho e passa a entender que você não é porra nenhuma. E é tudo! Sou um projeto de escritor. Finito. Como tantos outros. Que lembra uma amiga distante num artigo e a encontra na avenida...
E Leya era feliz? Não sei. Eu era feliz? Não sei. Fui-o outrora agora, como ensina Ana Luisa Escorel... Quem era o mestre na delicadeza e fazia fábulas literárias sobre o vazio da existência a dois era François Truffaut, não eu.
Ultimamente baguncei meu coreto e pendi para o realismo – no que mantive uma única atitude firme: a de não ser mais tão otimista.
Leya pelo menos não é como meu amigo Edivaldo. Edivaldo ficava pensando na vida. Assim como ontem, na semana passada, no ano passado. Sempre pensando na vida. A esta altura ele já devia ter chegado a uma conclusão.
Leya me ensinou os ossos do ofício, o caminho do ofídio. Ela é pedra que não se consome. Leya apareceu na noite, numa avenida que gosta, sensual. Acredito que essa sensualidade faça parte de sua vida desde a infância, embora com os cabelos desgrenhados. Isto, apesar de eu a ter conhecido só quando fez seus 19 anos. E hoje, tantos anos depois, continua viva. Respirando, provocando todo mundo. Vive com prazer. Com ternura.
Leya, sei, ainda é bela e sedutora. Não sei como vive hoje, mas nos anos 1980 chegou a viver de empregos modestos, quase bicos. Morou em lugares insalubres, que enfeitava com desenhos que produzia e com os feitos pelos amigos nas mesas de bar. Com do Georgino Junior, Roberto Marques, meus. É, ela ainda tem alguns desenhos meus... Só ela e Tino.
Uma vez, descobri com meus bilongues o que Leya comia. Ai, ai, ai, mas deu uma melancolia...
Teve época que comeu sanduíche no almoço e jantar. Passou por um pequeno inferno. Era uma sonhadora. Sem dinheiro para comprar um remédio qualquer para dor de cabeça – ou ressaca -, fazia planos para conhecer Roberto Carlos. O que fez, quando ele esteve aqui, numa apresentação histórica no ginásio poliesportivo Tancredo Neves. Tirou fotos com ele e Paulo César Santiago no avião que os trouxe e os levou.
Lembro dela me contando que tinha uma amizade com um alien que viveu na casa vizinha a sua, na Pires e Albuquerque. Existia um barzinho na esquina, que o Sidney cruz adorava e não me deixa mentir. Às vezes nos dois, eu e Leya, e mais Elthomar Santoro Junior, sentávamos num murinho que tinha em frente à casa, fumávamos umzinho, dava uns tapas. Não chegava a ver a lua e o céu caindo como o Junior, mas passávamos perto. Elthomar pegava o violão e tocava suas canções, lindas como o tempo. Acredito que foi ela quem o inspirou na canção “Maria Aparecida”. Sei não, sei não... Houve só uma troca de nomes e lugares...
Leya quer escrever um livro sobre sua história de amor, mas tem medo de magoar as pessoas. Traz em si aquele não sei o que de promíscuo que desequilibra os homens. Ela que morou na Montes Claros idílica, distante, tem medo de acordar um dia e descobrir que não amou ninguém. Uma coisa eu sei: não tem aquela preguiça intelectual, típica da maioria das pessoas do mundo da cultura. O livro já deve estar pronto.
Tem alguma coisa melhor do que realizar um sonho sonhado durante muito tempo?
Pra conhecer Leya Bloodymary
Leya Bloodymary tem os cabelos desgrenhados, a boca rósea e um par de pernas suculentas. Tem um jeito de olhar estranho. Olha para as pessoas de baixo para cima, como se fosse de cima para baixo, estudando o comportamento.
Houve uma época que gostava de fumar maconha. Hoje em dia só de quando em vez, em casa, no sossego da madrugada. Onde gosta de fica escutando Caetano cantar “Sozinho”. Adora vinho, uísque e cerveja. Gosta de tomar banho de sol ou passar o dia nos shoppings, olhando vitrines. Não se apaixona, não consegue segurar um afeto. É um personagem dramático. Já teve noitadas regadas a fileiras de cocaína e fez sexo como quem troca de roupa. Agora, a figura está mais calma. Mas se lixa para o resto. Diz que viveu o vazio dos excessos.
Sua mãe era louca por circo e pela cantora Maysa. Cantarolava pela casa ‘Alguém me disse que tu andas novamente/ De novo amor, nova paixão todo contente/ Conheço bem tuas promessas, outras ouvi iguais a essas/ Esse teu jeito de enganar, conheço bem”.
Levou Leya para Belo Horizonte, a capital de Minas, diversas vezes, para assistirem filmes ou simplesmente andarem pelo parque municipal. Ali, ela ficava apreciando os barcos no lago e a mãe, louca, com olhos arregalados, segurava um cigarro entre os dedos por quase uma hora antes de acender e tragar gostosamente. E conversava com Léo, sua amiga de muitos anos da Santa Casa de Misericórdia.
Leya lembra muito de Léo. Era sua madrinha, fazia seus gostos. Um dia, por causa de nãosesabebemoque, Léo entrou em coma. Os médicos diziam ser um coma flutuante. O que era isso até hoje Leya não sabe. Algum tempo depois Léo subiu aos céus. Só pode, devido a sua alma boníssima e seu peso, um tanto quanto avantajado.
Passava horas com a madrinha, que ficava com os olhos abertos, reagia aos assuntos que lhe contavam, principalmente aos sexuais, mas não interagia com o mundo. Parecia representar a comédia da vida, estando mais morta que viva. Um cadáver animado. Morreu assim, como passarim. Mas sem pedrada.
A mãe de Leya não chorou no enterro. Quando seus olhos pareciam marejar, dava um volteio qualquer e ressurgia forte com o cigarro entre os dedos. Apagado. Para ser aceso quase uma hora depois.
Leya Bloodymary gosta de viver atrelada à noite e ao consumo, com um ciclo de vida repetitivo de novas descobertas nos mesmos lugares. Lê Charles Baudelaire e Paulo Coelho, Augusto José Vieira Neto e Carlos Drummond de Andrade.
Diz ter cantado com Reinaldo Nunes, Luiz Guedes, Herbert Caldeira e Geraldo Madureira no grupo “Os Eremitas”, na década de 1960 - ou por ali. E ai de quem duvidar. Mostra uma gravação em uma fita de rolo antiga, em que mal se distinguem vozes e guitarras. Também tem fotos das apresentações, mania que guarda até hoje. Tem até um blog na internet onde as publica.
Itamaury Telles diz que era bonita e gostosa, como música das Frenéticas. Na verdade, uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel, uma mulher, uma beleza, que lhe aconteceu, com pêlos tremendo ao vento ateu. Gostava de política e até posou para a Playboy.
Sei que Leya tem uma coleção de revistas de sacanagem, das antigas, aqueles catecismos de Carlos Zéfiro. E consegue se excitar todas as vezes que as lê.
De quando em quando fica louca doida varrida por uma música bate-estaca e a ouve horas sucessivas tempos seguidos. “Aos 15 anos entrei numa boate e nunca mais saí”, costumava dizer, com olhos fundos, de quem não dormiu direito. É como uma obra de Picasso, onde os pontos de vista são múltiplos e observa-se a superfície.
Leya vive atualmente no centro da cidade, perto do antigo Cine Montes Claros, numa quitinete, quase sempre sem grana mas não esquecida pelo povo.
Nos anos 70, participou da banda The Wilds, os selvagens do Tino Gomes. Não era grupo de rock, nem conjunto de música de baile, mas uma coisa entre um e outro que até hoje não sabe explicar. Fez backing vocal, como havia feito n’Os Eremitas. Só não tem provas. Nem mesmo uma foto, ela que é uma aguerrida fotogastrica.
Hoje, fica perambulando pela Avenida Sanitária, caçando ninfetas, pedregulhos sem ilusões. É patético ver um velho personagem que poderia ter saído dos quadrinhos num mundo de jovens, querendo parecer um jovem. O tempo tratou de colocar tal personagem no devido lugar: nem tanto no céu, nem tanto no inferno.
Uma vez, louca, pelas ruas andava. A coitada chorava, transformou-se até em vagabunda, personagem de tira de Márcio Leite. Depois, mais alegre, resolveu que sua vida seria de patricinha. A mudança não era tanta, mas continuou personagem. Agora com estórias escritas pelo Aldous Huxley ilustradas pelo Georgino Junior.
Leya sempre acreditou que os marcianos estão infiltrados entre nós. Cita até alguns viventes e outros, já morrentes. O que não vem ao caso. Agora.
Gostava de ir ao Ponto do Paulinho, na Malhada dos Santos Reis. É ainda hoje o ponto de encontro de amigos e pessoas simples e puras. Não vai lá faz um tempo.
Leya gosta de ser chamada de Bodanzky, e se considera uma vaca sagrada da terra de Gandhi. Não há travesti sagrado, divindade mirim, bovino endeusado ou piloto de elefante que resista a suas maluquices, sua esquisitice, sua genialidade ou suas mágicas.
Une o passado e presente, sagrado e mundano, real e fantástico, comédia e terror. Não há nela qualquer vestígio da busca do inusitado pelo inusitado, do artifício pelo artifício, do artístico pelo artístico.
Difícil conversar com ela por causa das pausas, das reticências, dos silêncios. Mas vamos conhecê-la melhor.
Ah! Se vamos...
Houve uma época que gostava de fumar maconha. Hoje em dia só de quando em vez, em casa, no sossego da madrugada. Onde gosta de fica escutando Caetano cantar “Sozinho”. Adora vinho, uísque e cerveja. Gosta de tomar banho de sol ou passar o dia nos shoppings, olhando vitrines. Não se apaixona, não consegue segurar um afeto. É um personagem dramático. Já teve noitadas regadas a fileiras de cocaína e fez sexo como quem troca de roupa. Agora, a figura está mais calma. Mas se lixa para o resto. Diz que viveu o vazio dos excessos.
Sua mãe era louca por circo e pela cantora Maysa. Cantarolava pela casa ‘Alguém me disse que tu andas novamente/ De novo amor, nova paixão todo contente/ Conheço bem tuas promessas, outras ouvi iguais a essas/ Esse teu jeito de enganar, conheço bem”.
Levou Leya para Belo Horizonte, a capital de Minas, diversas vezes, para assistirem filmes ou simplesmente andarem pelo parque municipal. Ali, ela ficava apreciando os barcos no lago e a mãe, louca, com olhos arregalados, segurava um cigarro entre os dedos por quase uma hora antes de acender e tragar gostosamente. E conversava com Léo, sua amiga de muitos anos da Santa Casa de Misericórdia.
Leya lembra muito de Léo. Era sua madrinha, fazia seus gostos. Um dia, por causa de nãosesabebemoque, Léo entrou em coma. Os médicos diziam ser um coma flutuante. O que era isso até hoje Leya não sabe. Algum tempo depois Léo subiu aos céus. Só pode, devido a sua alma boníssima e seu peso, um tanto quanto avantajado.
Passava horas com a madrinha, que ficava com os olhos abertos, reagia aos assuntos que lhe contavam, principalmente aos sexuais, mas não interagia com o mundo. Parecia representar a comédia da vida, estando mais morta que viva. Um cadáver animado. Morreu assim, como passarim. Mas sem pedrada.
A mãe de Leya não chorou no enterro. Quando seus olhos pareciam marejar, dava um volteio qualquer e ressurgia forte com o cigarro entre os dedos. Apagado. Para ser aceso quase uma hora depois.
Leya Bloodymary gosta de viver atrelada à noite e ao consumo, com um ciclo de vida repetitivo de novas descobertas nos mesmos lugares. Lê Charles Baudelaire e Paulo Coelho, Augusto José Vieira Neto e Carlos Drummond de Andrade.
Diz ter cantado com Reinaldo Nunes, Luiz Guedes, Herbert Caldeira e Geraldo Madureira no grupo “Os Eremitas”, na década de 1960 - ou por ali. E ai de quem duvidar. Mostra uma gravação em uma fita de rolo antiga, em que mal se distinguem vozes e guitarras. Também tem fotos das apresentações, mania que guarda até hoje. Tem até um blog na internet onde as publica.
Itamaury Telles diz que era bonita e gostosa, como música das Frenéticas. Na verdade, uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel, uma mulher, uma beleza, que lhe aconteceu, com pêlos tremendo ao vento ateu. Gostava de política e até posou para a Playboy.
Sei que Leya tem uma coleção de revistas de sacanagem, das antigas, aqueles catecismos de Carlos Zéfiro. E consegue se excitar todas as vezes que as lê.
De quando em quando fica louca doida varrida por uma música bate-estaca e a ouve horas sucessivas tempos seguidos. “Aos 15 anos entrei numa boate e nunca mais saí”, costumava dizer, com olhos fundos, de quem não dormiu direito. É como uma obra de Picasso, onde os pontos de vista são múltiplos e observa-se a superfície.
Leya vive atualmente no centro da cidade, perto do antigo Cine Montes Claros, numa quitinete, quase sempre sem grana mas não esquecida pelo povo.
Nos anos 70, participou da banda The Wilds, os selvagens do Tino Gomes. Não era grupo de rock, nem conjunto de música de baile, mas uma coisa entre um e outro que até hoje não sabe explicar. Fez backing vocal, como havia feito n’Os Eremitas. Só não tem provas. Nem mesmo uma foto, ela que é uma aguerrida fotogastrica.
Hoje, fica perambulando pela Avenida Sanitária, caçando ninfetas, pedregulhos sem ilusões. É patético ver um velho personagem que poderia ter saído dos quadrinhos num mundo de jovens, querendo parecer um jovem. O tempo tratou de colocar tal personagem no devido lugar: nem tanto no céu, nem tanto no inferno.
Uma vez, louca, pelas ruas andava. A coitada chorava, transformou-se até em vagabunda, personagem de tira de Márcio Leite. Depois, mais alegre, resolveu que sua vida seria de patricinha. A mudança não era tanta, mas continuou personagem. Agora com estórias escritas pelo Aldous Huxley ilustradas pelo Georgino Junior.
Leya sempre acreditou que os marcianos estão infiltrados entre nós. Cita até alguns viventes e outros, já morrentes. O que não vem ao caso. Agora.
Gostava de ir ao Ponto do Paulinho, na Malhada dos Santos Reis. É ainda hoje o ponto de encontro de amigos e pessoas simples e puras. Não vai lá faz um tempo.
Leya gosta de ser chamada de Bodanzky, e se considera uma vaca sagrada da terra de Gandhi. Não há travesti sagrado, divindade mirim, bovino endeusado ou piloto de elefante que resista a suas maluquices, sua esquisitice, sua genialidade ou suas mágicas.
Une o passado e presente, sagrado e mundano, real e fantástico, comédia e terror. Não há nela qualquer vestígio da busca do inusitado pelo inusitado, do artifício pelo artifício, do artístico pelo artístico.
Difícil conversar com ela por causa das pausas, das reticências, dos silêncios. Mas vamos conhecê-la melhor.
Ah! Se vamos...
Um caso de amor com a jurisprudência musical
Danilo Campos tem uma fé cega em sua arte. Que não está presa entre as quatro paredes de um fórum do interior. Ali está, apenas, sua vida. Sua alma roda aqui fora, em sua arte. E sua arte é viva, é sua vida. O artista-juiz é um caso interessante dentro da jurisprudência musical. Questionador, inquieto, rebelde (com causa?), acredita que não tem nada certo. Tudo é improvável, tudo é duvidoso.
Danilo teve sua formação musical oriunda das rádios dos anos 1960/70, que as menininhas, trazidas do interior para sua casa, em BH, ouviam na cozinha. Ganhou um violão aos 13 anos, da mãe dona Julinda, professora primária. Ali deve ter começado tudo. Tiveram início as canções, pois os poemas já deviam estar anotados nos cadernos de escola. Fã de Castro Alves, Roberto Carlos e Raul Seixas, briga com ele mesmo por não conseguir ser tão (ou mais) agitado que o homem da “Mosca na Sopa”. E mais romântico, não chegando a compor algo como “O Côncavo e o Convexo”. Mas está lá, it’s over baby, nosso show já terminou, c’est fini... O romantismo e o rock vem desta época adolescente, da Belo Horizonte tranquila, de se passear aos domingos no parque municipal Américo Renné Gianne, andar de barco no laguinho, comer cachorro quente nas Lojas Americanas, tomar sorvete Kibon no carrinho da esquina das ruas Curitiba e Guajajaras, em Lourdes. O romantismo também deve ter vindo com ele. “Deliciosamente romântico”, como o define Feli Tupinambá.
Mas o momento rock também vive ali dentro. Ainda hoje vai por aí, sem destino. Easy rider! Mas tem pressa de chegar. Segue em frente, vai até onde puder, onde Deus quiser. Pois foi seguindo em frente que chegou a Montes Claros, em 1975. Aqui estudou, foi advogado, é juiz, e neste ínterim, levado para outros caminhos, se distanciou da música, sua paixão de adolescente, embora ela estivesse sempre presente, talvez em cima do sofá, junto ao violão.
Não é um deja vu, mas voltou-se ao passado, coisa que a vida só agora deixa. Afinal, vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes, já dizia Rosa. Bom ter guardado suas memórias da adolescência em pastas da vida (eu guardei meus cacarecos em cadernos de viajem).
Demorou muito para lançar este segundo disco. O primeiro considerado filho temporão. Chega na hora certa pois fala, fantaseia, emana o inesperado, fruto da fé constante e do coração agitado pelas turbulências da paixão. O outro foi de interpretações gerais, de outros. Deixa no canto da estante. Quem sabe, um dia, quem sabe...?
“Poemas e Canções” traz coisas ruins e boas, como alguns grooves de baixo, doçura norte-mineira, proesias feitas de prosa e da própria poesia. Mas falta o poderio da voz. Jorginho Santos tinha poderio de voz, mas nem tanta inspiração, embora transpirasse pra caralho. Belchior tinha uma puta imaginação sonora, fez músicas incríveis, mas falta voz. Elis era só voz, como Gal, só étero. Mas isto não chega a intrometer na conversa. O CD soa completamente atual, embora não pareça num primeiro momento.
Não é um disco comercial. Ainda mais nesta época da música ser encontrada na internet, a um click de qualquer um. E de graça! Mas, comercial o que é? Ter seu trabalho reconhecido por inúmeros personagens da vida, comentados, ou vendidos por piratas na feira da esquina? Certa vez encontrei com o cantor e compositor Tino Gomes e disse ter comprado seu CD “Põe com Bôrra!”, o 10º de sua carreira, numa loja do shopping popular. “Pô, enfim estão me copiando. Daqui a pouco serei conhecido nacionalmente!”, falou, contente. Então, o que é ser comercial para quem, como nós, vivemos no interior do interior, do outro lado do lado de lá, longe de onde está o comércio das grandes gravadoras? Do jabá? Acho que ser comercial para nós. É isso: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, o de que um tira prazer de estar próximo, falar da música, cantar a canção.
Acho que Danilo sempre tratou a música com respeito, como ela deve ser tratada. Embora homem de leis, a música parece ser sua religião. Aparece tardiamente, mas “Poemas e Canções” é mais que merecido. Em algumas canções induz o ouvinte a imaginar o cenário da história. Em outras, se mostra brega, chique. Em outras, ainda, é assoprada na vaidade, é a alegria que dá chama. Existe aquela música que ouvida pela primeira vez, é um deslumbramento, o que é bom. E existe aquela que ouvida várias vezes, tem seu momento bom, mas ainda não tem vez.
A candidata a tocar na frequência modulada de Paulinho Narciso, do Benedito Said ou do Serginho da 95, é ”Louco por Você”. A mesma historinha de amor com uma canção fácil, que não tem medo de ser mais pop. É cantada sem muito frenesi, bem relax, guitarrinha chorosa no início, backing vocal gostoso no meio. Vive em realidade o que eu vivia em fantasia. Não tem jeito, a música cabe perfeitamente numa programação de FM, entra na cabeça do povo.
Agora “Tanto Faz”, nos remete as breguices mais gostosas, a breguice de todos nós. Veja bem, eu não lhe quero mal, de jeito nenhum. Aprendi nestes anos e enganos não tentar me provar o contrário. A gente tem seu momento brega sim, e pronto! Se não fosse assim, não falaríamos em um irritante mamanhês e num curioso diminutivo. Amorzinho, nenénzinho, docinho, fofinho. Isso sem falar dos apelidos íntimos. Nosso gosto musical cai exponencialmente, num surto louco a gente ouve meteoro da paixão, princesa, sorria, e todas essas bizarrices românticas e apelativas que brotam como se fossem praga. No fundo no fundo, todo mundo adora ser o neném de alguém e ter um fofucho pra chamar de seu... “Tanto faz” é ótima candidata para os dois tipos de emissoras, AM e FM.
Mas o CD do Danilo Campos tem mais. Existem registros íntimos saborosos, momentos bons e momentos ruins, é claro. Como qualquer um que se arrisca a gravar, é um disco de altos e baixos. De guitarras e teclados. De coro e gaita. E sax e violão, cavaco... E até craviola.
Tem a guitarra swingada de Warleyson Almeida seguida da costura dos teclados programados pelo Wanderson Almeida. Isto tudo acompanhado pelo baixo de Kelson Martins, que arma a cama para o novo cantarolar sem destino. Fugindo do lugar comum, vagando por ermos, perdido, em ruas de contramão. Sem Destino, Easy Rider! Que nos remete a Steppewolf (que lembra The Pusher/Born t’o be Wild), Birds, The Jimi Hendrix Experience... Danilo deve ter bebido na fonte, pois colocou uma banda criativa na cozinha. Que explora a sonoridade musical, ajudando na voz, que não ajuda muito. Mas, fazer o quê?
“Poemas e Canções” tem temperatura pop numa fórmula maluca que mistura o rock, o techno, o progressive, o blues, balada, bossa nova, brega gostoso e até samba rock. Chique, bem! Danilo Campos deve, a partir de agora, ajustar o foco e deixar as idéias amadurecerem um pouco mais. Embora existam músicas de safras antigas e novas, tudo junto e misturado, acho que daqui pra frente, tudo vai ser diferente... Que venha o próximo!
Danilo teve sua formação musical oriunda das rádios dos anos 1960/70, que as menininhas, trazidas do interior para sua casa, em BH, ouviam na cozinha. Ganhou um violão aos 13 anos, da mãe dona Julinda, professora primária. Ali deve ter começado tudo. Tiveram início as canções, pois os poemas já deviam estar anotados nos cadernos de escola. Fã de Castro Alves, Roberto Carlos e Raul Seixas, briga com ele mesmo por não conseguir ser tão (ou mais) agitado que o homem da “Mosca na Sopa”. E mais romântico, não chegando a compor algo como “O Côncavo e o Convexo”. Mas está lá, it’s over baby, nosso show já terminou, c’est fini... O romantismo e o rock vem desta época adolescente, da Belo Horizonte tranquila, de se passear aos domingos no parque municipal Américo Renné Gianne, andar de barco no laguinho, comer cachorro quente nas Lojas Americanas, tomar sorvete Kibon no carrinho da esquina das ruas Curitiba e Guajajaras, em Lourdes. O romantismo também deve ter vindo com ele. “Deliciosamente romântico”, como o define Feli Tupinambá.
Mas o momento rock também vive ali dentro. Ainda hoje vai por aí, sem destino. Easy rider! Mas tem pressa de chegar. Segue em frente, vai até onde puder, onde Deus quiser. Pois foi seguindo em frente que chegou a Montes Claros, em 1975. Aqui estudou, foi advogado, é juiz, e neste ínterim, levado para outros caminhos, se distanciou da música, sua paixão de adolescente, embora ela estivesse sempre presente, talvez em cima do sofá, junto ao violão.
Não é um deja vu, mas voltou-se ao passado, coisa que a vida só agora deixa. Afinal, vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes, já dizia Rosa. Bom ter guardado suas memórias da adolescência em pastas da vida (eu guardei meus cacarecos em cadernos de viajem).
Demorou muito para lançar este segundo disco. O primeiro considerado filho temporão. Chega na hora certa pois fala, fantaseia, emana o inesperado, fruto da fé constante e do coração agitado pelas turbulências da paixão. O outro foi de interpretações gerais, de outros. Deixa no canto da estante. Quem sabe, um dia, quem sabe...?
“Poemas e Canções” traz coisas ruins e boas, como alguns grooves de baixo, doçura norte-mineira, proesias feitas de prosa e da própria poesia. Mas falta o poderio da voz. Jorginho Santos tinha poderio de voz, mas nem tanta inspiração, embora transpirasse pra caralho. Belchior tinha uma puta imaginação sonora, fez músicas incríveis, mas falta voz. Elis era só voz, como Gal, só étero. Mas isto não chega a intrometer na conversa. O CD soa completamente atual, embora não pareça num primeiro momento.
Não é um disco comercial. Ainda mais nesta época da música ser encontrada na internet, a um click de qualquer um. E de graça! Mas, comercial o que é? Ter seu trabalho reconhecido por inúmeros personagens da vida, comentados, ou vendidos por piratas na feira da esquina? Certa vez encontrei com o cantor e compositor Tino Gomes e disse ter comprado seu CD “Põe com Bôrra!”, o 10º de sua carreira, numa loja do shopping popular. “Pô, enfim estão me copiando. Daqui a pouco serei conhecido nacionalmente!”, falou, contente. Então, o que é ser comercial para quem, como nós, vivemos no interior do interior, do outro lado do lado de lá, longe de onde está o comércio das grandes gravadoras? Do jabá? Acho que ser comercial para nós. É isso: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, o de que um tira prazer de estar próximo, falar da música, cantar a canção.
Acho que Danilo sempre tratou a música com respeito, como ela deve ser tratada. Embora homem de leis, a música parece ser sua religião. Aparece tardiamente, mas “Poemas e Canções” é mais que merecido. Em algumas canções induz o ouvinte a imaginar o cenário da história. Em outras, se mostra brega, chique. Em outras, ainda, é assoprada na vaidade, é a alegria que dá chama. Existe aquela música que ouvida pela primeira vez, é um deslumbramento, o que é bom. E existe aquela que ouvida várias vezes, tem seu momento bom, mas ainda não tem vez.
A candidata a tocar na frequência modulada de Paulinho Narciso, do Benedito Said ou do Serginho da 95, é ”Louco por Você”. A mesma historinha de amor com uma canção fácil, que não tem medo de ser mais pop. É cantada sem muito frenesi, bem relax, guitarrinha chorosa no início, backing vocal gostoso no meio. Vive em realidade o que eu vivia em fantasia. Não tem jeito, a música cabe perfeitamente numa programação de FM, entra na cabeça do povo.
Agora “Tanto Faz”, nos remete as breguices mais gostosas, a breguice de todos nós. Veja bem, eu não lhe quero mal, de jeito nenhum. Aprendi nestes anos e enganos não tentar me provar o contrário. A gente tem seu momento brega sim, e pronto! Se não fosse assim, não falaríamos em um irritante mamanhês e num curioso diminutivo. Amorzinho, nenénzinho, docinho, fofinho. Isso sem falar dos apelidos íntimos. Nosso gosto musical cai exponencialmente, num surto louco a gente ouve meteoro da paixão, princesa, sorria, e todas essas bizarrices românticas e apelativas que brotam como se fossem praga. No fundo no fundo, todo mundo adora ser o neném de alguém e ter um fofucho pra chamar de seu... “Tanto faz” é ótima candidata para os dois tipos de emissoras, AM e FM.
Mas o CD do Danilo Campos tem mais. Existem registros íntimos saborosos, momentos bons e momentos ruins, é claro. Como qualquer um que se arrisca a gravar, é um disco de altos e baixos. De guitarras e teclados. De coro e gaita. E sax e violão, cavaco... E até craviola.
Tem a guitarra swingada de Warleyson Almeida seguida da costura dos teclados programados pelo Wanderson Almeida. Isto tudo acompanhado pelo baixo de Kelson Martins, que arma a cama para o novo cantarolar sem destino. Fugindo do lugar comum, vagando por ermos, perdido, em ruas de contramão. Sem Destino, Easy Rider! Que nos remete a Steppewolf (que lembra The Pusher/Born t’o be Wild), Birds, The Jimi Hendrix Experience... Danilo deve ter bebido na fonte, pois colocou uma banda criativa na cozinha. Que explora a sonoridade musical, ajudando na voz, que não ajuda muito. Mas, fazer o quê?
“Poemas e Canções” tem temperatura pop numa fórmula maluca que mistura o rock, o techno, o progressive, o blues, balada, bossa nova, brega gostoso e até samba rock. Chique, bem! Danilo Campos deve, a partir de agora, ajustar o foco e deixar as idéias amadurecerem um pouco mais. Embora existam músicas de safras antigas e novas, tudo junto e misturado, acho que daqui pra frente, tudo vai ser diferente... Que venha o próximo!
Assinar:
Postagens (Atom)